null, 19 de Maio, 2019
Colectânea

A polarização política foi acirrada pelo código binário digital

Há um “acirramento de ânimos cada vez mais presente nas discussões”, sobre o qual temos de reflectir. “Correntes de pensamento legítimas, à esquerda ou à direita, passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento, conteúdo e contexto, mas sobra a ironia rasa, baseada na exacerbação dos defeitos do outro, na caricatura da opinião alheia.” O que mudou tudo, nos últimos anos, foi a Internet, “mas não qualquer Internet”. A verdadeira novidade da socialização em rede é que “este processo passou a ser organizado não por pessoas, por mediadores, mas por algoritmos”, e todo o fluxo de dados “é reduzido ao código binário, a língua nativa dos computadores e da programação”. O reflexo disto “é a polarização, o acirramento do pensamento binário”. É esta a leitura de Jeferson Martinho, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa, naturalmente situando o problema no contexto brasileiro, mas lembra que o fenómeno é hoje muito mais abrangente, tendo ocorrido no Brexit e na “improvável eleição de Donald Trump”. Não tanto “do ponto de vista das escolhas em si, mas da forma como as pessoas se agarraram a essas escolhas”:

 

“Da voracidade com a qual passaram a defendê-las. Mais ainda, embebidas num caldo turvo que acabou ganhando nomes pós-modernos, como pós-verdade, fakenews, como se fossem necessárias novas definições para a mentira e a manipulação.” (...)

 

A novidade dos últimos anos, que ajuda a compreender este fenómeno, foi “a Internet da conexão permanente, do celular conectado, do acesso fácil que liga em redes (sociais) indivíduos de todo o planeta e faz com que eles se agrupem segundo os seus interesses, gostos, opiniões e similaridades”.

Isto levou ao conceito da “bolha de filtro”, estudado pelo activista político dos EUA Eli Pariser em The Filter Bubble. “No entanto, o problema é bem maior. Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa”.

“Cada vez mais, nas plataformas digitais, as interacções humanas, das nossas relações de amizade, interesses de consumo a avaliações de crédito e de saúde, têm sido administradas por porções de códigos e peças equivalentes a programas de computador. Eles determinam exatamente o quê e quando vamos ver.” 

“Os anónimos criadores desses algoritmos, certamente bastante versados em linguagens de programação, matemática e ciências correlatas, actualmente concebem-nos de tal forma pretensiosos que chegam a tentar estabelecer, por antecipação, que notícia mais nos interessará, com quem potencialmente teremos mais afinidade ou até que prato provavelmente vamos preferir num restaurante. Mas as ciências das relações humanas, da política à sociologia, não integram o código. São reconhecidos apenas os padrões.” (...) 

“Um algoritmo actuando pode até estabelecer um leque de decisões estratificadas por probabilidades. Mas a sobreposição de algoritmos, com dezenas, centenas de cálculos para a tomada de decisões probabilísticas, fatalmente tenderá a reduzir os grupos que são objetos de decisão a um ou zero. (...) Eis aí o grande problema dos nossos tempos. O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos ao longo do tempo fará com que cada vez mais diferentes perfis psicológicos, sociais e políticos sejam agrupados em apenas dois conjuntos.” (...) 

A concluir, o autor recorda que, “em suas palestras e análises, Pariser chama a atenção dos espectadores para a urgente necessidade de pressionarmos as grandes empresas de tecnologia para adopção de novos modelos”: 

“Uma das ideias seria o resgate da figura similar à dos editores, nos meios de comunicação. Como curadores de conteúdo, com background cultural apropriado, diversificado, e um pensamento não binário, talvez fosse possível oferecer, a um público ávido por informação, conteúdo rico o suficiente para contemplar visões mais amplas e complexas do mundo.” (...) 

 

O texto de Jeferson Martinho, CEO da Nova Onda Comunicação, no Observatório da Imprensa

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Licenciado em Medicina, com Distinção, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 1973, foi interno de Medicina Interna dos Hospitais Civis de Lisboa no Hospital de Santa Marta e completou, em 1977, o Curso de Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública de Lisboa, tornando-se especialista em Saúde Pública.
Meio século depois da alunagem o valor do jornalismo científico Ver galeria

Vai fazer 50 anos, no dia 20 de Julho, a primeira descida de uma nave com tripulação humana sobre a superfície da Lua. Seis horas depois da alunagem, já a 21, o comandante Neil Armstrong foi o primiro homem a pisar o solo do nosso satélite. O sucesso da missão Apollo 11, e das outras cinco missões lunares que a seguiram, teve um enorme impacto sobre a Humanidade.

“Do ponto de vista mediático, o colossal interesse público que o voo da Apollo 11 suscitou  — estima-se que um em cada seis habitantes do planeta assistiu pela TV ao momento em que Neil Armstrong desceu lentamente pela escada do módulo lunar até pousar os pés na superfície do satélite —  consolidou um público ávido por acompanhar a exploração do espaço.”

Cinquenta anos depois, as perspectivas de colonização do Sistema Solar continuam distantes, e a cobertura de astronomia e exploração espacial teve de mudar muito. “Mas, para quem tem o coração nas estrelas, continua sendo uma actividade apaixonante.”

A reflexão é de Pablo Nogueira, jornalista e editor da Scientific American Brasil, membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência. No Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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