Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Colectânea

A polarização política foi acirrada pelo código binário digital

Há um “acirramento de ânimos cada vez mais presente nas discussões”, sobre o qual temos de reflectir. “Correntes de pensamento legítimas, à esquerda ou à direita, passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento, conteúdo e contexto, mas sobra a ironia rasa, baseada na exacerbação dos defeitos do outro, na caricatura da opinião alheia.” O que mudou tudo, nos últimos anos, foi a Internet, “mas não qualquer Internet”. A verdadeira novidade da socialização em rede é que “este processo passou a ser organizado não por pessoas, por mediadores, mas por algoritmos”, e todo o fluxo de dados “é reduzido ao código binário, a língua nativa dos computadores e da programação”. O reflexo disto “é a polarização, o acirramento do pensamento binário”. É esta a leitura de Jeferson Martinho, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa, naturalmente situando o problema no contexto brasileiro, mas lembra que o fenómeno é hoje muito mais abrangente, tendo ocorrido no Brexit e na “improvável eleição de Donald Trump”. Não tanto “do ponto de vista das escolhas em si, mas da forma como as pessoas se agarraram a essas escolhas”:

 

“Da voracidade com a qual passaram a defendê-las. Mais ainda, embebidas num caldo turvo que acabou ganhando nomes pós-modernos, como pós-verdade, fakenews, como se fossem necessárias novas definições para a mentira e a manipulação.” (...)

 

A novidade dos últimos anos, que ajuda a compreender este fenómeno, foi “a Internet da conexão permanente, do celular conectado, do acesso fácil que liga em redes (sociais) indivíduos de todo o planeta e faz com que eles se agrupem segundo os seus interesses, gostos, opiniões e similaridades”.

Isto levou ao conceito da “bolha de filtro”, estudado pelo activista político dos EUA Eli Pariser em The Filter Bubble. “No entanto, o problema é bem maior. Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa”.

“Cada vez mais, nas plataformas digitais, as interacções humanas, das nossas relações de amizade, interesses de consumo a avaliações de crédito e de saúde, têm sido administradas por porções de códigos e peças equivalentes a programas de computador. Eles determinam exatamente o quê e quando vamos ver.” 

“Os anónimos criadores desses algoritmos, certamente bastante versados em linguagens de programação, matemática e ciências correlatas, actualmente concebem-nos de tal forma pretensiosos que chegam a tentar estabelecer, por antecipação, que notícia mais nos interessará, com quem potencialmente teremos mais afinidade ou até que prato provavelmente vamos preferir num restaurante. Mas as ciências das relações humanas, da política à sociologia, não integram o código. São reconhecidos apenas os padrões.” (...) 

“Um algoritmo actuando pode até estabelecer um leque de decisões estratificadas por probabilidades. Mas a sobreposição de algoritmos, com dezenas, centenas de cálculos para a tomada de decisões probabilísticas, fatalmente tenderá a reduzir os grupos que são objetos de decisão a um ou zero. (...) Eis aí o grande problema dos nossos tempos. O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos ao longo do tempo fará com que cada vez mais diferentes perfis psicológicos, sociais e políticos sejam agrupados em apenas dois conjuntos.” (...) 

A concluir, o autor recorda que, “em suas palestras e análises, Pariser chama a atenção dos espectadores para a urgente necessidade de pressionarmos as grandes empresas de tecnologia para adopção de novos modelos”: 

“Uma das ideias seria o resgate da figura similar à dos editores, nos meios de comunicação. Como curadores de conteúdo, com background cultural apropriado, diversificado, e um pensamento não binário, talvez fosse possível oferecer, a um público ávido por informação, conteúdo rico o suficiente para contemplar visões mais amplas e complexas do mundo.” (...) 

 

O texto de Jeferson Martinho, CEO da Nova Onda Comunicação, no Observatório da Imprensa

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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