Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
Estudo

Tratar os “robots” jornalísticos como ferramentas e não como rivais

Já existem, e estão a ser usados, sistemas “capazes de complementar, ajudar e até mesmo (em certas limitadas circunstâncias), substituir os jornalistas no seu trabalho quotidiano”. No limite, não haverá um dia “nenhuma tarefa completamente a salvo da máquina; nenhum emprego seguro, nem sequer o do director”. O que se diz aqui não é “apocalíptico”, mas a reflexão do jornalista José Cervera, docente especializado em divulgação científica, na revista Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. A sua proposta final é a de um “jornalismo ciborg”, de jornalistas complementados com robots, aproveitando “as melhores qualidades, tanto do humano como da máquina”. 

O autor faz uma descrição histórica do caminho que nos trouxe a este ponto, com o homo sapiens “adaptando-se à tecnologia e adaptando-a a si para atender às suas necessidades, cada vez maiores à medida que crescia o seu poder”.  

No fundo, é a história das ferramentas e das máquinas, que passa pela roda, o vapor, o motor de explosão, a electricidade e a energia nuclear. Cada um destes progressos trouxe “saltos qualitativos de grande impacto na cultura humana”, mas os ofícios do cérebro “não tinham incorporado nas suas tarefas quotidianas ferramentas de potência equivalente, no seu âmbito, às grandes máquinas que usamos todos os dias no mundo físico. Até agora.”  

José Cervera descreve então o que já está a acontecer nos grandes meios de comunicação: 

Já estão a ser usados “bots jornalísticos” que usam as grandes redes sociais para “distribuir notícias ou alertas sobre notícias publicadas noutros formatos, para chegar a novos públicos com o menor esforço (e investimento) possível”. Trata-se, no fundo, de criar “novos canais de distribuição”.  

O El País fez isso com um bot no Facebook Messenger para informar sobre as eleições francesas, e a BBC fez o mesmo na cobertura do processo do Brexit.  

The New York Times deu um passo adiante, com chatbots bi-direccionais, capazes de manter conversas individualizadas com os utentes e responder a perguntas.  

The Washington Post foi ainda mais longe, criando mais de 100 bots diferentes, para funcionarem, dentro da redacção, como ferramentas de trabalho e não só canais de distribuição. Outro dos produtos internos é o Heliograf, um robot capaz de criar histórias simples a partir de dados, usando frases-chave redigidas por jornalistas, que depois selecciona conforme os dados recebidos.  

A equipa sentiu a necessidade de redigir a sua própria versão das leis da robótica de Asimov, descrevendo aquilo que um robot jornalista pode e não pode fazer.  

Também já existem, por exemplo na Associated Press, ferramentas capazes de redigir e publicar os relatórios informativos dos resultados trimestrais das empresas. Os robots “digerem” os formatos standard desses documentos e fazem a actualização em breves peças descritivas, comparando com períodos homólogos.  

A criação de primeiras páginas já chegou ao diário sueco Svenska Dagbladet:  

“O robot encarrega-se de tudo. Os jornalistas podem dedicar-se a pesquisar e redigir notícias. O tráfego aumenta e, com ele, a rentabilidade: o jornal, que estava em perda em 2013, aumentou as receitas, as assinaturas e os lucros. À custa de perder empregos, claro está.” (…)  

José Cervera alerta para o que vem a seguir:  

“Estão a ser desenvolvidos sistemas de aprendizagem que um dia serão capazes de colher informação e de a elaborar em linguagem natural de modo automático. A sua integração com os assistentes pessoais tornaria desnecessários muitos dos meios convencionais para uma parte importante das notícias.”  

“Para cúmulo, este tipo de tecnologia está a ser desenvolvido pelas empresas do sector informático, cujos interesses não passam necessariamente por uma cidadania melhor informada ou por uma democracia mais vital.”  

A sua proposta é a desse “jornalismo ciborg” assumido, não considerando as máquinas como inimigas nem rivais, mas como ferramentas.  

“Neste ponto será vital o papel dos gestores das empresas jornalísticas, porque, se sucumbirem à tentação de usar os bots como processo fácil de ganhar dinheiro, cortando postos de trabalho, a oportunidade vai perder-se. E então acabaremos no outro futuro: aquele em que a conversação social fica dominada pelos interesses das empresas de tecnologia.”   

O texto de José Cervera, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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