Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Fórum

Jornalismo na era digital: “cão de guarda” ou “cão de colo”?

A Internet cresceu depressa, de 400 milhões de utentes em 2000 para os cerca de 3,5 milhares de milhões que tem hoje. Para os media, passarem a estar online trouxe desafios extraordinários. O jornalismo, como “cão de guarda” para vigiar os abusos do poder, é cada vez mais criticado, ameaçado e atacado tanto por interesses de empresas como por poderes globais, sendo ainda objecto de descrédito público em consequência da proliferação das chamadas “notícias falsas”. O Global Internet Report 2017, agora divulgado pela organização não-lucrativa Internet Society, põe, em última instância, a questão de saber se o futuro do jornalismo na Internet é o de ser um “cão de guarda” ou um “cão de colo”. 

“Este é um grande momento para a Internet. À medida que nos envolvíamos, com a nossa comunidade, no desenvolvimento deste relatório, tornava-se claro que as pessoas estão ansiosas quanto ao futuro da Internet”  -  afirma-se no sumário do trabalho.  

“Alguns vêem um futuro assustador que nos aguarda num mundo conduzido pela tecnologia. Há pontos de vista em conflito sobre se a Internet é uma influência positiva ou negativa e, enquanto ela se torna cada vez mais central nas nossas vidas modernas, vemos que alguns começam a rejeitar a visão de um mundo globalizado que ela promoveu. Pelo outro lado, comunidades acabadas de entrar online vêem a Internet como ‘vida’  - como a sua ligação à oportunidade e à liberdade -  e querem ter a possibilidade de influenciar o seu futuro.” (…)  

Este estudo parte do projecto, lançado na Internet Society em 2016, de “compreender as forças de mudança que vão dar forma à Internet nos próximos cinco a sete anos”. Foram realizados três inquéritos globais e dois regionais, que recolheram mais de três mil respostas vindas de 160 países. Foram ainda entrevistados mais de 130 peritos e utentes da Internet, e organizada mais de uma dezena de mesas-redondas.  

A partir de todos os dados recolhidos, foram identificadas seis forças principais, “impulsionadoras de mudança”, que vão ter um impacto profundo no futuro da Internet nos próximos anos: A Internet e o mundo físico, a Inteligência artificial, as Ciber-ameaças, a Economia da Internet, as Redes, Normas e Inter-funcionalidade, e por fim o Papel do Governo.  

O Relatório conclui com dez recomendações para o futuro da Internet:

  1. – Os valores humanos devem conduzir o desenvolvimento e uso da técnica. É necessário um debate público para que a sociedade se ponha de acordo sobre padrões éticos e normas de uso das tecnologias emergentes. (…)
  2. – Os direitos humanos devem ser aplicados online do mesmo modo que offline. Os governos devem deixar de recorrer ao bloqueio da Internet e outros meios de lhe negarem acesso como ferramenta política: devemos manter a Internet ligada. (…)
  3. – Os interesses dos utentes devem estar em primeiro lugar no que respeita aos seus dados. Todos os utentes devem poder controlar o modo como os seus dados são consultados, recolhidos, usados, partilhados e armazenados. (…)
  4. – É preciso agir agora para acabar com a separação digital. Seguindo os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, providenciar acesso universal e acessível à Internet nos países menos desenvolvidos até 2020. (…)
  5. – Fazer com que a economia da Internet funcione para toda a gente. Governos, instituições e indústrias devem dar prioridade ao objectivo de conseguir que as pessoas fiquem a par da inovação e do seu impacto nos empregos. (…)
  6. – Assumir uma abordagem de cooperação no que respeita à segurança. Deve ser tornada mais fácil para os utentes a segurança online. (…)
  7. – Aumentar a responsabilização dos que lidam com os dados. São essas entidades que devem ser responsabilizadas pelo seu abuso e pela segurança, não os utentes. (…)
  8. – Construir redes fortes, seguras e resilientes. Uma inter-funcionalidade baseada em normas abertas, alcance global e integridade. (…)
  9. – Atender à necessidade de normas sociais online. Tornar a Internet um espaço seguro em que todos estejam livres de violência e assédio online. (…)
  10. – Dar às pessoas o poder de moldarem o seu próprio futuro. Todos os accionistas devem apoiar a sociedade civil no seu papel de proteger e promover os direitos humanos online. (…)

 

O texto de apresentação deste estudo, na Ethical Journalism Network, com o link para o Global Internet Report 2017, em PDF

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...