Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
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O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Como conta a autora, “um delegado recebeu denúncia de mãe de aluno de que o filho estaria sofrendo abuso sexual, informou a Imprensa sobre a suspeita e acusou seis pessoas, dentre elas os proprietários da escola. A irresponsabilidade do delegado e o sensacionalismo da Imprensa destruíram a vida dos acusados, sem qualquer chance de defesa. O caso virou exemplo de erro policial e jornalístico, que muitos esperavam não ver repetido”. (...) 

Nereide Beirão descreve o modo de procedimento que tem tudo para correr mal: 

“A polícia, procuradores, promotores fazem, com estardalhaço, uma acusação, enquanto investigados são presos ou, eufemisticamente, conduzidos coercitivamente por policiais fortemente armados para depor. Os delegados, promotores e juízes comandam o espectáculo. Convocam a Imprensa, dão entrevista, expõem suas suposições, que viram verdades, sem contestação.” 

“Os jornalistas reproduzem as informações, complementando com uma curta defesa do acusado ou do seu advogado, que mal conhecem a acusação. Os nomes e as imagens dos investigados, alçados à condição de acusados e culpados, são expostos, sem qualquer pudor. O linchamento moral está feito. Não há retorno.” (...) 

Como afirma no seu texto, era desejável que a lição fosse retida e casos destes não tivessem repetição. Não sucedeu assim, e o mais recente, e mais dramático, “foi o que culminou com o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier”: 

“Ele e mais seis servidores da UFSC foram presos por um contingente de mais de cem policiais, com ampla cobertura da Imprensa. Foi encaminhado para uma penitenciária, humilhado e impedido de entrar no campus da Universidade, acusado de envolvimento no desvio dos R$80 milhões do Programa de Educação à Distância. O valor do desvio investigado era de pouco menos de R$500 mil e Cancellier não era o reitor no período em que teria acontecido. Mas a denúncia virou verdade, e o levou à morte.” (...) 

“Um dos casos de linchamento moral aconteceu com a falsa acusação e prisão da ‘cunhada do Vacari, o tesoureiro do PT’. Confundida com a irmã na imagem do circuito interno de uma agência bancária fazendo um depósito em um caixa eletrónico, ‘a cunhada do Vacari’ teve sua prisão decretada pela justiça.” 

“Como estava participando de um Congresso no exterior, não foi encontrada pela Polícia Federal. Durante dois dias, teve o seu nome exposto, minuto a minuto, em manchetes na TV, no rádio, nos sites e jornais, como foragida da justiça. Ela antecipou o retorno ao Brasil, se apresentou em Curitiba e foi imediatamente presa. Ficou na cadeia por cinco dias. Só foi libertada quando se constatou que não era dela a imagem no banco. A sua libertação e o erro judicial não mereceram destaque. Para sempre será lembrada como corrupta e presa da Lava Jato.” (...) 

Depois de citar outros exemplos, Nereide Beirão conclui: 

“Em todos esses anos de denúncias, acusações, linchamentos morais, a Imprensa deveria ter-se lembrado da Escola Base. Factos devem ser avaliados, em sua relevância e legalidade, mesmo que endossados pela Polícia, Ministério Público e Justiça. Ao jornalista cabe apurar, investigar, aprofundar os factos, ter senso crítico, questionar a autoridade policial ou judicial, e não ser apenas um reprodutor de acusações, muitas vezes infundadas e não comprovadas, que destroem vidas e reputações.” 

 

O texto na íntegra, no site do Observatório da Imprensa

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
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