Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Fórum

Como as redes sociais podem fracturar o modo de viver em sociedade

Dois ex-executivos de topo do Facebook fizeram críticas públicas ao modo como as redes sociais se tornaram perigosas, condicionando as reacções dos seus utentes. Chamath Palihapitiya, que foi vice-presidente para o crescimento de utilizadores, disse que os ciclos viciosos de reacções alimentados por esse mesmo incentivo “estão a destruir a forma como a sociedade funciona”, programando as pessoas sem que estas se apercebam. Sean Parker, que foi o primeiro presidente do Facebook, afirmou que a plataforma “explora uma vulnerabilidade na psicologia humana” ao criar essa compulsão de validação social, e declara-se hoje uma espécie de “objector de consciência” contra o uso das redes sociais. 

Numa intervenção que teve na Stanford Business School, em Novembro, Chamath Palihapitiya afirmou sentir hoje “uma enorme culpa” pelo papel que teve no desenvolvimento dessas ferramentas, que não promovem “discurso cívico, nem cooperação”, mas sim “desinformação e desconfiança”. 

Já não se trata só de anúncios russos:  

“Isto é um problema global. Está a corroer as fundações do modo como as pessoas se comportam umas com as outras.” 

Segundo The Guardian, “a empresa só recentemente reconheceu ter vendido anúncios a russos que procuravam semear divisão entre os eleitores americanos durante a eleição de 2016”.  

Palihapitiya recordou o ocorrido no estado indiano de Jharkhand, na Primavera, “quando mensagens falsas pelo WhatsApp, advertindo contra um grupo de raptores, levaram ao linchamento de sete pessoas; o WhatsApp é propriedade do Facebook”.

“Eu não posso controlá-los”  - disse ainda, referindo-se aos seus antigos patrões. “Posso controlar a minha decisão, e é por isso que não uso essa porcaria. Posso controlar as decisões dos meus filhos, e é por isso que eles não estão autorizados a usar essa porcaria.” 

Apelou aos seus ouvintes indagando, mesmo que tenham sido envolvidos de modo não intencional, se não é tempo de decidirem “quanto da sua independência intelectual” estão ainda dispostos a abdicar. 

O Facebook respondeu aos comentários de Palihapityia notando que ele já não trabalha na empresa desde há seis anos, que ela era muito diferente nessa altura e que, “à medida que crescemos, compreendemos que cresceram também as nossas responsabilidades”: 

“Tomamos muito a sério o nosso papel e esforçamo-nos por melhorar”  - afirmou a sua porta-voz Susan Glick.

A empresa disse também que tem estado a investigar o impacto dos seus produtos sobre o “bem-estar” e referiu que o seu CEO, Mark Zuckerberg, “manifestou disponibilidade para reduzir o lucro afim de se voltar para assuntos como a interferência externa sobre as eleições”. 

 

Mais informação no DN – Media e em The Guardian, cuja imagem, de Niall Carson/PA, aqui incluímos

E um vídeo humorístico de Natal sobre este mesmo tema

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...