Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Media

Sobre a “decadência das redacções”, a dúvida de ser jornalista

“A decadência das redações e a diminuição do número de alunos cursando jornalismo apontam na direção da extinção da profissão de repórter?” A pergunta é do jornalista brasileiro Carlos Wagner, que compara a situação que encontrou há 40 anos, quando começou a sua carreira de repórter de investigação, com aquela que hoje enfrentam os novos candidatos. Para a geração dos seus pais (a mãe opunha-se a que ele seguisse este caminho), “os jornalistas tinham fama de bêbados, boémios, comunistas e de ‘língua de lavadeira’.” Mas “a preocupação dos pais da geração de repórteres que entra na faculdade no próximo ano é se ainda existirá a profissão quando o filho acabar o curso”. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Sobre a decadência das redacções, o autor confirma od factos e esclarece que “não é exclusividade do Brasil, está acontecendo ao redor do mundo, principalmente nos países desenvolvidos como Estados Unidos”: 

“Ela acontece por conta da diminuição nos lucros do negócio, trazida pelo surgimento de novas mídias que baratearam o custo dos anúncios, um dos esteios da sustentação dos jornais. Isso levou os donos de jornais a investir em outros negócios. Mas, aqui no Brasil, há uma particularidade nesse assunto que merece ser destrinchada.” 

Carlos Wagner defende que o Brasil é “carente de informações” e ainda tem “muitas fronteiras para serem ocupadas”: 

“O caminho correcto seria tornar as redacções mais eficientes e não destruí-las. A cobertura que está sendo feita da Operação Lava Jato é uma prova dessa situação. Não existe um brasileiro não queira saber o que exactamente está acontecendo. E nós só publicamos relatórios oficiais por falta de gente para fazer investigação própria  – há vasto material sobre o assunto disponível na Internet.” (...) 

Conta depois, da sua própria experiência, situações que demonstram os vários “nichos de mercado” em condições de serem explorados, a nível do jornalismo local, como das agências de conteúdos (“pequenas empresas onde dois ou três profissionais prestam serviços de texto e imagem”), e recorda: 

“Nos anos 90, eu fui para Angola fazer uma reportagem sobre a guerra civil, um sanguinário confronto entre tropas do governo e da guerrilha que durou anos. Na época, encontrei correspondentes de guerra de vários países. Todos eles, menos a equipe chinesa, eram freelancers – trabalhavam por conta própria e vendiam a produção para os grandes jornais europeus e americanos. O mundo já estava mudando. Nós é que não sabíamos. Lembro que, nos anos 90, o jornalista que montasse o próprio negócio era chamado pelos colegas de ‘picareta’.” (...) 

E conclui: 

“Não tenho dúvida alguma ao afirmar aos pais que vale a pena investir no sonho dos filhos de serem jornalistas. Se a actual geração de donos de jornais não sabe mais ganhar dinheiro, não é problema deles. Não podemos deixar os nossos jovens repórteres serem prematuramente liquidados pela decadência das redacções.” 

“E qual é o papel dos repórteres velhos que conseguiram fazer história na carreira? Nós temos obrigação de compartilhar o nosso conhecimento com as novas gerações de repórteres, seja virando professores nas universidades, seja fazendo blogs, vídeos e palestras ou trocando ideias nas mesas dos botecos em troca de cerveja. Viu? A dona Loni tinha razões para se preocupar comigo. Adoro conversar sobre jornalismo tomando cerveja nos botecos.” 

 

O texto original, na íntegra, no Observatório da Imprensa.  A imagem é do filme de Billy Wilder "Ace in the hole", visto em Portugal com o título de "O grande carnaval"

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“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
Prémios do World Press Photo 2019 já têm candidatos escolhidos... Ver galeria

Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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