Sábado, 25 de Maio, 2019
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As “notícias falsas” como oportunidade de reabilitar o jornalismo

“As notícias falsas de hoje não só parecem notícias, como são produzidas por empresas que têm redacções similares às jornalísticas, e contam com uma estrutura de distribuição jamais vista: bilhões de pessoas comuns, usuárias da Internet, podem ajudar a espalhar conteúdos com um clique. Basta apertar o botão de compartilhar nas redes sociais.” Esta reflexão é de Rogério Christolofetti, docente de Jornalismo e investigador no ObjEthos  - Observatório da Ética Jornalística do Brasil. Mas o seu texto tem um título provocante: “As notícias falsas podem não ser tão ruins assim.” Vamos ver o que pretende dizer com isto.

O autor começa por explicar como é que as redes sociais faltaram à sua promessa de “nos conectar ao resto do mundo”:

“Uma década se passou do seu surgimento e percebemos que as plataformas que sustentam as redes sociais facilitam a formação de aglomerados sociais, grupos restritos de pessoas e não ‘todo o mundo’. Na linha do tempo do Facebook não aparecem postagens dos seus 1.234 amigos e por lá só desfilam algumas dezenas de seleccionados. (...) São priorizados, por exemplo, aqueles que curtimos, aqueles com quem trocamos mensagens ou comentários.” (...)  

“A bolha social passa a funcionar quando só recebemos postagens daqueles em quem mais confiamos e quando só recebemos conteúdos que caem no nosso gosto. A rigor, a rede social não quer nos desagradar, ela quer propiciar um ambiente cercado de conforto, segurança e aconchego. Se ficarmos desagradados, é muito possível que não voltaremos à plataforma, e aí, comprometemos sua sustentabilidade financeira.” (...) 

“Então, o efeito das redes sociais é de conformação. O usuário fica gentilmente abrigado num ambiente onde a confrontação de ideias é evitada e onde circulam conteúdos que reforçam o que ele já pensa ou sente. (...) A falta de diversidade de vozes, fontes e versões é um perigo social, que nos desconecta da realidade fragmentada, confusa e contraditória que nos cerca e nos constitui. As paredes da bolha criam uma falsa sensação de segurança.” (...) 

Rogério Christolofetti lembra, a seguir, que “o jornalismo é uma actividade que se justifica socialmente porque atende a certas expectativas dos cidadãos. (...) São funções historicamente delegadas pela sociedade e, quando não atendidas, frustram as pessoas”. 

“Por diversas razões, o jornalismo vive uma ampla crise que mina a confiança depositada pela sociedade e que coloca em risco também a sua sobrevivência. As notícias falsas tornam mais aguda a crise, mas também se revelam uma boa oportunidade para fazer com que os profissionais da área e as organizações de notícia se distanciem dos propagadores de boatos e de outros mal-intencionados.” (...) 

A partir daqui, a sua proposta é que aprendamos as lições do passado recente: 

“Não foi à toa que o sinal amarelo se acendeu após a eleição de Donald Trump. O site BuzzFeed fez um levantamento no período da campanha eleitoral  – de Agosto a Novembro de 2016 –  e identificou que as pessoas compartilharam mais notícias falsas que verdadeiras nas redes sociais nos Estados Unidos. Analistas avaliam que essa disparidade pode ter ajudado a confundir parte do eleitorado, estimulado alguns contigentes a votar e dissuadido outros, interferindo decisivamente no resultado das urnas.” (...) 

O autor refere a utilidade das novas disciplinas de “verificação dos factos”, mas afirma que “é necessário atacar outras três ameaças: a concentração de mercados, a opacidade e a corrosão de certos direitos humanos”. (...) 

“Por fim, é fundamental que as sociedades insistam na manutenção e no fortalecimento dos direitos humanos, principalmente o direito de acesso à informação, a liberdade de informar e a privacidade pessoal. Num ambiente tão atravessado por informações, tão hiperconectado e cada vez mais invasivo nas esferas íntimas, é cada vez mais importante reforçar os sentidos que realçam o valor da pessoa ser única e singular, especial e equânime em direitos e oportunidades.” 

E conclui: 

“Os antídotos contra o oligopólio e a opacidade são democratizar e tornar os media mais transparentes. Os remédios contra a corrosão dos direitos estão na reafirmação do humano. Os desafios são colossais, é verdade, mas pensando bem, as famigeradas notícias falsas podem não ser tão ruins quanto esperávamos. Podem ser uma oportunidade de ouro para que o jornalismo retome seu caminho mais seguro e para que o sistema político se reabilite em sua credibilidade. Espalhe essa ideia. Sem medo.”

  

O texto de Rogério Christolofetti, na íntegra, no ObjEthos

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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