Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
Media

Sobre a “decadência das redacções”, a dúvida de ser jornalista

“A decadência das redações e a diminuição do número de alunos cursando jornalismo apontam na direção da extinção da profissão de repórter?” A pergunta é do jornalista brasileiro Carlos Wagner, que compara a situação que encontrou há 40 anos, quando começou a sua carreira de repórter de investigação, com aquela que hoje enfrentam os novos candidatos. Para a geração dos seus pais (a mãe opunha-se a que ele seguisse este caminho), “os jornalistas tinham fama de bêbados, boémios, comunistas e de ‘língua de lavadeira’.” Mas “a preocupação dos pais da geração de repórteres que entra na faculdade no próximo ano é se ainda existirá a profissão quando o filho acabar o curso”. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Sobre a decadência das redacções, o autor confirma od factos e esclarece que “não é exclusividade do Brasil, está acontecendo ao redor do mundo, principalmente nos países desenvolvidos como Estados Unidos”: 

“Ela acontece por conta da diminuição nos lucros do negócio, trazida pelo surgimento de novas mídias que baratearam o custo dos anúncios, um dos esteios da sustentação dos jornais. Isso levou os donos de jornais a investir em outros negócios. Mas, aqui no Brasil, há uma particularidade nesse assunto que merece ser destrinchada.” 

Carlos Wagner defende que o Brasil é “carente de informações” e ainda tem “muitas fronteiras para serem ocupadas”: 

“O caminho correcto seria tornar as redacções mais eficientes e não destruí-las. A cobertura que está sendo feita da Operação Lava Jato é uma prova dessa situação. Não existe um brasileiro não queira saber o que exactamente está acontecendo. E nós só publicamos relatórios oficiais por falta de gente para fazer investigação própria  – há vasto material sobre o assunto disponível na Internet.” (...) 

Conta depois, da sua própria experiência, situações que demonstram os vários “nichos de mercado” em condições de serem explorados, a nível do jornalismo local, como das agências de conteúdos (“pequenas empresas onde dois ou três profissionais prestam serviços de texto e imagem”), e recorda: 

“Nos anos 90, eu fui para Angola fazer uma reportagem sobre a guerra civil, um sanguinário confronto entre tropas do governo e da guerrilha que durou anos. Na época, encontrei correspondentes de guerra de vários países. Todos eles, menos a equipe chinesa, eram freelancers – trabalhavam por conta própria e vendiam a produção para os grandes jornais europeus e americanos. O mundo já estava mudando. Nós é que não sabíamos. Lembro que, nos anos 90, o jornalista que montasse o próprio negócio era chamado pelos colegas de ‘picareta’.” (...) 

E conclui: 

“Não tenho dúvida alguma ao afirmar aos pais que vale a pena investir no sonho dos filhos de serem jornalistas. Se a actual geração de donos de jornais não sabe mais ganhar dinheiro, não é problema deles. Não podemos deixar os nossos jovens repórteres serem prematuramente liquidados pela decadência das redacções.” 

“E qual é o papel dos repórteres velhos que conseguiram fazer história na carreira? Nós temos obrigação de compartilhar o nosso conhecimento com as novas gerações de repórteres, seja virando professores nas universidades, seja fazendo blogs, vídeos e palestras ou trocando ideias nas mesas dos botecos em troca de cerveja. Viu? A dona Loni tinha razões para se preocupar comigo. Adoro conversar sobre jornalismo tomando cerveja nos botecos.” 

 

O texto original, na íntegra, no Observatório da Imprensa.  A imagem é do filme de Billy Wilder "Ace in the hole", visto em Portugal com o título de "O grande carnaval"

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémio de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".

Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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