Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Russos e americanos em conflito aberto sobre o acesso aos seus Media

As autoridades russas interditaram o acesso a vários media dos Estados Unidos, considerados como “agentes do estrangeiro”, nomeadamente a rádio Voice of America e a Radio Free Europe / Radio Liberty, financiadas pelo Congresso norte-americano, e outros meios que lhes estão ligados. Esta medida é a retaliação pela recente recusa, pelo mesmo Congresso, da creditação da estação Russia Today, que o Kremlin considerou “extremamente decepcionante e infundada”.

Segundo Le Monde, que aqui citamos, o Presidente Vladimir Putin tinha promulgado uma lei que permite classificar qualquer meio de comunicação estrangeiro operando na Rússia como “agente do estrangeiro”, precisamente em resposta à obrigação que foi feita à cadeia Russia Today, controlada pelo Estado russo, de se registar sob esta categoria nos Estados Unidos.

Agora, os deputados russos decidiram, por 413 votos a favor e um contra, a aplicação desta lei às referidas emissoras.

 

“Muito criticada pelas organizações não-governamentais Human Rights Watch e Amnistia Internacional, a lei russa obriga as referidas entidades, nomeadamente, a dar informação às autoridades sobre os fundos que recebem do estrangeiro e a precisar nos seus documentos que são classificadas nesta categoria.”

 

Ainda segundo Le Monde, a Russia Today France, versão francesa da referida estação, vai começar a emitir ainda “antes do Natal”. Será então acessível pela Internet, mas também pela Bouygues Telecom e, provavelmente, pela Free, com a qual as negociações estão adiantadas. “A SFR e a Orange dizem continuar ‘em discussão’: a cadeia emblemática do soft power russo ainda levanta desconfiança.”

 

O diário francês recorda que, no final de Maio, quando o Presidente Putin era recebido com grande pompa em Versalhes, Xenia Fedorova, a presidente da RT France, interpelou Emmanuel Macron sobre o motivo por que os seus jornalistas não tinham acesso à sede do movimento En Marche! A resposta do Presidente francês foi:

 

Russia Today e Sputnik não se têm comportado como órgãos de Imprensa e como jornalistas, mas têm-se comportado como órgãos de influência, de propaganda, e de propaganda enganadora, nem mais nem menos.”

 

 

Mais informação em Le Monde

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"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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