Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Media

Medir o impacto de uma reportagem para além dos “clicks”

Os meios de comunicação digitais habituaram-se a calcular a adesão da sua audiência por uma série de dados, como o número dos clicks de entrada, o tempo de leitura, a maior ou menor fidelidade de um determinado visitante. Estes dados já podem ser medidos, mas ainda há muito debate sobre o seu real significado, em termos do verdadeiro interesse do leitor e das consequências dessa leitura. Um novo passo tecnológico está agora em marcha, com ferramentas para medir o impacto do que foi publicado, e um jornal local nos Estados Unidos, The Journal News, já criou, e está a desenvolver, o seu próprio instrumento  - o Impact Tracker.

A ideia nasceu em The Journal Media News Group, nos subúrbios a norte de Nova Iorque, entre a directora executiva Traci Bauer e a directora digital, Anjanette Delgado, em Janeiro de 2015. Como explica a primeira, em entrevista à Columbia Journalism Review, “se nos deixarmos escravizar por aqueles outros intrumentos de medida à custa do não conhecimento do impacto, vamos acordar um dia e ficar muito arrependidos, como indústria”. (...) 

Outro jornalista, Frank Scandale, membro da equipa que fez o Denver Post ganhar o Pulitzer Prize pela cobertura do tiroteio no liceu de Columbine, conta que prémios como o Pulitzer Prize for Public Service “assentam desde sempre na questão do impacto, mas outras histórias investigadas em profundidade, que não foram nomeadas para esse concurso, têm também importância”. (...) 

Quando se fala em consequências de reportagem de investigação, as perguntas habituais são: “Foram votadas novas medidas legais? Alguém foi demitido? Foi lançado um inquérito?” Mas não tem que ser apenas este lado da questão: 

“Entre os seus exemplos favoritos do efeito de impacto, Traci Bauer menciona uma medalha Purple Heart encontrada na beira de uma estrada e que acabou por ser restituída aos membros da família, e um restaurante popular de comida alemã que pôde reabrir depois de um primeiro encerramento.” 

“[As consequências] não têm que ser sempre alguém que é demitido, ou que vai parar à cadeia, embora essas também possam ser muito boas”  - diz Traci Bauer, com uma risada. “Podem ser muito mais brandas.” 

“Outro exemplo, muito recente, veio de uma reportagem feita numa quinta de cultivo de árvores de Natal. A repórter Heather Clark contou que logo no primeiro dia as vendas eram o dobro e chegavam visitantes de uma área mais vasta. Como lhe explicou o dono, ‘a única coisa diferente do ano passado foi que vocês escreveram sobre nós’.” (...) 

Mas Traci Bauer adverte que não se trata de substituir os anteriores instrumentos de medida e apostar tudo na nova ferramenta:

“Se ignorarmos as outras medidas e nos focarmos em exclusivo no impacto, corremos o risco de perder a audiência. Temos de medir tudo e juntar tudo para tomar decisões estratégicas.” (...) 

 

Mais informação na Columbia Journalism Review

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Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

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