Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Evocação

Como nasceu no Brasil a reflexão crítica sobre o jornalismo

No final de 1964, o jornalista Alberto Dines foi fazer um curso de três meses na Columbia University, em Nova Iorque e, entre outros jornais, esteve no New York Times. Uma das coisas que o marcaram ali foi “um mural enorme feito pela redacção, que se chamava Winners and Sinners. Vencedores e pecadores. O mural apresentava comentários sobre matérias publicadas pelo jornal, erros, críticas...” Quando voltou para o Jornal do Brasil, a direcção incentivou-o a preparar algo de inovador, que “não poderia ser um mural, mas deveria ir na mesma direcção”. Foi assim que nasceram os Cadernos de Jornalismo, para difusão interna entre os próprios jornalistas da casa, “a fim de discutir a profissão”. De acordo com Dines, “deveriam ser uma adaptação do media criticism do jornalismo americano, uma forma de discutir o pensamento jornalístico brasileiro”.

É este o tema do primeiro de um grupo de artigos da mais recente edição da Revista de Jornalismo ESPM  - Edição Brasileira da Columbia Journalism Review, agora publicada no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria. Nesse trabalho, a socióloga e pesquisadora Alzira Alves de Abreu conta a história de uma “publicação que inspirou inúmeros projectos na área, numa espécie de linha sucessória, os Cadernos de Jornalismo e Comunicação do Jornal do Brasil, criados por Alberto Dines na esteira da reforma do JB nos anos 1960”. 

No texto de apresentação da primeira edição, Dines afirmava: “Este não é o jornal do jornal. É apenas um tímido ensaio de um jornal para jornalistas. Será isso possível? Será isso por demais pretensioso? Não conseguimos manusear com tanta habilidade a atenção e o interesse de centenas de milhares de leitores, não conseguiremos manobrar com os meandros da curiosidade dos jornalistas? Jornalista não é leitor? Se não é leitor, como conhece os seus segredos?” (nº 1, maio de 1965, p. 1). 

E, mais adiante: “Como cumprir a função educativa e de difusão cultural se ao próprio jornalista não forem fornecidas oportunidades para o seu aprimoramento? Esta é a motivação número 1 desta publicação, ainda que a meta seja grande demais para um grupo de jornalistas isolados alcançar” (p. 7). “Ainda indicava que, embora o Jornal do Brasil tivesse facilitado recursos para a edição dos Cadernos, estes eram considerados um órgão à parte da empresa, não eram parte da edição diária, nem estavam sob a intervenção do colegiado de editorialistas.” (...) 

“No primeiro trimestre de 1968 foi feito um acordo com uma rede de livrarias, a Entrelivros, para vender os Cadernos de Jornalismo, a fim de atingir um público mais amplo, além dos jornalistas, como educadores, publicitários e sociólogos. Ainda em 1968, os Cadernos passaram a publicar o resumo de um livro que discutisse a comunicação e que poderia ser utilizado pelos estudantes de jornalismo. Ao serem vendidos em livrarias, bancas de jornais ou por assinatura, passaram a ter um espaço dedicado à publicidade, o que produzia lucro.” (...) 

A partir da sexta edição, já com o título completo de Cadernos de Jornalismo e Comunicação, “a publicação ampliou os seus objectivos. Estava voltada agora para um público mais amplo, e os temas não se limitavam a discutir a Imprensa, podiam abranger problemas contemporâneos de várias perspectivas e discutir as práticas profissionais do jornalismo. Artigos sobre educação e comunicação, escritos por especialistas brasileiros e estrangeiros, passaram a ser uma constante nos Cadernos. No número 10, de Maio de 1968, além do artigo de Dines sobre educação e comunicação, encontram-se textos sobre o futuro do ensino, um deles escrito por John I. Goodlad, da Universidade da Califórnia”. 

“Encontram-se, ainda, artigos de sociólogos, como o francês Edgar Morin, que publicou A Entrevista nas Ciências Sociais no Rádio e na Televisão (nº 11, Junho de 1968); um texto da filósofa alemã Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro (nº 12, Julho de 1968); um artigo do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, A Juventude e a Rebelião das Massas (nº 12, Julho de 1968); e de muitos outros especialistas que escreviam sobre diferentes temas. A tiragem chegou a ser um pouco superior a três mil exemplares. Foi a primeira publicação no Brasil que se dedicou a abordar a crítica sobre os media.” (...) 

“Os Cadernos de Jornalismo abriram caminho para outras experiências feitas por Dines, como a coluna Jornal dos Jornais, na Folha de S.Paulo, na qual fazia críticas aos media no período da ditadura militar, e o Observatório da Imprensa, em que passou a discutir o desempenho dos meios de comunicação de massa. O Observatório tem um programa semanal na TV Educativa do Rio de Janeiro e um site na internet, em que jornalistas, críticos dos media, professores e estudantes de comunicação debatem o papel e a responsabilidade dos media.” (...) 

 

O trabalho de Alzira Alves de Abreu, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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