Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
Media

Os Media têm de provar que são credíveis

Mais de metade dos norte-americanos continua a não confiar nos jornalistas, segundo um recente inquérito do Poynter Institute sobre a a credibilidade dos media. E Marty Baron, hoje director de The Washington Post, acrescenta que 25% ainda acreditam que Barack Obama não nasceu em território dos Estados Unidos e é um muçulmano. A sua proposta é que vamos ter de fazer mais pedagogia, explicar ao público como elaboramos o jornalismo que lhe damos a ler  - e que vai levar muito tempo, mas que será compensado a longo prazo. A sua intervenção deu-se durante a primeira Cimeira sobre Ética Jornalística organizada pelo Poynter Institute, com o mais explícito dos títulos possíveis  -  The Press and the President: Trust and Media in a New Era. Parte dela pode ver-se (e ouvir-se) neste vídeo.

A jornalista Indira Lakshmanan, hoje no Boston Globe, e docente responsável pela Ética Jornalística no Poynter Institute, dirigu a entrevista que lhe foi feita durante a Cimeira, e que aqui citamos. 

Marty Baron defendeu que temos de “temos de levantar a cortina sobre o nosso processo de fazer reportagem, verificação de factos e análise de fontes”, como passo indispensável para recuperar “a confiança no papel vital que o jornalismo tem para a democracia”. 

Entre outras coisas que podem fazer as redacções, Baron inclui anotar as reportagens e pôr os links para os documentos originais, incluindo áudio e vídeo; ter a certeza de que fazemos a cobertura de comunidades marginalizadas que podem ficar de fora dos grandes mercados dos media; compor redacções com pessoas de diferentes proveniências, e identificar o que é notícia, opinião e análise, para que os leitores compreendam a diferença. 

“Eu acho que temos de pensar a longo prazo”  - afirmou. “O que importa é que o trabalho seja bom, seja sólido, seja elaborado de modo correcto, honesto e honroso, e assim será válido  - acredito que será validado [reconhecido, confirmado] a longo prazo.” (...) 

A respeito dos ataques partidários contra os media, Marty Baron reconhece que o ambiente nos EUA, neste momento, faz com que, “se não estivermos a cem por cento de um determinado lado, então não estamos de todo, somos considerados contra”. 

Mesmo dentro do Partido Republicano, “se alguém não estiver a cem por cento por Trump, é considerado como anti-Trump, um não verdadeiro conservador, ou não verdadeiro Republicano, seja o que for que estes termos signifiquem actualmente”. (...) 

Defendeu que temos de fazer tudo para conseguir que a população se torne “mais educada a respeito do seu consumo de notícias”:

“Temos que fazer mais programas de literacia do jornalismo, ajudar a desenvolver mais pensamento crítico, mais discernimento entre os consumidores de notícias. É um processo a longo prazo, e vai levar muito tempo.” (...) 

Interrogado sobre se acha que a “verificação de factos” funciona: 

“Não acho que seja inútil... só porque uma parte da população não acredite nela. O nosso trabalho é procurar chegar à verdade, procurar reunir os factos e colocá-los no seu contexto. É isso que fazemos com o Fact Checker, e é o que fazemos com o resto da nossa reportagem. Em último caso, cabe aos membros do público decidirem se vão acreditar nisso ou não. (...) Algumas pessoas só vão acreditar no que querem acreditar.” (...) 

Sobre o sustento económico do jornalismo:

“Acho que as pessoas estão a compreender que, se querem jornalismo de qualidade, precisam de pagar por ele... Isto é verdade ao nível nacional e ainda mais ao nível local e regional, onde passei a maior parte da minha carreira.” 

"[Esses meios] oferecem algo de único, verdadeiramente único, que mais ninguém vai fazer a cobertura das suas comunidades do modo como eles fazem, e eu acho que tem de ser explicado às pessoas, nessas comunidades, que vão ter de pagar por ele. E nem é assim tão caro."

 

A entrevista com Marty Baron, na íntegra, no Poynter.org

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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