Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Sobre a importância da conversa nos botecos como fonte de "exclusivo" para jornalistas

Num dos versos de “O que será”, de Chico Buarque, pergunta-se  “o que será que estão falando alto pelos botecos”. Neste tempo em que “o repórter vive conectado 24 horas ao que acontece no planeta”, as informações exclusivas têm um imenso valor. E “um dos endereços da exclusiva é o boteco”  - explica o jornalista Carlos Wagner, com toda uma carreira de repórter de investigação. “Nós temos o costume de discutir gritando. Dentro do actual momento político e económico do Brasil, nunca se falou tão alto nos botecos como hoje. Basta ter um bom ouvido”  - aconselha. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor chama a atenção para o conteúdo da “versão dos bêbados sobre as coisas que estão acontecendo naquele momento”, lembrando o ambiente nos tempos do Regime Militar (1964 a 1985), quando “a conversa se iniciava em tom baixo para evitar que caísse nos ouvidos dos agentes do regime; e o tom aumentava na medida em que as garrafas de cervejas e os martelinhos de cachaça vazios se empilhavam nas mesas”. (...) 

Parece pouco académico propor a cultura ambiente do boteco brasileiro ( a nossa “tasca”) como terreno para a colheita de informação, mas Carlos Wagner assume e explica porquê: 

“A conversa de boteco foi, e sempre será, um pilar importante na formação do repórter. Ali gente envolvida em várias profissões se dá o direito de falar sem temer as consequências, portanto há relatos muito próximos à verdade dos factos. Saber ouvir e avaliar os conteúdos das conversas é um belo exercício para a formação do jornalista. Nas palestras que faço sobre a formação do repórter nas redacções de jornais, rádios, sites e TVs e em salas de aula das faculdades de jornalismo, eu sempre reservo um tempo para alertar sobre a importância do que se fala nas mesas dos botecos.” 

Inclusivamente, dá um exemplo da sua própria carreira:

Durante o surto de frebre aftosa que dizimava os rebanhos de gado em 2006, foi enviado para “a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, região complicada para jornalista trabalhar”: 

“Havia repórteres de várias partes do mundo. Em uma noite, em um boteco de Eldorado, eu ouvi um relato muito detalhado de um fiscal paraguaio, sobre como tinha começado o surto da aftosa, para um funcionário do Ministério da Agricultura (MA) do Brasil.” 

“No dia seguinte, eu fiz alguns telefonemas para saber se o que tinha ouvido não era apenas conversa de bêbado. Não era. Daí foi só fazer a matéria. Dias depois, o funcionário do MA me perguntou como eu tinha conseguido aquelas informações. Eu respondi: — Fontes!”  (...)

 

O texto de Carlos Wagner, na íntegra, no Observatório da Imprensa. Na imagem, Chico Buarque com o jornalista Tarso de Castro, num bar, em 1973  - foto do Instituto António Carlos Jobim

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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