Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Estudo

Tratar os “robots” jornalísticos como ferramentas e não como rivais

Já existem, e estão a ser usados, sistemas “capazes de complementar, ajudar e até mesmo (em certas limitadas circunstâncias), substituir os jornalistas no seu trabalho quotidiano”. No limite, não haverá um dia “nenhuma tarefa completamente a salvo da máquina; nenhum emprego seguro, nem sequer o do director”. O que se diz aqui não é “apocalíptico”, mas a reflexão do jornalista José Cervera, docente especializado em divulgação científica, na revista Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. A sua proposta final é a de um “jornalismo ciborg”, de jornalistas complementados com robots, aproveitando “as melhores qualidades, tanto do humano como da máquina”. 

O autor faz uma descrição histórica do caminho que nos trouxe a este ponto, com o homo sapiens “adaptando-se à tecnologia e adaptando-a a si para atender às suas necessidades, cada vez maiores à medida que crescia o seu poder”.  

No fundo, é a história das ferramentas e das máquinas, que passa pela roda, o vapor, o motor de explosão, a electricidade e a energia nuclear. Cada um destes progressos trouxe “saltos qualitativos de grande impacto na cultura humana”, mas os ofícios do cérebro “não tinham incorporado nas suas tarefas quotidianas ferramentas de potência equivalente, no seu âmbito, às grandes máquinas que usamos todos os dias no mundo físico. Até agora.”  

José Cervera descreve então o que já está a acontecer nos grandes meios de comunicação: 

Já estão a ser usados “bots jornalísticos” que usam as grandes redes sociais para “distribuir notícias ou alertas sobre notícias publicadas noutros formatos, para chegar a novos públicos com o menor esforço (e investimento) possível”. Trata-se, no fundo, de criar “novos canais de distribuição”.  

O El País fez isso com um bot no Facebook Messenger para informar sobre as eleições francesas, e a BBC fez o mesmo na cobertura do processo do Brexit.  

The New York Times deu um passo adiante, com chatbots bi-direccionais, capazes de manter conversas individualizadas com os utentes e responder a perguntas.  

The Washington Post foi ainda mais longe, criando mais de 100 bots diferentes, para funcionarem, dentro da redacção, como ferramentas de trabalho e não só canais de distribuição. Outro dos produtos internos é o Heliograf, um robot capaz de criar histórias simples a partir de dados, usando frases-chave redigidas por jornalistas, que depois selecciona conforme os dados recebidos.  

A equipa sentiu a necessidade de redigir a sua própria versão das leis da robótica de Asimov, descrevendo aquilo que um robot jornalista pode e não pode fazer.  

Também já existem, por exemplo na Associated Press, ferramentas capazes de redigir e publicar os relatórios informativos dos resultados trimestrais das empresas. Os robots “digerem” os formatos standard desses documentos e fazem a actualização em breves peças descritivas, comparando com períodos homólogos.  

A criação de primeiras páginas já chegou ao diário sueco Svenska Dagbladet:  

“O robot encarrega-se de tudo. Os jornalistas podem dedicar-se a pesquisar e redigir notícias. O tráfego aumenta e, com ele, a rentabilidade: o jornal, que estava em perda em 2013, aumentou as receitas, as assinaturas e os lucros. À custa de perder empregos, claro está.” (…)  

José Cervera alerta para o que vem a seguir:  

“Estão a ser desenvolvidos sistemas de aprendizagem que um dia serão capazes de colher informação e de a elaborar em linguagem natural de modo automático. A sua integração com os assistentes pessoais tornaria desnecessários muitos dos meios convencionais para uma parte importante das notícias.”  

“Para cúmulo, este tipo de tecnologia está a ser desenvolvido pelas empresas do sector informático, cujos interesses não passam necessariamente por uma cidadania melhor informada ou por uma democracia mais vital.”  

A sua proposta é a desse “jornalismo ciborg” assumido, não considerando as máquinas como inimigas nem rivais, mas como ferramentas.  

“Neste ponto será vital o papel dos gestores das empresas jornalísticas, porque, se sucumbirem à tentação de usar os bots como processo fácil de ganhar dinheiro, cortando postos de trabalho, a oportunidade vai perder-se. E então acabaremos no outro futuro: aquele em que a conversação social fica dominada pelos interesses das empresas de tecnologia.”   

O texto de José Cervera, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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