Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Media

Os Media têm de provar que são credíveis

Mais de metade dos norte-americanos continua a não confiar nos jornalistas, segundo um recente inquérito do Poynter Institute sobre a a credibilidade dos media. E Marty Baron, hoje director de The Washington Post, acrescenta que 25% ainda acreditam que Barack Obama não nasceu em território dos Estados Unidos e é um muçulmano. A sua proposta é que vamos ter de fazer mais pedagogia, explicar ao público como elaboramos o jornalismo que lhe damos a ler  - e que vai levar muito tempo, mas que será compensado a longo prazo. A sua intervenção deu-se durante a primeira Cimeira sobre Ética Jornalística organizada pelo Poynter Institute, com o mais explícito dos títulos possíveis  -  The Press and the President: Trust and Media in a New Era. Parte dela pode ver-se (e ouvir-se) neste vídeo.

A jornalista Indira Lakshmanan, hoje no Boston Globe, e docente responsável pela Ética Jornalística no Poynter Institute, dirigu a entrevista que lhe foi feita durante a Cimeira, e que aqui citamos. 

Marty Baron defendeu que temos de “temos de levantar a cortina sobre o nosso processo de fazer reportagem, verificação de factos e análise de fontes”, como passo indispensável para recuperar “a confiança no papel vital que o jornalismo tem para a democracia”. 

Entre outras coisas que podem fazer as redacções, Baron inclui anotar as reportagens e pôr os links para os documentos originais, incluindo áudio e vídeo; ter a certeza de que fazemos a cobertura de comunidades marginalizadas que podem ficar de fora dos grandes mercados dos media; compor redacções com pessoas de diferentes proveniências, e identificar o que é notícia, opinião e análise, para que os leitores compreendam a diferença. 

“Eu acho que temos de pensar a longo prazo”  - afirmou. “O que importa é que o trabalho seja bom, seja sólido, seja elaborado de modo correcto, honesto e honroso, e assim será válido  - acredito que será validado [reconhecido, confirmado] a longo prazo.” (...) 

A respeito dos ataques partidários contra os media, Marty Baron reconhece que o ambiente nos EUA, neste momento, faz com que, “se não estivermos a cem por cento de um determinado lado, então não estamos de todo, somos considerados contra”. 

Mesmo dentro do Partido Republicano, “se alguém não estiver a cem por cento por Trump, é considerado como anti-Trump, um não verdadeiro conservador, ou não verdadeiro Republicano, seja o que for que estes termos signifiquem actualmente”. (...) 

Defendeu que temos de fazer tudo para conseguir que a população se torne “mais educada a respeito do seu consumo de notícias”:

“Temos que fazer mais programas de literacia do jornalismo, ajudar a desenvolver mais pensamento crítico, mais discernimento entre os consumidores de notícias. É um processo a longo prazo, e vai levar muito tempo.” (...) 

Interrogado sobre se acha que a “verificação de factos” funciona: 

“Não acho que seja inútil... só porque uma parte da população não acredite nela. O nosso trabalho é procurar chegar à verdade, procurar reunir os factos e colocá-los no seu contexto. É isso que fazemos com o Fact Checker, e é o que fazemos com o resto da nossa reportagem. Em último caso, cabe aos membros do público decidirem se vão acreditar nisso ou não. (...) Algumas pessoas só vão acreditar no que querem acreditar.” (...) 

Sobre o sustento económico do jornalismo:

“Acho que as pessoas estão a compreender que, se querem jornalismo de qualidade, precisam de pagar por ele... Isto é verdade ao nível nacional e ainda mais ao nível local e regional, onde passei a maior parte da minha carreira.” 

"[Esses meios] oferecem algo de único, verdadeiramente único, que mais ninguém vai fazer a cobertura das suas comunidades do modo como eles fazem, e eu acho que tem de ser explicado às pessoas, nessas comunidades, que vão ter de pagar por ele. E nem é assim tão caro."

 

A entrevista com Marty Baron, na íntegra, no Poynter.org

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...