Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
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As “notícias falsas” como oportunidade de reabilitar o jornalismo

“As notícias falsas de hoje não só parecem notícias, como são produzidas por empresas que têm redacções similares às jornalísticas, e contam com uma estrutura de distribuição jamais vista: bilhões de pessoas comuns, usuárias da Internet, podem ajudar a espalhar conteúdos com um clique. Basta apertar o botão de compartilhar nas redes sociais.” Esta reflexão é de Rogério Christolofetti, docente de Jornalismo e investigador no ObjEthos  - Observatório da Ética Jornalística do Brasil. Mas o seu texto tem um título provocante: “As notícias falsas podem não ser tão ruins assim.” Vamos ver o que pretende dizer com isto.

O autor começa por explicar como é que as redes sociais faltaram à sua promessa de “nos conectar ao resto do mundo”:

“Uma década se passou do seu surgimento e percebemos que as plataformas que sustentam as redes sociais facilitam a formação de aglomerados sociais, grupos restritos de pessoas e não ‘todo o mundo’. Na linha do tempo do Facebook não aparecem postagens dos seus 1.234 amigos e por lá só desfilam algumas dezenas de seleccionados. (...) São priorizados, por exemplo, aqueles que curtimos, aqueles com quem trocamos mensagens ou comentários.” (...)  

“A bolha social passa a funcionar quando só recebemos postagens daqueles em quem mais confiamos e quando só recebemos conteúdos que caem no nosso gosto. A rigor, a rede social não quer nos desagradar, ela quer propiciar um ambiente cercado de conforto, segurança e aconchego. Se ficarmos desagradados, é muito possível que não voltaremos à plataforma, e aí, comprometemos sua sustentabilidade financeira.” (...) 

“Então, o efeito das redes sociais é de conformação. O usuário fica gentilmente abrigado num ambiente onde a confrontação de ideias é evitada e onde circulam conteúdos que reforçam o que ele já pensa ou sente. (...) A falta de diversidade de vozes, fontes e versões é um perigo social, que nos desconecta da realidade fragmentada, confusa e contraditória que nos cerca e nos constitui. As paredes da bolha criam uma falsa sensação de segurança.” (...) 

Rogério Christolofetti lembra, a seguir, que “o jornalismo é uma actividade que se justifica socialmente porque atende a certas expectativas dos cidadãos. (...) São funções historicamente delegadas pela sociedade e, quando não atendidas, frustram as pessoas”. 

“Por diversas razões, o jornalismo vive uma ampla crise que mina a confiança depositada pela sociedade e que coloca em risco também a sua sobrevivência. As notícias falsas tornam mais aguda a crise, mas também se revelam uma boa oportunidade para fazer com que os profissionais da área e as organizações de notícia se distanciem dos propagadores de boatos e de outros mal-intencionados.” (...) 

A partir daqui, a sua proposta é que aprendamos as lições do passado recente: 

“Não foi à toa que o sinal amarelo se acendeu após a eleição de Donald Trump. O site BuzzFeed fez um levantamento no período da campanha eleitoral  – de Agosto a Novembro de 2016 –  e identificou que as pessoas compartilharam mais notícias falsas que verdadeiras nas redes sociais nos Estados Unidos. Analistas avaliam que essa disparidade pode ter ajudado a confundir parte do eleitorado, estimulado alguns contigentes a votar e dissuadido outros, interferindo decisivamente no resultado das urnas.” (...) 

O autor refere a utilidade das novas disciplinas de “verificação dos factos”, mas afirma que “é necessário atacar outras três ameaças: a concentração de mercados, a opacidade e a corrosão de certos direitos humanos”. (...) 

“Por fim, é fundamental que as sociedades insistam na manutenção e no fortalecimento dos direitos humanos, principalmente o direito de acesso à informação, a liberdade de informar e a privacidade pessoal. Num ambiente tão atravessado por informações, tão hiperconectado e cada vez mais invasivo nas esferas íntimas, é cada vez mais importante reforçar os sentidos que realçam o valor da pessoa ser única e singular, especial e equânime em direitos e oportunidades.” 

E conclui: 

“Os antídotos contra o oligopólio e a opacidade são democratizar e tornar os media mais transparentes. Os remédios contra a corrosão dos direitos estão na reafirmação do humano. Os desafios são colossais, é verdade, mas pensando bem, as famigeradas notícias falsas podem não ser tão ruins quanto esperávamos. Podem ser uma oportunidade de ouro para que o jornalismo retome seu caminho mais seguro e para que o sistema político se reabilite em sua credibilidade. Espalhe essa ideia. Sem medo.”

  

O texto de Rogério Christolofetti, na íntegra, no ObjEthos

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...