Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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A polarização política foi acirrada pelo código binário digital

Há um “acirramento de ânimos cada vez mais presente nas discussões”, sobre o qual temos de reflectir. “Correntes de pensamento legítimas, à esquerda ou à direita, passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento, conteúdo e contexto, mas sobra a ironia rasa, baseada na exacerbação dos defeitos do outro, na caricatura da opinião alheia.” O que mudou tudo, nos últimos anos, foi a Internet, “mas não qualquer Internet”. A verdadeira novidade da socialização em rede é que “este processo passou a ser organizado não por pessoas, por mediadores, mas por algoritmos”, e todo o fluxo de dados “é reduzido ao código binário, a língua nativa dos computadores e da programação”. O reflexo disto “é a polarização, o acirramento do pensamento binário”. É esta a leitura de Jeferson Martinho, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa, naturalmente situando o problema no contexto brasileiro, mas lembra que o fenómeno é hoje muito mais abrangente, tendo ocorrido no Brexit e na “improvável eleição de Donald Trump”. Não tanto “do ponto de vista das escolhas em si, mas da forma como as pessoas se agarraram a essas escolhas”:

 

“Da voracidade com a qual passaram a defendê-las. Mais ainda, embebidas num caldo turvo que acabou ganhando nomes pós-modernos, como pós-verdade, fakenews, como se fossem necessárias novas definições para a mentira e a manipulação.” (...)

 

A novidade dos últimos anos, que ajuda a compreender este fenómeno, foi “a Internet da conexão permanente, do celular conectado, do acesso fácil que liga em redes (sociais) indivíduos de todo o planeta e faz com que eles se agrupem segundo os seus interesses, gostos, opiniões e similaridades”.

Isto levou ao conceito da “bolha de filtro”, estudado pelo activista político dos EUA Eli Pariser em The Filter Bubble. “No entanto, o problema é bem maior. Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa”.

“Cada vez mais, nas plataformas digitais, as interacções humanas, das nossas relações de amizade, interesses de consumo a avaliações de crédito e de saúde, têm sido administradas por porções de códigos e peças equivalentes a programas de computador. Eles determinam exatamente o quê e quando vamos ver.” 

“Os anónimos criadores desses algoritmos, certamente bastante versados em linguagens de programação, matemática e ciências correlatas, actualmente concebem-nos de tal forma pretensiosos que chegam a tentar estabelecer, por antecipação, que notícia mais nos interessará, com quem potencialmente teremos mais afinidade ou até que prato provavelmente vamos preferir num restaurante. Mas as ciências das relações humanas, da política à sociologia, não integram o código. São reconhecidos apenas os padrões.” (...) 

“Um algoritmo actuando pode até estabelecer um leque de decisões estratificadas por probabilidades. Mas a sobreposição de algoritmos, com dezenas, centenas de cálculos para a tomada de decisões probabilísticas, fatalmente tenderá a reduzir os grupos que são objetos de decisão a um ou zero. (...) Eis aí o grande problema dos nossos tempos. O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos ao longo do tempo fará com que cada vez mais diferentes perfis psicológicos, sociais e políticos sejam agrupados em apenas dois conjuntos.” (...) 

A concluir, o autor recorda que, “em suas palestras e análises, Pariser chama a atenção dos espectadores para a urgente necessidade de pressionarmos as grandes empresas de tecnologia para adopção de novos modelos”: 

“Uma das ideias seria o resgate da figura similar à dos editores, nos meios de comunicação. Como curadores de conteúdo, com background cultural apropriado, diversificado, e um pensamento não binário, talvez fosse possível oferecer, a um público ávido por informação, conteúdo rico o suficiente para contemplar visões mais amplas e complexas do mundo.” (...) 

 

O texto de Jeferson Martinho, CEO da Nova Onda Comunicação, no Observatório da Imprensa

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Em Outubro de 2017, a jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava as ligações políticas perigosas da corrupção na ilha de Malta, foi morta num atentado à bomba. Hoje, uma equipa de 45 jornalistas, de 18 órgãos de comunicação de todo o mundo, está a trabalhar no Projecto Daphne, uma série de artigos que possam completar a sua investigação. Este projecto inscreve-se na missão de Forbidden Stories, cujo fundador, o realizador francês Laurent Richard, reafirmou em artigo recente em The Guardian: “Vocês mataram o mesageiro, mas não conseguirão matar a mensagem.”

Jornalismo de investigação é a melhor arma contra a propaganda Ver galeria

O combate à desinformação online tornou-se o tema incontornável de todos os encontros de jornalistas. Mas um dos painéis realizados na mais recente edição do Festival Internacional de Jornalismo, em Perugia, Itália, escutou intervenções que sugerem uma atitude menos confrontacional. A ideia é que resulta melhor investir num jornalismo de investigação no terreno, mesmo que tome mais tempo, do que tentar a batalha sempre perdida de aguentar o ritmo de produção das grandes máquinas de propaganda. Falaram neste sentido vozes experimentadas, de jornalistas como Galina Timchenko, russa, fundadora e directora do website Meduza, e Natalia Anteleva, georgiana, co-fundadora e editora de Coda Story.

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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