Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
Media

Sobre a importância da conversa nos botecos como fonte de "exclusivo" para jornalistas

Num dos versos de “O que será”, de Chico Buarque, pergunta-se  “o que será que estão falando alto pelos botecos”. Neste tempo em que “o repórter vive conectado 24 horas ao que acontece no planeta”, as informações exclusivas têm um imenso valor. E “um dos endereços da exclusiva é o boteco”  - explica o jornalista Carlos Wagner, com toda uma carreira de repórter de investigação. “Nós temos o costume de discutir gritando. Dentro do actual momento político e económico do Brasil, nunca se falou tão alto nos botecos como hoje. Basta ter um bom ouvido”  - aconselha. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor chama a atenção para o conteúdo da “versão dos bêbados sobre as coisas que estão acontecendo naquele momento”, lembrando o ambiente nos tempos do Regime Militar (1964 a 1985), quando “a conversa se iniciava em tom baixo para evitar que caísse nos ouvidos dos agentes do regime; e o tom aumentava na medida em que as garrafas de cervejas e os martelinhos de cachaça vazios se empilhavam nas mesas”. (...) 

Parece pouco académico propor a cultura ambiente do boteco brasileiro ( a nossa “tasca”) como terreno para a colheita de informação, mas Carlos Wagner assume e explica porquê: 

“A conversa de boteco foi, e sempre será, um pilar importante na formação do repórter. Ali gente envolvida em várias profissões se dá o direito de falar sem temer as consequências, portanto há relatos muito próximos à verdade dos factos. Saber ouvir e avaliar os conteúdos das conversas é um belo exercício para a formação do jornalista. Nas palestras que faço sobre a formação do repórter nas redacções de jornais, rádios, sites e TVs e em salas de aula das faculdades de jornalismo, eu sempre reservo um tempo para alertar sobre a importância do que se fala nas mesas dos botecos.” 

Inclusivamente, dá um exemplo da sua própria carreira:

Durante o surto de frebre aftosa que dizimava os rebanhos de gado em 2006, foi enviado para “a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, região complicada para jornalista trabalhar”: 

“Havia repórteres de várias partes do mundo. Em uma noite, em um boteco de Eldorado, eu ouvi um relato muito detalhado de um fiscal paraguaio, sobre como tinha começado o surto da aftosa, para um funcionário do Ministério da Agricultura (MA) do Brasil.” 

“No dia seguinte, eu fiz alguns telefonemas para saber se o que tinha ouvido não era apenas conversa de bêbado. Não era. Daí foi só fazer a matéria. Dias depois, o funcionário do MA me perguntou como eu tinha conseguido aquelas informações. Eu respondi: — Fontes!”  (...)

 

O texto de Carlos Wagner, na íntegra, no Observatório da Imprensa. Na imagem, Chico Buarque com o jornalista Tarso de Castro, num bar, em 1973  - foto do Instituto António Carlos Jobim

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Em Outubro de 2017, a jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava as ligações políticas perigosas da corrupção na ilha de Malta, foi morta num atentado à bomba. Hoje, uma equipa de 45 jornalistas, de 18 órgãos de comunicação de todo o mundo, está a trabalhar no Projecto Daphne, uma série de artigos que possam completar a sua investigação. Este projecto inscreve-se na missão de Forbidden Stories, cujo fundador, o realizador francês Laurent Richard, reafirmou em artigo recente em The Guardian: “Vocês mataram o mesageiro, mas não conseguirão matar a mensagem.”

Jornalismo de investigação é a melhor arma contra a propaganda Ver galeria

O combate à desinformação online tornou-se o tema incontornável de todos os encontros de jornalistas. Mas um dos painéis realizados na mais recente edição do Festival Internacional de Jornalismo, em Perugia, Itália, escutou intervenções que sugerem uma atitude menos confrontacional. A ideia é que resulta melhor investir num jornalismo de investigação no terreno, mesmo que tome mais tempo, do que tentar a batalha sempre perdida de aguentar o ritmo de produção das grandes máquinas de propaganda. Falaram neste sentido vozes experimentadas, de jornalistas como Galina Timchenko, russa, fundadora e directora do website Meduza, e Natalia Anteleva, georgiana, co-fundadora e editora de Coda Story.

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Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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