Segunda-feira, 22 de Janeiro, 2018
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As “notícias falsas” como oportunidade de reabilitar o jornalismo

“As notícias falsas de hoje não só parecem notícias, como são produzidas por empresas que têm redacções similares às jornalísticas, e contam com uma estrutura de distribuição jamais vista: bilhões de pessoas comuns, usuárias da Internet, podem ajudar a espalhar conteúdos com um clique. Basta apertar o botão de compartilhar nas redes sociais.” Esta reflexão é de Rogério Christolofetti, docente de Jornalismo e investigador no ObjEthos  - Observatório da Ética Jornalística do Brasil. Mas o seu texto tem um título provocante: “As notícias falsas podem não ser tão ruins assim.” Vamos ver o que pretende dizer com isto.

O autor começa por explicar como é que as redes sociais faltaram à sua promessa de “nos conectar ao resto do mundo”:

“Uma década se passou do seu surgimento e percebemos que as plataformas que sustentam as redes sociais facilitam a formação de aglomerados sociais, grupos restritos de pessoas e não ‘todo o mundo’. Na linha do tempo do Facebook não aparecem postagens dos seus 1.234 amigos e por lá só desfilam algumas dezenas de seleccionados. (...) São priorizados, por exemplo, aqueles que curtimos, aqueles com quem trocamos mensagens ou comentários.” (...)  

“A bolha social passa a funcionar quando só recebemos postagens daqueles em quem mais confiamos e quando só recebemos conteúdos que caem no nosso gosto. A rigor, a rede social não quer nos desagradar, ela quer propiciar um ambiente cercado de conforto, segurança e aconchego. Se ficarmos desagradados, é muito possível que não voltaremos à plataforma, e aí, comprometemos sua sustentabilidade financeira.” (...) 

“Então, o efeito das redes sociais é de conformação. O usuário fica gentilmente abrigado num ambiente onde a confrontação de ideias é evitada e onde circulam conteúdos que reforçam o que ele já pensa ou sente. (...) A falta de diversidade de vozes, fontes e versões é um perigo social, que nos desconecta da realidade fragmentada, confusa e contraditória que nos cerca e nos constitui. As paredes da bolha criam uma falsa sensação de segurança.” (...) 

Rogério Christolofetti lembra, a seguir, que “o jornalismo é uma actividade que se justifica socialmente porque atende a certas expectativas dos cidadãos. (...) São funções historicamente delegadas pela sociedade e, quando não atendidas, frustram as pessoas”. 

“Por diversas razões, o jornalismo vive uma ampla crise que mina a confiança depositada pela sociedade e que coloca em risco também a sua sobrevivência. As notícias falsas tornam mais aguda a crise, mas também se revelam uma boa oportunidade para fazer com que os profissionais da área e as organizações de notícia se distanciem dos propagadores de boatos e de outros mal-intencionados.” (...) 

A partir daqui, a sua proposta é que aprendamos as lições do passado recente: 

“Não foi à toa que o sinal amarelo se acendeu após a eleição de Donald Trump. O site BuzzFeed fez um levantamento no período da campanha eleitoral  – de Agosto a Novembro de 2016 –  e identificou que as pessoas compartilharam mais notícias falsas que verdadeiras nas redes sociais nos Estados Unidos. Analistas avaliam que essa disparidade pode ter ajudado a confundir parte do eleitorado, estimulado alguns contigentes a votar e dissuadido outros, interferindo decisivamente no resultado das urnas.” (...) 

O autor refere a utilidade das novas disciplinas de “verificação dos factos”, mas afirma que “é necessário atacar outras três ameaças: a concentração de mercados, a opacidade e a corrosão de certos direitos humanos”. (...) 

“Por fim, é fundamental que as sociedades insistam na manutenção e no fortalecimento dos direitos humanos, principalmente o direito de acesso à informação, a liberdade de informar e a privacidade pessoal. Num ambiente tão atravessado por informações, tão hiperconectado e cada vez mais invasivo nas esferas íntimas, é cada vez mais importante reforçar os sentidos que realçam o valor da pessoa ser única e singular, especial e equânime em direitos e oportunidades.” 

E conclui: 

“Os antídotos contra o oligopólio e a opacidade são democratizar e tornar os media mais transparentes. Os remédios contra a corrosão dos direitos estão na reafirmação do humano. Os desafios são colossais, é verdade, mas pensando bem, as famigeradas notícias falsas podem não ser tão ruins quanto esperávamos. Podem ser uma oportunidade de ouro para que o jornalismo retome seu caminho mais seguro e para que o sistema político se reabilite em sua credibilidade. Espalhe essa ideia. Sem medo.”

  

O texto de Rogério Christolofetti, na íntegra, no ObjEthos

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Quatro congressos de jornalistas e gestores de Media em Portugal Ver galeria

Vão decorrer este ano, em Lisboa e Cascais, quase em simultâneo, quatro importantes encontros internacionais de jornalistas, directores e proprietários de media, ou ainda de especialistas nas novas tecnologias digitais aplicadas à comunicação. O título que os agrupa todos é Media Summit, e os dois mais concorridos trazem ao nosso País, cada um deles, perto de um milhar de participantes. Entre o final de Maio e o princípio de Junho, os grandes nomes de referência dos jornais e agências de Imprensa, os Repórteres sem Fronteiras como o Consórcio Internacional de Jornalistas, as plataformas das redes sociais como os representantes da Federação Internacional de Jornalistas, vão poder, pela proximidade física entre todos os eventos, avaliar problemas diversos ou comuns e, eventualmente, marcar encontros entre si.

António Lobo Xavier em Janeiro no novo ciclo de jantares-debate do CPI Ver galeria

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António Bernardo Aranha da Gama Lobo Xavier, de seu nome completo, nasceu em Coimbra em 1959, e é um prestigiado advogado, ligado desde a juventude ao CDS-PP, com uma intervenção política regular e respeitada, designadamente, no programa televisivo “Quadratura do Círculo”, no qual participa desde 2004.


O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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