Quinta-feira, 21 de Junho, 2018
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O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Como conta a autora, “um delegado recebeu denúncia de mãe de aluno de que o filho estaria sofrendo abuso sexual, informou a Imprensa sobre a suspeita e acusou seis pessoas, dentre elas os proprietários da escola. A irresponsabilidade do delegado e o sensacionalismo da Imprensa destruíram a vida dos acusados, sem qualquer chance de defesa. O caso virou exemplo de erro policial e jornalístico, que muitos esperavam não ver repetido”. (...) 

Nereide Beirão descreve o modo de procedimento que tem tudo para correr mal: 

“A polícia, procuradores, promotores fazem, com estardalhaço, uma acusação, enquanto investigados são presos ou, eufemisticamente, conduzidos coercitivamente por policiais fortemente armados para depor. Os delegados, promotores e juízes comandam o espectáculo. Convocam a Imprensa, dão entrevista, expõem suas suposições, que viram verdades, sem contestação.” 

“Os jornalistas reproduzem as informações, complementando com uma curta defesa do acusado ou do seu advogado, que mal conhecem a acusação. Os nomes e as imagens dos investigados, alçados à condição de acusados e culpados, são expostos, sem qualquer pudor. O linchamento moral está feito. Não há retorno.” (...) 

Como afirma no seu texto, era desejável que a lição fosse retida e casos destes não tivessem repetição. Não sucedeu assim, e o mais recente, e mais dramático, “foi o que culminou com o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier”: 

“Ele e mais seis servidores da UFSC foram presos por um contingente de mais de cem policiais, com ampla cobertura da Imprensa. Foi encaminhado para uma penitenciária, humilhado e impedido de entrar no campus da Universidade, acusado de envolvimento no desvio dos R$80 milhões do Programa de Educação à Distância. O valor do desvio investigado era de pouco menos de R$500 mil e Cancellier não era o reitor no período em que teria acontecido. Mas a denúncia virou verdade, e o levou à morte.” (...) 

“Um dos casos de linchamento moral aconteceu com a falsa acusação e prisão da ‘cunhada do Vacari, o tesoureiro do PT’. Confundida com a irmã na imagem do circuito interno de uma agência bancária fazendo um depósito em um caixa eletrónico, ‘a cunhada do Vacari’ teve sua prisão decretada pela justiça.” 

“Como estava participando de um Congresso no exterior, não foi encontrada pela Polícia Federal. Durante dois dias, teve o seu nome exposto, minuto a minuto, em manchetes na TV, no rádio, nos sites e jornais, como foragida da justiça. Ela antecipou o retorno ao Brasil, se apresentou em Curitiba e foi imediatamente presa. Ficou na cadeia por cinco dias. Só foi libertada quando se constatou que não era dela a imagem no banco. A sua libertação e o erro judicial não mereceram destaque. Para sempre será lembrada como corrupta e presa da Lava Jato.” (...) 

Depois de citar outros exemplos, Nereide Beirão conclui: 

“Em todos esses anos de denúncias, acusações, linchamentos morais, a Imprensa deveria ter-se lembrado da Escola Base. Factos devem ser avaliados, em sua relevância e legalidade, mesmo que endossados pela Polícia, Ministério Público e Justiça. Ao jornalista cabe apurar, investigar, aprofundar os factos, ter senso crítico, questionar a autoridade policial ou judicial, e não ser apenas um reprodutor de acusações, muitas vezes infundadas e não comprovadas, que destroem vidas e reputações.” 

 

O texto na íntegra, no site do Observatório da Imprensa

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