Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Media

Sobre a “decadência das redacções”, a dúvida de ser jornalista

“A decadência das redações e a diminuição do número de alunos cursando jornalismo apontam na direção da extinção da profissão de repórter?” A pergunta é do jornalista brasileiro Carlos Wagner, que compara a situação que encontrou há 40 anos, quando começou a sua carreira de repórter de investigação, com aquela que hoje enfrentam os novos candidatos. Para a geração dos seus pais (a mãe opunha-se a que ele seguisse este caminho), “os jornalistas tinham fama de bêbados, boémios, comunistas e de ‘língua de lavadeira’.” Mas “a preocupação dos pais da geração de repórteres que entra na faculdade no próximo ano é se ainda existirá a profissão quando o filho acabar o curso”. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Sobre a decadência das redacções, o autor confirma od factos e esclarece que “não é exclusividade do Brasil, está acontecendo ao redor do mundo, principalmente nos países desenvolvidos como Estados Unidos”: 

“Ela acontece por conta da diminuição nos lucros do negócio, trazida pelo surgimento de novas mídias que baratearam o custo dos anúncios, um dos esteios da sustentação dos jornais. Isso levou os donos de jornais a investir em outros negócios. Mas, aqui no Brasil, há uma particularidade nesse assunto que merece ser destrinchada.” 

Carlos Wagner defende que o Brasil é “carente de informações” e ainda tem “muitas fronteiras para serem ocupadas”: 

“O caminho correcto seria tornar as redacções mais eficientes e não destruí-las. A cobertura que está sendo feita da Operação Lava Jato é uma prova dessa situação. Não existe um brasileiro não queira saber o que exactamente está acontecendo. E nós só publicamos relatórios oficiais por falta de gente para fazer investigação própria  – há vasto material sobre o assunto disponível na Internet.” (...) 

Conta depois, da sua própria experiência, situações que demonstram os vários “nichos de mercado” em condições de serem explorados, a nível do jornalismo local, como das agências de conteúdos (“pequenas empresas onde dois ou três profissionais prestam serviços de texto e imagem”), e recorda: 

“Nos anos 90, eu fui para Angola fazer uma reportagem sobre a guerra civil, um sanguinário confronto entre tropas do governo e da guerrilha que durou anos. Na época, encontrei correspondentes de guerra de vários países. Todos eles, menos a equipe chinesa, eram freelancers – trabalhavam por conta própria e vendiam a produção para os grandes jornais europeus e americanos. O mundo já estava mudando. Nós é que não sabíamos. Lembro que, nos anos 90, o jornalista que montasse o próprio negócio era chamado pelos colegas de ‘picareta’.” (...) 

E conclui: 

“Não tenho dúvida alguma ao afirmar aos pais que vale a pena investir no sonho dos filhos de serem jornalistas. Se a actual geração de donos de jornais não sabe mais ganhar dinheiro, não é problema deles. Não podemos deixar os nossos jovens repórteres serem prematuramente liquidados pela decadência das redacções.” 

“E qual é o papel dos repórteres velhos que conseguiram fazer história na carreira? Nós temos obrigação de compartilhar o nosso conhecimento com as novas gerações de repórteres, seja virando professores nas universidades, seja fazendo blogs, vídeos e palestras ou trocando ideias nas mesas dos botecos em troca de cerveja. Viu? A dona Loni tinha razões para se preocupar comigo. Adoro conversar sobre jornalismo tomando cerveja nos botecos.” 

 

O texto original, na íntegra, no Observatório da Imprensa.  A imagem é do filme de Billy Wilder "Ace in the hole", visto em Portugal com o título de "O grande carnaval"

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Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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