Segunda-feira, 22 de Janeiro, 2018
Estudo

Tratar os “robots” jornalísticos como ferramentas e não como rivais

Já existem, e estão a ser usados, sistemas “capazes de complementar, ajudar e até mesmo (em certas limitadas circunstâncias), substituir os jornalistas no seu trabalho quotidiano”. No limite, não haverá um dia “nenhuma tarefa completamente a salvo da máquina; nenhum emprego seguro, nem sequer o do director”. O que se diz aqui não é “apocalíptico”, mas a reflexão do jornalista José Cervera, docente especializado em divulgação científica, na revista Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. A sua proposta final é a de um “jornalismo ciborg”, de jornalistas complementados com robots, aproveitando “as melhores qualidades, tanto do humano como da máquina”. 

O autor faz uma descrição histórica do caminho que nos trouxe a este ponto, com o homo sapiens “adaptando-se à tecnologia e adaptando-a a si para atender às suas necessidades, cada vez maiores à medida que crescia o seu poder”.  

No fundo, é a história das ferramentas e das máquinas, que passa pela roda, o vapor, o motor de explosão, a electricidade e a energia nuclear. Cada um destes progressos trouxe “saltos qualitativos de grande impacto na cultura humana”, mas os ofícios do cérebro “não tinham incorporado nas suas tarefas quotidianas ferramentas de potência equivalente, no seu âmbito, às grandes máquinas que usamos todos os dias no mundo físico. Até agora.”  

José Cervera descreve então o que já está a acontecer nos grandes meios de comunicação: 

Já estão a ser usados “bots jornalísticos” que usam as grandes redes sociais para “distribuir notícias ou alertas sobre notícias publicadas noutros formatos, para chegar a novos públicos com o menor esforço (e investimento) possível”. Trata-se, no fundo, de criar “novos canais de distribuição”.  

O El País fez isso com um bot no Facebook Messenger para informar sobre as eleições francesas, e a BBC fez o mesmo na cobertura do processo do Brexit.  

The New York Times deu um passo adiante, com chatbots bi-direccionais, capazes de manter conversas individualizadas com os utentes e responder a perguntas.  

The Washington Post foi ainda mais longe, criando mais de 100 bots diferentes, para funcionarem, dentro da redacção, como ferramentas de trabalho e não só canais de distribuição. Outro dos produtos internos é o Heliograf, um robot capaz de criar histórias simples a partir de dados, usando frases-chave redigidas por jornalistas, que depois selecciona conforme os dados recebidos.  

A equipa sentiu a necessidade de redigir a sua própria versão das leis da robótica de Asimov, descrevendo aquilo que um robot jornalista pode e não pode fazer.  

Também já existem, por exemplo na Associated Press, ferramentas capazes de redigir e publicar os relatórios informativos dos resultados trimestrais das empresas. Os robots “digerem” os formatos standard desses documentos e fazem a actualização em breves peças descritivas, comparando com períodos homólogos.  

A criação de primeiras páginas já chegou ao diário sueco Svenska Dagbladet:  

“O robot encarrega-se de tudo. Os jornalistas podem dedicar-se a pesquisar e redigir notícias. O tráfego aumenta e, com ele, a rentabilidade: o jornal, que estava em perda em 2013, aumentou as receitas, as assinaturas e os lucros. À custa de perder empregos, claro está.” (…)  

José Cervera alerta para o que vem a seguir:  

“Estão a ser desenvolvidos sistemas de aprendizagem que um dia serão capazes de colher informação e de a elaborar em linguagem natural de modo automático. A sua integração com os assistentes pessoais tornaria desnecessários muitos dos meios convencionais para uma parte importante das notícias.”  

“Para cúmulo, este tipo de tecnologia está a ser desenvolvido pelas empresas do sector informático, cujos interesses não passam necessariamente por uma cidadania melhor informada ou por uma democracia mais vital.”  

A sua proposta é a desse “jornalismo ciborg” assumido, não considerando as máquinas como inimigas nem rivais, mas como ferramentas.  

“Neste ponto será vital o papel dos gestores das empresas jornalísticas, porque, se sucumbirem à tentação de usar os bots como processo fácil de ganhar dinheiro, cortando postos de trabalho, a oportunidade vai perder-se. E então acabaremos no outro futuro: aquele em que a conversação social fica dominada pelos interesses das empresas de tecnologia.”   

O texto de José Cervera, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Quatro congressos de jornalistas e gestores de Media em Portugal Ver galeria

Vão decorrer este ano, em Lisboa e Cascais, quase em simultâneo, quatro importantes encontros internacionais de jornalistas, directores e proprietários de media, ou ainda de especialistas nas novas tecnologias digitais aplicadas à comunicação. O título que os agrupa todos é Media Summit, e os dois mais concorridos trazem ao nosso País, cada um deles, perto de um milhar de participantes. Entre o final de Maio e o princípio de Junho, os grandes nomes de referência dos jornais e agências de Imprensa, os Repórteres sem Fronteiras como o Consórcio Internacional de Jornalistas, as plataformas das redes sociais como os representantes da Federação Internacional de Jornalistas, vão poder, pela proximidade física entre todos os eventos, avaliar problemas diversos ou comuns e, eventualmente, marcar encontros entre si.

António Lobo Xavier em Janeiro no novo ciclo de jantares-debate do CPI Ver galeria

O novo ciclo de jantares-debate,  promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o  Grémio Literário, subordinado ao tema genérico O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções” prossegue  no próximo dia 24 de Janeiro, sendo orador convidado António Lobo Xavier, advogado, político e conselheiro de Estado designado por Marcelo Rebelo de Sousa.  

António Bernardo Aranha da Gama Lobo Xavier, de seu nome completo, nasceu em Coimbra em 1959, e é um prestigiado advogado, ligado desde a juventude ao CDS-PP, com uma intervenção política regular e respeitada, designadamente, no programa televisivo “Quadratura do Círculo”, no qual participa desde 2004.


O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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