Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Como conta a autora, “um delegado recebeu denúncia de mãe de aluno de que o filho estaria sofrendo abuso sexual, informou a Imprensa sobre a suspeita e acusou seis pessoas, dentre elas os proprietários da escola. A irresponsabilidade do delegado e o sensacionalismo da Imprensa destruíram a vida dos acusados, sem qualquer chance de defesa. O caso virou exemplo de erro policial e jornalístico, que muitos esperavam não ver repetido”. (...) 

Nereide Beirão descreve o modo de procedimento que tem tudo para correr mal: 

“A polícia, procuradores, promotores fazem, com estardalhaço, uma acusação, enquanto investigados são presos ou, eufemisticamente, conduzidos coercitivamente por policiais fortemente armados para depor. Os delegados, promotores e juízes comandam o espectáculo. Convocam a Imprensa, dão entrevista, expõem suas suposições, que viram verdades, sem contestação.” 

“Os jornalistas reproduzem as informações, complementando com uma curta defesa do acusado ou do seu advogado, que mal conhecem a acusação. Os nomes e as imagens dos investigados, alçados à condição de acusados e culpados, são expostos, sem qualquer pudor. O linchamento moral está feito. Não há retorno.” (...) 

Como afirma no seu texto, era desejável que a lição fosse retida e casos destes não tivessem repetição. Não sucedeu assim, e o mais recente, e mais dramático, “foi o que culminou com o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier”: 

“Ele e mais seis servidores da UFSC foram presos por um contingente de mais de cem policiais, com ampla cobertura da Imprensa. Foi encaminhado para uma penitenciária, humilhado e impedido de entrar no campus da Universidade, acusado de envolvimento no desvio dos R$80 milhões do Programa de Educação à Distância. O valor do desvio investigado era de pouco menos de R$500 mil e Cancellier não era o reitor no período em que teria acontecido. Mas a denúncia virou verdade, e o levou à morte.” (...) 

“Um dos casos de linchamento moral aconteceu com a falsa acusação e prisão da ‘cunhada do Vacari, o tesoureiro do PT’. Confundida com a irmã na imagem do circuito interno de uma agência bancária fazendo um depósito em um caixa eletrónico, ‘a cunhada do Vacari’ teve sua prisão decretada pela justiça.” 

“Como estava participando de um Congresso no exterior, não foi encontrada pela Polícia Federal. Durante dois dias, teve o seu nome exposto, minuto a minuto, em manchetes na TV, no rádio, nos sites e jornais, como foragida da justiça. Ela antecipou o retorno ao Brasil, se apresentou em Curitiba e foi imediatamente presa. Ficou na cadeia por cinco dias. Só foi libertada quando se constatou que não era dela a imagem no banco. A sua libertação e o erro judicial não mereceram destaque. Para sempre será lembrada como corrupta e presa da Lava Jato.” (...) 

Depois de citar outros exemplos, Nereide Beirão conclui: 

“Em todos esses anos de denúncias, acusações, linchamentos morais, a Imprensa deveria ter-se lembrado da Escola Base. Factos devem ser avaliados, em sua relevância e legalidade, mesmo que endossados pela Polícia, Ministério Público e Justiça. Ao jornalista cabe apurar, investigar, aprofundar os factos, ter senso crítico, questionar a autoridade policial ou judicial, e não ser apenas um reprodutor de acusações, muitas vezes infundadas e não comprovadas, que destroem vidas e reputações.” 

 

O texto na íntegra, no site do Observatório da Imprensa

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Em Outubro de 2017, a jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava as ligações políticas perigosas da corrupção na ilha de Malta, foi morta num atentado à bomba. Hoje, uma equipa de 45 jornalistas, de 18 órgãos de comunicação de todo o mundo, está a trabalhar no Projecto Daphne, uma série de artigos que possam completar a sua investigação. Este projecto inscreve-se na missão de Forbidden Stories, cujo fundador, o realizador francês Laurent Richard, reafirmou em artigo recente em The Guardian: “Vocês mataram o mesageiro, mas não conseguirão matar a mensagem.”

Jornalismo de investigação é a melhor arma contra a propaganda Ver galeria

O combate à desinformação online tornou-se o tema incontornável de todos os encontros de jornalistas. Mas um dos painéis realizados na mais recente edição do Festival Internacional de Jornalismo, em Perugia, Itália, escutou intervenções que sugerem uma atitude menos confrontacional. A ideia é que resulta melhor investir num jornalismo de investigação no terreno, mesmo que tome mais tempo, do que tentar a batalha sempre perdida de aguentar o ritmo de produção das grandes máquinas de propaganda. Falaram neste sentido vozes experimentadas, de jornalistas como Galina Timchenko, russa, fundadora e directora do website Meduza, e Natalia Anteleva, georgiana, co-fundadora e editora de Coda Story.

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Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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