Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
Evocação

Como nasceu no Brasil a reflexão crítica sobre o jornalismo

No final de 1964, o jornalista Alberto Dines foi fazer um curso de três meses na Columbia University, em Nova Iorque e, entre outros jornais, esteve no New York Times. Uma das coisas que o marcaram ali foi “um mural enorme feito pela redacção, que se chamava Winners and Sinners. Vencedores e pecadores. O mural apresentava comentários sobre matérias publicadas pelo jornal, erros, críticas...” Quando voltou para o Jornal do Brasil, a direcção incentivou-o a preparar algo de inovador, que “não poderia ser um mural, mas deveria ir na mesma direcção”. Foi assim que nasceram os Cadernos de Jornalismo, para difusão interna entre os próprios jornalistas da casa, “a fim de discutir a profissão”. De acordo com Dines, “deveriam ser uma adaptação do media criticism do jornalismo americano, uma forma de discutir o pensamento jornalístico brasileiro”.

É este o tema do primeiro de um grupo de artigos da mais recente edição da Revista de Jornalismo ESPM  - Edição Brasileira da Columbia Journalism Review, agora publicada no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria. Nesse trabalho, a socióloga e pesquisadora Alzira Alves de Abreu conta a história de uma “publicação que inspirou inúmeros projectos na área, numa espécie de linha sucessória, os Cadernos de Jornalismo e Comunicação do Jornal do Brasil, criados por Alberto Dines na esteira da reforma do JB nos anos 1960”. 

No texto de apresentação da primeira edição, Dines afirmava: “Este não é o jornal do jornal. É apenas um tímido ensaio de um jornal para jornalistas. Será isso possível? Será isso por demais pretensioso? Não conseguimos manusear com tanta habilidade a atenção e o interesse de centenas de milhares de leitores, não conseguiremos manobrar com os meandros da curiosidade dos jornalistas? Jornalista não é leitor? Se não é leitor, como conhece os seus segredos?” (nº 1, maio de 1965, p. 1). 

E, mais adiante: “Como cumprir a função educativa e de difusão cultural se ao próprio jornalista não forem fornecidas oportunidades para o seu aprimoramento? Esta é a motivação número 1 desta publicação, ainda que a meta seja grande demais para um grupo de jornalistas isolados alcançar” (p. 7). “Ainda indicava que, embora o Jornal do Brasil tivesse facilitado recursos para a edição dos Cadernos, estes eram considerados um órgão à parte da empresa, não eram parte da edição diária, nem estavam sob a intervenção do colegiado de editorialistas.” (...) 

“No primeiro trimestre de 1968 foi feito um acordo com uma rede de livrarias, a Entrelivros, para vender os Cadernos de Jornalismo, a fim de atingir um público mais amplo, além dos jornalistas, como educadores, publicitários e sociólogos. Ainda em 1968, os Cadernos passaram a publicar o resumo de um livro que discutisse a comunicação e que poderia ser utilizado pelos estudantes de jornalismo. Ao serem vendidos em livrarias, bancas de jornais ou por assinatura, passaram a ter um espaço dedicado à publicidade, o que produzia lucro.” (...) 

A partir da sexta edição, já com o título completo de Cadernos de Jornalismo e Comunicação, “a publicação ampliou os seus objectivos. Estava voltada agora para um público mais amplo, e os temas não se limitavam a discutir a Imprensa, podiam abranger problemas contemporâneos de várias perspectivas e discutir as práticas profissionais do jornalismo. Artigos sobre educação e comunicação, escritos por especialistas brasileiros e estrangeiros, passaram a ser uma constante nos Cadernos. No número 10, de Maio de 1968, além do artigo de Dines sobre educação e comunicação, encontram-se textos sobre o futuro do ensino, um deles escrito por John I. Goodlad, da Universidade da Califórnia”. 

“Encontram-se, ainda, artigos de sociólogos, como o francês Edgar Morin, que publicou A Entrevista nas Ciências Sociais no Rádio e na Televisão (nº 11, Junho de 1968); um texto da filósofa alemã Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro (nº 12, Julho de 1968); um artigo do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, A Juventude e a Rebelião das Massas (nº 12, Julho de 1968); e de muitos outros especialistas que escreviam sobre diferentes temas. A tiragem chegou a ser um pouco superior a três mil exemplares. Foi a primeira publicação no Brasil que se dedicou a abordar a crítica sobre os media.” (...) 

“Os Cadernos de Jornalismo abriram caminho para outras experiências feitas por Dines, como a coluna Jornal dos Jornais, na Folha de S.Paulo, na qual fazia críticas aos media no período da ditadura militar, e o Observatório da Imprensa, em que passou a discutir o desempenho dos meios de comunicação de massa. O Observatório tem um programa semanal na TV Educativa do Rio de Janeiro e um site na internet, em que jornalistas, críticos dos media, professores e estudantes de comunicação debatem o papel e a responsabilidade dos media.” (...) 

 

O trabalho de Alzira Alves de Abreu, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Universidades que promovem o ensino e a prática de jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

Jornalista e historiador de Macau vencem Prémio de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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