null, 26 de Maio, 2019
Media

Os Media têm de provar que são credíveis

Mais de metade dos norte-americanos continua a não confiar nos jornalistas, segundo um recente inquérito do Poynter Institute sobre a a credibilidade dos media. E Marty Baron, hoje director de The Washington Post, acrescenta que 25% ainda acreditam que Barack Obama não nasceu em território dos Estados Unidos e é um muçulmano. A sua proposta é que vamos ter de fazer mais pedagogia, explicar ao público como elaboramos o jornalismo que lhe damos a ler  - e que vai levar muito tempo, mas que será compensado a longo prazo. A sua intervenção deu-se durante a primeira Cimeira sobre Ética Jornalística organizada pelo Poynter Institute, com o mais explícito dos títulos possíveis  -  The Press and the President: Trust and Media in a New Era. Parte dela pode ver-se (e ouvir-se) neste vídeo.

A jornalista Indira Lakshmanan, hoje no Boston Globe, e docente responsável pela Ética Jornalística no Poynter Institute, dirigu a entrevista que lhe foi feita durante a Cimeira, e que aqui citamos. 

Marty Baron defendeu que temos de “temos de levantar a cortina sobre o nosso processo de fazer reportagem, verificação de factos e análise de fontes”, como passo indispensável para recuperar “a confiança no papel vital que o jornalismo tem para a democracia”. 

Entre outras coisas que podem fazer as redacções, Baron inclui anotar as reportagens e pôr os links para os documentos originais, incluindo áudio e vídeo; ter a certeza de que fazemos a cobertura de comunidades marginalizadas que podem ficar de fora dos grandes mercados dos media; compor redacções com pessoas de diferentes proveniências, e identificar o que é notícia, opinião e análise, para que os leitores compreendam a diferença. 

“Eu acho que temos de pensar a longo prazo”  - afirmou. “O que importa é que o trabalho seja bom, seja sólido, seja elaborado de modo correcto, honesto e honroso, e assim será válido  - acredito que será validado [reconhecido, confirmado] a longo prazo.” (...) 

A respeito dos ataques partidários contra os media, Marty Baron reconhece que o ambiente nos EUA, neste momento, faz com que, “se não estivermos a cem por cento de um determinado lado, então não estamos de todo, somos considerados contra”. 

Mesmo dentro do Partido Republicano, “se alguém não estiver a cem por cento por Trump, é considerado como anti-Trump, um não verdadeiro conservador, ou não verdadeiro Republicano, seja o que for que estes termos signifiquem actualmente”. (...) 

Defendeu que temos de fazer tudo para conseguir que a população se torne “mais educada a respeito do seu consumo de notícias”:

“Temos que fazer mais programas de literacia do jornalismo, ajudar a desenvolver mais pensamento crítico, mais discernimento entre os consumidores de notícias. É um processo a longo prazo, e vai levar muito tempo.” (...) 

Interrogado sobre se acha que a “verificação de factos” funciona: 

“Não acho que seja inútil... só porque uma parte da população não acredite nela. O nosso trabalho é procurar chegar à verdade, procurar reunir os factos e colocá-los no seu contexto. É isso que fazemos com o Fact Checker, e é o que fazemos com o resto da nossa reportagem. Em último caso, cabe aos membros do público decidirem se vão acreditar nisso ou não. (...) Algumas pessoas só vão acreditar no que querem acreditar.” (...) 

Sobre o sustento económico do jornalismo:

“Acho que as pessoas estão a compreender que, se querem jornalismo de qualidade, precisam de pagar por ele... Isto é verdade ao nível nacional e ainda mais ao nível local e regional, onde passei a maior parte da minha carreira.” 

"[Esses meios] oferecem algo de único, verdadeiramente único, que mais ninguém vai fazer a cobertura das suas comunidades do modo como eles fazem, e eu acho que tem de ser explicado às pessoas, nessas comunidades, que vão ter de pagar por ele. E nem é assim tão caro."

 

A entrevista com Marty Baron, na íntegra, no Poynter.org

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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