Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
Colectânea

A polarização política foi acirrada pelo código binário digital

Há um “acirramento de ânimos cada vez mais presente nas discussões”, sobre o qual temos de reflectir. “Correntes de pensamento legítimas, à esquerda ou à direita, passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento, conteúdo e contexto, mas sobra a ironia rasa, baseada na exacerbação dos defeitos do outro, na caricatura da opinião alheia.” O que mudou tudo, nos últimos anos, foi a Internet, “mas não qualquer Internet”. A verdadeira novidade da socialização em rede é que “este processo passou a ser organizado não por pessoas, por mediadores, mas por algoritmos”, e todo o fluxo de dados “é reduzido ao código binário, a língua nativa dos computadores e da programação”. O reflexo disto “é a polarização, o acirramento do pensamento binário”. É esta a leitura de Jeferson Martinho, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa, naturalmente situando o problema no contexto brasileiro, mas lembra que o fenómeno é hoje muito mais abrangente, tendo ocorrido no Brexit e na “improvável eleição de Donald Trump”. Não tanto “do ponto de vista das escolhas em si, mas da forma como as pessoas se agarraram a essas escolhas”:

 

“Da voracidade com a qual passaram a defendê-las. Mais ainda, embebidas num caldo turvo que acabou ganhando nomes pós-modernos, como pós-verdade, fakenews, como se fossem necessárias novas definições para a mentira e a manipulação.” (...)

 

A novidade dos últimos anos, que ajuda a compreender este fenómeno, foi “a Internet da conexão permanente, do celular conectado, do acesso fácil que liga em redes (sociais) indivíduos de todo o planeta e faz com que eles se agrupem segundo os seus interesses, gostos, opiniões e similaridades”.

Isto levou ao conceito da “bolha de filtro”, estudado pelo activista político dos EUA Eli Pariser em The Filter Bubble. “No entanto, o problema é bem maior. Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa”.

“Cada vez mais, nas plataformas digitais, as interacções humanas, das nossas relações de amizade, interesses de consumo a avaliações de crédito e de saúde, têm sido administradas por porções de códigos e peças equivalentes a programas de computador. Eles determinam exatamente o quê e quando vamos ver.” 

“Os anónimos criadores desses algoritmos, certamente bastante versados em linguagens de programação, matemática e ciências correlatas, actualmente concebem-nos de tal forma pretensiosos que chegam a tentar estabelecer, por antecipação, que notícia mais nos interessará, com quem potencialmente teremos mais afinidade ou até que prato provavelmente vamos preferir num restaurante. Mas as ciências das relações humanas, da política à sociologia, não integram o código. São reconhecidos apenas os padrões.” (...) 

“Um algoritmo actuando pode até estabelecer um leque de decisões estratificadas por probabilidades. Mas a sobreposição de algoritmos, com dezenas, centenas de cálculos para a tomada de decisões probabilísticas, fatalmente tenderá a reduzir os grupos que são objetos de decisão a um ou zero. (...) Eis aí o grande problema dos nossos tempos. O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos ao longo do tempo fará com que cada vez mais diferentes perfis psicológicos, sociais e políticos sejam agrupados em apenas dois conjuntos.” (...) 

A concluir, o autor recorda que, “em suas palestras e análises, Pariser chama a atenção dos espectadores para a urgente necessidade de pressionarmos as grandes empresas de tecnologia para adopção de novos modelos”: 

“Uma das ideias seria o resgate da figura similar à dos editores, nos meios de comunicação. Como curadores de conteúdo, com background cultural apropriado, diversificado, e um pensamento não binário, talvez fosse possível oferecer, a um público ávido por informação, conteúdo rico o suficiente para contemplar visões mais amplas e complexas do mundo.” (...) 

 

O texto de Jeferson Martinho, CEO da Nova Onda Comunicação, no Observatório da Imprensa

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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