null, 26 de Maio, 2019
Estudo

Tratar os “robots” jornalísticos como ferramentas e não como rivais

Já existem, e estão a ser usados, sistemas “capazes de complementar, ajudar e até mesmo (em certas limitadas circunstâncias), substituir os jornalistas no seu trabalho quotidiano”. No limite, não haverá um dia “nenhuma tarefa completamente a salvo da máquina; nenhum emprego seguro, nem sequer o do director”. O que se diz aqui não é “apocalíptico”, mas a reflexão do jornalista José Cervera, docente especializado em divulgação científica, na revista Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. A sua proposta final é a de um “jornalismo ciborg”, de jornalistas complementados com robots, aproveitando “as melhores qualidades, tanto do humano como da máquina”. 

O autor faz uma descrição histórica do caminho que nos trouxe a este ponto, com o homo sapiens “adaptando-se à tecnologia e adaptando-a a si para atender às suas necessidades, cada vez maiores à medida que crescia o seu poder”.  

No fundo, é a história das ferramentas e das máquinas, que passa pela roda, o vapor, o motor de explosão, a electricidade e a energia nuclear. Cada um destes progressos trouxe “saltos qualitativos de grande impacto na cultura humana”, mas os ofícios do cérebro “não tinham incorporado nas suas tarefas quotidianas ferramentas de potência equivalente, no seu âmbito, às grandes máquinas que usamos todos os dias no mundo físico. Até agora.”  

José Cervera descreve então o que já está a acontecer nos grandes meios de comunicação: 

Já estão a ser usados “bots jornalísticos” que usam as grandes redes sociais para “distribuir notícias ou alertas sobre notícias publicadas noutros formatos, para chegar a novos públicos com o menor esforço (e investimento) possível”. Trata-se, no fundo, de criar “novos canais de distribuição”.  

O El País fez isso com um bot no Facebook Messenger para informar sobre as eleições francesas, e a BBC fez o mesmo na cobertura do processo do Brexit.  

The New York Times deu um passo adiante, com chatbots bi-direccionais, capazes de manter conversas individualizadas com os utentes e responder a perguntas.  

The Washington Post foi ainda mais longe, criando mais de 100 bots diferentes, para funcionarem, dentro da redacção, como ferramentas de trabalho e não só canais de distribuição. Outro dos produtos internos é o Heliograf, um robot capaz de criar histórias simples a partir de dados, usando frases-chave redigidas por jornalistas, que depois selecciona conforme os dados recebidos.  

A equipa sentiu a necessidade de redigir a sua própria versão das leis da robótica de Asimov, descrevendo aquilo que um robot jornalista pode e não pode fazer.  

Também já existem, por exemplo na Associated Press, ferramentas capazes de redigir e publicar os relatórios informativos dos resultados trimestrais das empresas. Os robots “digerem” os formatos standard desses documentos e fazem a actualização em breves peças descritivas, comparando com períodos homólogos.  

A criação de primeiras páginas já chegou ao diário sueco Svenska Dagbladet:  

“O robot encarrega-se de tudo. Os jornalistas podem dedicar-se a pesquisar e redigir notícias. O tráfego aumenta e, com ele, a rentabilidade: o jornal, que estava em perda em 2013, aumentou as receitas, as assinaturas e os lucros. À custa de perder empregos, claro está.” (…)  

José Cervera alerta para o que vem a seguir:  

“Estão a ser desenvolvidos sistemas de aprendizagem que um dia serão capazes de colher informação e de a elaborar em linguagem natural de modo automático. A sua integração com os assistentes pessoais tornaria desnecessários muitos dos meios convencionais para uma parte importante das notícias.”  

“Para cúmulo, este tipo de tecnologia está a ser desenvolvido pelas empresas do sector informático, cujos interesses não passam necessariamente por uma cidadania melhor informada ou por uma democracia mais vital.”  

A sua proposta é a desse “jornalismo ciborg” assumido, não considerando as máquinas como inimigas nem rivais, mas como ferramentas.  

“Neste ponto será vital o papel dos gestores das empresas jornalísticas, porque, se sucumbirem à tentação de usar os bots como processo fácil de ganhar dinheiro, cortando postos de trabalho, a oportunidade vai perder-se. E então acabaremos no outro futuro: aquele em que a conversação social fica dominada pelos interesses das empresas de tecnologia.”   

O texto de José Cervera, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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