Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
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As “notícias falsas” como oportunidade de reabilitar o jornalismo

“As notícias falsas de hoje não só parecem notícias, como são produzidas por empresas que têm redacções similares às jornalísticas, e contam com uma estrutura de distribuição jamais vista: bilhões de pessoas comuns, usuárias da Internet, podem ajudar a espalhar conteúdos com um clique. Basta apertar o botão de compartilhar nas redes sociais.” Esta reflexão é de Rogério Christolofetti, docente de Jornalismo e investigador no ObjEthos  - Observatório da Ética Jornalística do Brasil. Mas o seu texto tem um título provocante: “As notícias falsas podem não ser tão ruins assim.” Vamos ver o que pretende dizer com isto.

O autor começa por explicar como é que as redes sociais faltaram à sua promessa de “nos conectar ao resto do mundo”:

“Uma década se passou do seu surgimento e percebemos que as plataformas que sustentam as redes sociais facilitam a formação de aglomerados sociais, grupos restritos de pessoas e não ‘todo o mundo’. Na linha do tempo do Facebook não aparecem postagens dos seus 1.234 amigos e por lá só desfilam algumas dezenas de seleccionados. (...) São priorizados, por exemplo, aqueles que curtimos, aqueles com quem trocamos mensagens ou comentários.” (...)  

“A bolha social passa a funcionar quando só recebemos postagens daqueles em quem mais confiamos e quando só recebemos conteúdos que caem no nosso gosto. A rigor, a rede social não quer nos desagradar, ela quer propiciar um ambiente cercado de conforto, segurança e aconchego. Se ficarmos desagradados, é muito possível que não voltaremos à plataforma, e aí, comprometemos sua sustentabilidade financeira.” (...) 

“Então, o efeito das redes sociais é de conformação. O usuário fica gentilmente abrigado num ambiente onde a confrontação de ideias é evitada e onde circulam conteúdos que reforçam o que ele já pensa ou sente. (...) A falta de diversidade de vozes, fontes e versões é um perigo social, que nos desconecta da realidade fragmentada, confusa e contraditória que nos cerca e nos constitui. As paredes da bolha criam uma falsa sensação de segurança.” (...) 

Rogério Christolofetti lembra, a seguir, que “o jornalismo é uma actividade que se justifica socialmente porque atende a certas expectativas dos cidadãos. (...) São funções historicamente delegadas pela sociedade e, quando não atendidas, frustram as pessoas”. 

“Por diversas razões, o jornalismo vive uma ampla crise que mina a confiança depositada pela sociedade e que coloca em risco também a sua sobrevivência. As notícias falsas tornam mais aguda a crise, mas também se revelam uma boa oportunidade para fazer com que os profissionais da área e as organizações de notícia se distanciem dos propagadores de boatos e de outros mal-intencionados.” (...) 

A partir daqui, a sua proposta é que aprendamos as lições do passado recente: 

“Não foi à toa que o sinal amarelo se acendeu após a eleição de Donald Trump. O site BuzzFeed fez um levantamento no período da campanha eleitoral  – de Agosto a Novembro de 2016 –  e identificou que as pessoas compartilharam mais notícias falsas que verdadeiras nas redes sociais nos Estados Unidos. Analistas avaliam que essa disparidade pode ter ajudado a confundir parte do eleitorado, estimulado alguns contigentes a votar e dissuadido outros, interferindo decisivamente no resultado das urnas.” (...) 

O autor refere a utilidade das novas disciplinas de “verificação dos factos”, mas afirma que “é necessário atacar outras três ameaças: a concentração de mercados, a opacidade e a corrosão de certos direitos humanos”. (...) 

“Por fim, é fundamental que as sociedades insistam na manutenção e no fortalecimento dos direitos humanos, principalmente o direito de acesso à informação, a liberdade de informar e a privacidade pessoal. Num ambiente tão atravessado por informações, tão hiperconectado e cada vez mais invasivo nas esferas íntimas, é cada vez mais importante reforçar os sentidos que realçam o valor da pessoa ser única e singular, especial e equânime em direitos e oportunidades.” 

E conclui: 

“Os antídotos contra o oligopólio e a opacidade são democratizar e tornar os media mais transparentes. Os remédios contra a corrosão dos direitos estão na reafirmação do humano. Os desafios são colossais, é verdade, mas pensando bem, as famigeradas notícias falsas podem não ser tão ruins quanto esperávamos. Podem ser uma oportunidade de ouro para que o jornalismo retome seu caminho mais seguro e para que o sistema político se reabilite em sua credibilidade. Espalhe essa ideia. Sem medo.”

  

O texto de Rogério Christolofetti, na íntegra, no ObjEthos

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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