Quinta-feira, 21 de Junho, 2018
Fórum

Como as redes sociais podem fracturar o modo de viver em sociedade

Dois ex-executivos de topo do Facebook fizeram críticas públicas ao modo como as redes sociais se tornaram perigosas, condicionando as reacções dos seus utentes. Chamath Palihapitiya, que foi vice-presidente para o crescimento de utilizadores, disse que os ciclos viciosos de reacções alimentados por esse mesmo incentivo “estão a destruir a forma como a sociedade funciona”, programando as pessoas sem que estas se apercebam. Sean Parker, que foi o primeiro presidente do Facebook, afirmou que a plataforma “explora uma vulnerabilidade na psicologia humana” ao criar essa compulsão de validação social, e declara-se hoje uma espécie de “objector de consciência” contra o uso das redes sociais. 

Numa intervenção que teve na Stanford Business School, em Novembro, Chamath Palihapitiya afirmou sentir hoje “uma enorme culpa” pelo papel que teve no desenvolvimento dessas ferramentas, que não promovem “discurso cívico, nem cooperação”, mas sim “desinformação e desconfiança”. 

Já não se trata só de anúncios russos:  

“Isto é um problema global. Está a corroer as fundações do modo como as pessoas se comportam umas com as outras.” 

Segundo The Guardian, “a empresa só recentemente reconheceu ter vendido anúncios a russos que procuravam semear divisão entre os eleitores americanos durante a eleição de 2016”.  

Palihapitiya recordou o ocorrido no estado indiano de Jharkhand, na Primavera, “quando mensagens falsas pelo WhatsApp, advertindo contra um grupo de raptores, levaram ao linchamento de sete pessoas; o WhatsApp é propriedade do Facebook”.

“Eu não posso controlá-los”  - disse ainda, referindo-se aos seus antigos patrões. “Posso controlar a minha decisão, e é por isso que não uso essa porcaria. Posso controlar as decisões dos meus filhos, e é por isso que eles não estão autorizados a usar essa porcaria.” 

Apelou aos seus ouvintes indagando, mesmo que tenham sido envolvidos de modo não intencional, se não é tempo de decidirem “quanto da sua independência intelectual” estão ainda dispostos a abdicar. 

O Facebook respondeu aos comentários de Palihapityia notando que ele já não trabalha na empresa desde há seis anos, que ela era muito diferente nessa altura e que, “à medida que crescemos, compreendemos que cresceram também as nossas responsabilidades”: 

“Tomamos muito a sério o nosso papel e esforçamo-nos por melhorar”  - afirmou a sua porta-voz Susan Glick.

A empresa disse também que tem estado a investigar o impacto dos seus produtos sobre o “bem-estar” e referiu que o seu CEO, Mark Zuckerberg, “manifestou disponibilidade para reduzir o lucro afim de se voltar para assuntos como a interferência externa sobre as eleições”. 

 

Mais informação no DN – Media e em The Guardian, cuja imagem, de Niall Carson/PA, aqui incluímos

E um vídeo humorístico de Natal sobre este mesmo tema

 

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