null, 17 de Outubro, 2021
Jantares-debate

Carlos Magno: “A agenda política e a mediática são muitas vezes a mesma coisa”

“O papel da ERC é paradoxal, por um lado defender a liberdade de expressão, e por outro defender os cidadãos do abuso dos media.Tarefa difícil, porque, no meio destas duas obrigações, há sempre alguém que fica muito satisfeito e alguém que fica muito irritado, e depois quem paga é a entidade que teve de tomar decisões”  -  afirmou Carlos Magno, ainda na qualidade de presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, no jantar-debate incluído no ciclo sobre “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Ainda em termos de balanço de fim de mandato, declarou: “Serve isto para dizer que é preciso ter nervos de aço e bom senso, e sobretudo esperar que o tempo acabe por nos dar razão quando tomamos decisões que são sempre complicadas.”

Sobre o tema de fundo do ciclo, Carlos Magno disse que  “hoje o Estado não é sólido, nem é líquido nem gasoso  -  também ainda não é um Estado digital, mas bastante analógico, nós vivemos ainda num mundo antigo, que tarda em se adaptar às novas realidades do mundo do futuro”. E acrescentou que a reflexão proporcionada pela sessão “pode ser útil se nós conseguirmos mudar a agenda política, ou a agenda mediática, porque muitas vezes elas são uma e a mesma coisa”. (...)

 

Ainda sobre o seu mandato à frente do regulador dos media, recordou duas situações em que o Conselho Regulador votou contra a orientação dos respectivos serviços: a primeira foi quando “teve que votar uma proposta de deliberação dos serviços da ERC, que queriam mandar prender os deputados por praticarem televisão ilegal quando puseram o TV Parlamento na TDT”.

“E a última foi quando o Conselho Regulador deu luz verde ao Embaixador Seixas da Costa para ser membro do Conselho Geral da RTP, porque os serviços também o queriam chumbar.” (...)

 

Recordou também dois momentos que o marcaram de modo especial, enquanto responsável pela entidade reguladora:

 

“Um ex-espião, ou suposto espião, um homem que invadiu o sistema mediático porque, ao que parece, pôs a sua actividade ao serviço de empresas privadas”, depois de ser condenado em tribunal, saiu e declarou a todos os jornalistas, à porta do tribunal: fui vítima de uma guerra de grupos de media. E o País continuou, como se nada acontecesse.

“Eu coloquei a questão na ERC, sobre se reagimos, ou não reagimos”, mas acabou por não haver resposta da instituição. “E no entanto, se calhar, ele tinha toda a razão…”

 

A segunda questão teve a ver com os incêndios de Pedrógão e a árvore descrita como sendo aquela que fora atingida por um raio, e que teria estado na origem de todo o fogo que se seguiu.

“E ninguém mais fez perguntas sobre o que é que se passou com aquela árvore, se foi realmente aquilo, quando nós todos percebemos que o caso dos incêndios foi mal gerido, do ponto de vista político, porque houve quem se preocupasse mais em gerir a informação do que em acudir às pessoas que estavam a ser vítimas da Natureza e da falta de protecção do Estado…”

 

Carlos Magno introduziu então, como proposta de reflexão aos presentes, o que chamou “uma proposta alternativa”  - que em vez de nos perdermos em discussões sobre a transferência da EMA para o Porto, ou do Infarmed, tomemos a sério o seguinte:

 

“Se o Reino Unido sair da União Europeia, dentro de dois anos, as televisões europeias, que agora são obrigadas a transmitir 50% de conteúdos europeus, deixam de poder contar com os conteúdos britânicos como conteúdos europeus. As actuais directivas impõem, a todas as televisões e a todos os media europeus, que passem 50% de produção europeia. Quando o Reino Unido sair da União Europeia, podemos continuar a consumir os Downton Abbey, essas séries magníficas que a BBC produz, ou outras que vêm dos EUA via Reino Unido, mas a verdade é que eles não passarão a fazer parte da quota europeia.”

 

“O que significa que se abre um enorme ‘buraco’ para a produção europeia, que vai ter obrigatoriamente que ser feita, para que os distribuidores de conteúdos possam cumprir a directiva europeia. Significa isto que há uma enorme oportunidade, que os espanhóis, como sempre, já estão a aproveitar. (...)  Lisboa pode ser uma bela plataforma para produção de conteúdos nesta altura, e nós não discutimos isto…”

 

A médio prazo, como disse, há uma oportunidade para “quem estiver a produzir conteúdos baratos, com qualidade e com bons actores, e com uma capacidade de exportação como temos nós, na nossa língua, que é a que mais cresce, a mais falada no Hemisfério Sul, e é uma língua que precisa de conteúdos”. (...)

 

Carlos Magno criticou a seguir, como um dos problemas da sociedade portuguesa, “o excesso de conflitualidade artificial”, de “futebolês”, que permeia “tudo o que é política, como se isto fosse um simples campeonato entre pessoas que são rivais e têm que o ser”. (...)

“O ‘futebolês’ contaminou tudo, o discurso de ódio dos grupos de futebol está a contaminar toda a sociedade portuguesa, não estamos a perceber que estamos a ficar todos bastante impacientes, e se calhar uma coisa muito simples, estamos com saudades de nós próprios.” (...)

 

Apelou a que estejamos mais atentos à “geografia da actualidade”, e que os jornalistas tenham a capacidade de “alterar a agenda mediática”, bem como a de dizer: “eu sobre esse assunto não discuto”.

 

“Nós, em Portugal, temos alguma dificuldade em dizer não. A agenda mediática vai toda à procura do mesmo buraco negro central, onde estamos todos, mas depois não há grande diferença entre a agenda dos jornais ditos tablóides e a dos jornais de referência  - e era preciso que houvesse. Era preciso que alguém dissesse: eu vou-me dedicar a outros assuntos, vou alterar a agenda mediática, e vou pôr o País a discutir outras coisas.”

 

“Dito isto, gostava que entre as elites se voltasse a discutir a agenda do jornalismo, a geografia da actualidade, e ao mesmo tempo que se pensasse em Portugal como um País que é um laboratório, sobre o qual o Prof. Félix Ribeiro escreveu, há uns anos, um livro intitulado “Portugal - A Economia de uma Nação Rebelde”. (...)  

 

“A tese central é que Portugal é um país no túnel de vento. Eu acho que a questão do túnel do vento, que serve para os engenheiros e os cientistas experimentarem os equipamentos e as dinâmicas, nos devia fazer reflectir, a todos nós, e sermos capazes também de introduzir alguma linguagem científica, quer nas ciências sociais, quer na análise política e sobretudo no comentário político.” (...)

 

“Acho que precisamos sobretudo de ter capacidade para ouvir o outro. Estamos a ficar surdos, autistas, somos incapazes de ter um debate que se prolongue por mais algum tempo do que aquele que nos permite dar dois berros e dizer - tu és um estúpido, estamos todos a ficar com o pensamento do Twitter e com as expressões próprias do Facebook  -  como dizia há dias o Embaixador Cutileiro, que se vive uma completa ‘imunidade editorial’. Ora é contra essa imunidade editorial que eu defendo o jornalismo.” (...)

 

“Nós temos um problema muito complicado: um sistema mediático que ainda é pago pelo sistema financeiro, para satisfazer os vícios de uma classe política que está incapaz de mudar de linguagem.” (...)

 

“A análise da linguagem implica que nós peguemos nas palavras principais, naquelas que aparecem nos telejornais  -  e no telejornal não aparecem mais do que dez palavras novas por semana, são sempre as mesmas, que se repetem, e a linguagem é muito contagiosa.” (...)

 

A terminar, Carlos Magno afirmou:

 

“Estar seis anos à frente da ERC permitiu ver como é que nestes seis anos o País mudou, onde nós não percebemos que houve mudanças, e está rigorosamente na mesma onde achamos que há uma grande agitação mediática. A espuma mediática é um bocadinho como a lógica do pião: quando está a andar a grande velocidade, parece que está parado, e só começamos a perceber a velocidade do pião quando ele começa a perdê-la e começa a cair… eu acho que estamos a chegar a essa fase.”

 

Mas ainda acrescentou:

 

“Sou profundamente optimista e acho que, se tivermos juízo, ainda vamos a tempo de apanhar aquilo que vão ser os ‘cacos’ do Brexit… porque vai haver, para a língua portuguesa e a produção portuguesa para o espaço europeu, uma nova oportunidade em que ninguém pensou…”

 

Connosco
Jornalistas bielorrussos independentes tentam resistir a perseguições e ameaças Ver galeria

Na Bielorrússia, os jornalistas independentes enfrentam diversos obstáculos ao exercício das suas funções, sendo alvo de perseguição e ameaça por parte das autoridades.

Como tal, muitos destes profissionais são obrigados a pedir asilo político em países vizinhos, como forma de continuarem a informar o seu público, e a denunciar as injustiças praticadas pelo regime de Alexander Lukashenko.

É esse o caso de Stepan Putilo, um jovem bielorrusso radicado na Polónia, responsável pela criação de um dos formatos noticiosos mais conhecidos de sempre: o “Nexta”.

Conforme apontou Charles McPhedran num artigo publicado na “Columbia Journalism Review”, Putilo criou o “Nexta” em 2018, com o objectivo de desenvolver um novo formato noticioso, que aliasse a informação às tendências da internet.

Assim, através da rede social Telegram, Putilo começou a partilhar vídeos informativos, com monólogos sobre a situação política e social na Bielorrúsia, e caracterizados por um tom humorístico e sarcástico.

Graças a estes “boletins noticiosos” e à colaboração de Roman Pratasevich, outro jovem jornalista, o “Nexta” tornou-se o maior canal de sempre do Telegram, contando com mais de um milhão de seguidores.

Contudo, afirmou McPhedran, o projecto de Putilo e Pratasevich está longe de ser politicamente isento, já que todos os seus conteúdos são críticos de Lukashenko, e pretendem reforçar o movimento da oposição.

Alunos de jornalismo pessimistas quanto ao futuro em Portugal Ver galeria

A maioria dos alunos de jornalismo está pessimista quanto ao seu futuro profissional, considerando que será difícil encontrar um primeiro emprego, e que os salários serão baixos e precários, de acordo com um estudo da Universidade de Coimbra, citado pelo jornal digital “Observador”.

Conforme indica uma nota enviada à imprensa, os responsáveis pelo estudo realizaram um inquérito junto de 1.091 estudantes, que frequentaram 38 cursos de licenciatura ou mestrado em jornalismo e comunicação social, no ano lectivo 2020/2021.

Do número total de inquiridos, dois terços consideraram, de alguma forma, improvável “encontrar um primeiro emprego no jornalismo”. Uma percentagem semelhante de estudantes admitiu que será difícil conseguir um contrato laboral estável e com um salário condizente com o estatuto e responsabilidade da profissão.

Ainda assim, apenas 2,9% dos alunos admitiram a possibilidade de abandonar o curso para ingressar noutra área de formação e apenas cerca de 10% disseram não ter intenção de trabalhar em jornalismo.

“Os estudantes entram com o objectivo de serem jornalistas e motivados para esse futuro profissional”, disse o investigador João Miranda, realçando, porém, que existe “um paradoxo” face às baixas expectativas que têm para o futuro.
O estudo analisou, igualmente, as tendências de consumo noticioso dos alunos, realçando uma forte inclinação para consulta das redes sociais, como o Facebook e o Instagram.

O Clube


Recomeçamos. A pausa de agosto foi um tempo de análise e de reflexão sobre as delicadas circunstâncias que rodeiam e condicionam os media portugueses e as associações representativas do sector.
Enquanto as redacções encolhem e os jornais lutam pela sobrevivência, as grandes plataformas digitais tornam-se omnipresentes e absorvem a melhor publicidade.
Um estudo da ERC revela que dois terços dos inquiridos utiliza a internet, mas que, depois das televisões, as redes sociais aparecem já como fonte noticiosa preferencial, suplantando os jornais impressos.


A dificuldade da imprensa, com tiragens minguadas, influenciou a principal distribuidora de jornais e revistas no sentido de lançar uma taxa diária a cobrar aos quiosques e outros postos de venda.
Por agora, a cobrança está suspensa, no seguimento de uma providência cautelar aceite pelo tribunal, mas nada garante que o desfecho não venha a penalizar mais ainda a circulação da Imprensa.
A fragilidade das empresas de media agravou a sua dependência, e tornou-as gradualmente mais permeáveis aos desígnios do poder político.
Seja no audiovisual, seja nas publicações impressas, observa-se uma crescente uniformidade noticiosa, a par de uma actuação comprometida com as prioridades da agenda do Executivo.
Neste contexto, as associações do sector não têm a vida facilitada, quer pelo enfraquecimento do mecenato, quer pela apatia já antiga que se nota nos jornalistas no tocante ao associativismo.
Com 40 anos feitos de actividade ininterrupta, o Clube Português de Imprensa tem neste site uma forma de ligação privilegiada com associados e outros profissionais do sector, bem como com os estudantes dos cursos de jornalismo, apoiado em parcerias que são preciosas fontes complementares de informação e de análise.
Por aqui continuamos, com a consciência do desafio e do risco envolventes, e com a noção de partilha e de serviço que nos anima desde o início.


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O que une radicais de direita e de esquerda
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Contra o que frequentemente se julga, um radical de direita não está a uma distância de 180 graus de um radical de esquerda. Ambos partilham um desprezo pela democracia liberal, que consideram um regime político “mole”, sem “espinha dorsal”. Não aceitam que quem pense de maneira diferente da nossa não seja um inimigo a abater.  No passado dia 1 a Eslovénia sucedeu a Portugal na presidência semestral da UE....
Uma das coisas que mais me intriga e cansa no jornalismo que se faz atualmente em Portugal é a ausência de sentido crítico, a incapacidade de arriscar e de fazer diferente. Estão todos a correr para dar as mesmas notícias e fazer as mesmas perguntas. E, quando conseguem o objetivo, ficam com a sensação de dever cumprido.Vem isto a propósito da não notícia que ocupa lugar diário nos títulos da imprensa, dos...
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No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
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Nov
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Nov
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Nov
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