Quarta-feira, 30 de Novembro, 2022
Jantares-debate

Carlos Magno: “A agenda política e a mediática são muitas vezes a mesma coisa”

“O papel da ERC é paradoxal, por um lado defender a liberdade de expressão, e por outro defender os cidadãos do abuso dos media.Tarefa difícil, porque, no meio destas duas obrigações, há sempre alguém que fica muito satisfeito e alguém que fica muito irritado, e depois quem paga é a entidade que teve de tomar decisões”  -  afirmou Carlos Magno, ainda na qualidade de presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, no jantar-debate incluído no ciclo sobre “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Ainda em termos de balanço de fim de mandato, declarou: “Serve isto para dizer que é preciso ter nervos de aço e bom senso, e sobretudo esperar que o tempo acabe por nos dar razão quando tomamos decisões que são sempre complicadas.”

Sobre o tema de fundo do ciclo, Carlos Magno disse que  “hoje o Estado não é sólido, nem é líquido nem gasoso  -  também ainda não é um Estado digital, mas bastante analógico, nós vivemos ainda num mundo antigo, que tarda em se adaptar às novas realidades do mundo do futuro”. E acrescentou que a reflexão proporcionada pela sessão “pode ser útil se nós conseguirmos mudar a agenda política, ou a agenda mediática, porque muitas vezes elas são uma e a mesma coisa”. (...)

 

Ainda sobre o seu mandato à frente do regulador dos media, recordou duas situações em que o Conselho Regulador votou contra a orientação dos respectivos serviços: a primeira foi quando “teve que votar uma proposta de deliberação dos serviços da ERC, que queriam mandar prender os deputados por praticarem televisão ilegal quando puseram o TV Parlamento na TDT”.

“E a última foi quando o Conselho Regulador deu luz verde ao Embaixador Seixas da Costa para ser membro do Conselho Geral da RTP, porque os serviços também o queriam chumbar.” (...)

 

Recordou também dois momentos que o marcaram de modo especial, enquanto responsável pela entidade reguladora:

 

“Um ex-espião, ou suposto espião, um homem que invadiu o sistema mediático porque, ao que parece, pôs a sua actividade ao serviço de empresas privadas”, depois de ser condenado em tribunal, saiu e declarou a todos os jornalistas, à porta do tribunal: fui vítima de uma guerra de grupos de media. E o País continuou, como se nada acontecesse.

“Eu coloquei a questão na ERC, sobre se reagimos, ou não reagimos”, mas acabou por não haver resposta da instituição. “E no entanto, se calhar, ele tinha toda a razão…”

 

A segunda questão teve a ver com os incêndios de Pedrógão e a árvore descrita como sendo aquela que fora atingida por um raio, e que teria estado na origem de todo o fogo que se seguiu.

“E ninguém mais fez perguntas sobre o que é que se passou com aquela árvore, se foi realmente aquilo, quando nós todos percebemos que o caso dos incêndios foi mal gerido, do ponto de vista político, porque houve quem se preocupasse mais em gerir a informação do que em acudir às pessoas que estavam a ser vítimas da Natureza e da falta de protecção do Estado…”

 

Carlos Magno introduziu então, como proposta de reflexão aos presentes, o que chamou “uma proposta alternativa”  - que em vez de nos perdermos em discussões sobre a transferência da EMA para o Porto, ou do Infarmed, tomemos a sério o seguinte:

 

“Se o Reino Unido sair da União Europeia, dentro de dois anos, as televisões europeias, que agora são obrigadas a transmitir 50% de conteúdos europeus, deixam de poder contar com os conteúdos britânicos como conteúdos europeus. As actuais directivas impõem, a todas as televisões e a todos os media europeus, que passem 50% de produção europeia. Quando o Reino Unido sair da União Europeia, podemos continuar a consumir os Downton Abbey, essas séries magníficas que a BBC produz, ou outras que vêm dos EUA via Reino Unido, mas a verdade é que eles não passarão a fazer parte da quota europeia.”

 

“O que significa que se abre um enorme ‘buraco’ para a produção europeia, que vai ter obrigatoriamente que ser feita, para que os distribuidores de conteúdos possam cumprir a directiva europeia. Significa isto que há uma enorme oportunidade, que os espanhóis, como sempre, já estão a aproveitar. (...)  Lisboa pode ser uma bela plataforma para produção de conteúdos nesta altura, e nós não discutimos isto…”

 

A médio prazo, como disse, há uma oportunidade para “quem estiver a produzir conteúdos baratos, com qualidade e com bons actores, e com uma capacidade de exportação como temos nós, na nossa língua, que é a que mais cresce, a mais falada no Hemisfério Sul, e é uma língua que precisa de conteúdos”. (...)

 

Carlos Magno criticou a seguir, como um dos problemas da sociedade portuguesa, “o excesso de conflitualidade artificial”, de “futebolês”, que permeia “tudo o que é política, como se isto fosse um simples campeonato entre pessoas que são rivais e têm que o ser”. (...)

“O ‘futebolês’ contaminou tudo, o discurso de ódio dos grupos de futebol está a contaminar toda a sociedade portuguesa, não estamos a perceber que estamos a ficar todos bastante impacientes, e se calhar uma coisa muito simples, estamos com saudades de nós próprios.” (...)

 

Apelou a que estejamos mais atentos à “geografia da actualidade”, e que os jornalistas tenham a capacidade de “alterar a agenda mediática”, bem como a de dizer: “eu sobre esse assunto não discuto”.

 

“Nós, em Portugal, temos alguma dificuldade em dizer não. A agenda mediática vai toda à procura do mesmo buraco negro central, onde estamos todos, mas depois não há grande diferença entre a agenda dos jornais ditos tablóides e a dos jornais de referência  - e era preciso que houvesse. Era preciso que alguém dissesse: eu vou-me dedicar a outros assuntos, vou alterar a agenda mediática, e vou pôr o País a discutir outras coisas.”

 

“Dito isto, gostava que entre as elites se voltasse a discutir a agenda do jornalismo, a geografia da actualidade, e ao mesmo tempo que se pensasse em Portugal como um País que é um laboratório, sobre o qual o Prof. Félix Ribeiro escreveu, há uns anos, um livro intitulado “Portugal - A Economia de uma Nação Rebelde”. (...)  

 

“A tese central é que Portugal é um país no túnel de vento. Eu acho que a questão do túnel do vento, que serve para os engenheiros e os cientistas experimentarem os equipamentos e as dinâmicas, nos devia fazer reflectir, a todos nós, e sermos capazes também de introduzir alguma linguagem científica, quer nas ciências sociais, quer na análise política e sobretudo no comentário político.” (...)

 

“Acho que precisamos sobretudo de ter capacidade para ouvir o outro. Estamos a ficar surdos, autistas, somos incapazes de ter um debate que se prolongue por mais algum tempo do que aquele que nos permite dar dois berros e dizer - tu és um estúpido, estamos todos a ficar com o pensamento do Twitter e com as expressões próprias do Facebook  -  como dizia há dias o Embaixador Cutileiro, que se vive uma completa ‘imunidade editorial’. Ora é contra essa imunidade editorial que eu defendo o jornalismo.” (...)

 

“Nós temos um problema muito complicado: um sistema mediático que ainda é pago pelo sistema financeiro, para satisfazer os vícios de uma classe política que está incapaz de mudar de linguagem.” (...)

 

“A análise da linguagem implica que nós peguemos nas palavras principais, naquelas que aparecem nos telejornais  -  e no telejornal não aparecem mais do que dez palavras novas por semana, são sempre as mesmas, que se repetem, e a linguagem é muito contagiosa.” (...)

 

A terminar, Carlos Magno afirmou:

 

“Estar seis anos à frente da ERC permitiu ver como é que nestes seis anos o País mudou, onde nós não percebemos que houve mudanças, e está rigorosamente na mesma onde achamos que há uma grande agitação mediática. A espuma mediática é um bocadinho como a lógica do pião: quando está a andar a grande velocidade, parece que está parado, e só começamos a perceber a velocidade do pião quando ele começa a perdê-la e começa a cair… eu acho que estamos a chegar a essa fase.”

 

Mas ainda acrescentou:

 

“Sou profundamente optimista e acho que, se tivermos juízo, ainda vamos a tempo de apanhar aquilo que vão ser os ‘cacos’ do Brexit… porque vai haver, para a língua portuguesa e a produção portuguesa para o espaço europeu, uma nova oportunidade em que ninguém pensou…”

 

Connosco
Maestrina Oksana Lyniv recebeu o Prémio Helena Vaz da Silva na Fundação Gulbenkian Ver galeria

Numa cerimónia realizada no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, foi homenageada a maestrina ucraniana Oksana Lyniv, vencedora do Prémio Helena Vaz da Silva, atribuído anualmente pelo Centro Nacional de Cultura, com o apoio da Europa Nostra e do Clube Português de Imprensa.

Na cerimónia, presidida pelo Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, e sendo anfitrião Guilherme de Oliveira Martins, administrador da Fundação, a figura e a carreira de Oksana Lyniv foi apresentada pela maestrina Joana Carneiro.

Impossibilitada de se deslocar a Portugal, por motivos pessoas insuperáveis, foi o seu pai quem recebeu o prémio, em sua representação.

Recorde-se que a vencedora da décima edição do Prémio Helena Vaz da Silva concedeu, entretanto, uma entrevista ao semanário Expresso, na qual declarou que a invasão russa do seu país é uma clara tentativa de destruir uma nação, tendo sido, completamente, motivada por ódio.

Em relação à família que tem na Ucrânia, a vencedora do prémio revelou que estes querem permanecer no país, dedicando-se a acolher e ajudar várias famílias de refugiados.

Lyniv comentou, também, o papel dos artistas na guerra, descrevendo as grandes obras artísticas como “canais para comunicar algo importante”. De acordo com a maestrina, “quando olhamos [para] a história da cultura, e estudamos as obras e o contexto em que foram criadas, vemos que os grandes artistas — Michelangelo, Mozart ou Beethoven — agiram dentro de uma sociedade, por vezes uns passos à frente dela”.

No entanto, Lyniv admitiu que o papel que a arte e os artistas assumem tem vindo a ser cada vez mais explorado e usado para fins de propaganda, como é o caso do maestro russo Valery Gergiev, que se tornou “uma bandeira do regime ditatorial de Putin”.

Em relação à sua carreira profissional, Lyniv revelou que a sua decisão para se tornar maestrina foi tomada aos 18 anos, depois de descobrir que as mulheres podiam ocupar esse cargo. Após obter o seu diploma na Academia de Música de Lviv e ganhar o terceiro prémio no Concurso Gustav Mahler, em 2004, a maestrina prosseguiu a sua formação em Dresden, na Alemanha.

Lyniv acrescentou, igualmente, que “o seu primeiro cargo fixo veio da Ópera Nacional de Odessa, como maestrina assistente”, tendo também oportunidade de trabalhar na Ópera do Estado da Bavária, como assistente de Kirill Petrenko.

Apesar de ser a directora musical do Teatro Comunale di Bologna, sendo “a primeira mulher à frente de uma casa de ópera italiana”, Lyniv confessou que inclui sempre compositores ucranianos em todos os seus concertos, o que passou a constituir a sua “imagem de marca”.

Numa última reflexão acerca das mulheres na regência de orquestras, Lyniv admitiu que “já existem jovens maestrinas fantásticas” e que tudo indica que se trata de um movimento imparável.

A transformação digital dos "media" e os vários modelos utilizados Ver galeria

Os media estão, actualmente, a passar por uma transformação digital, mudança que ganhou mais balanço após a pandemia ter “acelerado a quebra da circulação e publicidade das edições impressas” e a invasão russa da Ucrânia ter “disparado os preços da tinta e do papel”.

Apesar de não existir um modelo específico para a transformação dos media, o director do Evoca Media, Pepe Cerezo, sublinhou que são essenciais três “pilares” para “estabelecer uma estratégia de negócios digitais”, nomeadamente, inovação e adaptação, diversificação, e hibridização.

Estes três elementos implicam que as fontes de receita devem ser obtidas a partir de diversas fontes (assinaturas, publicidade, lojas online), utilizando modelos que se adaptam a diferentes públicos e mercados e que respondem às necessidades e aos hábitos de consumo dos utilizadores.

O aumento da publicidade digital, uma das maiores fontes de receita, hoje em dia, tem vindo a desacelerar, devido, em parte, à mudança a que esta foi sujeita, causada pela “pelo desaparecimento dos cookies de terceiros”.

A falta de cookies de terceiros torna mais difícil aspectos como a criação de perfis de utilizadores, a sua monotorização e a adaptação às suas necessidades, implicando que as empresas devem desenvolver um “relacionamento individual com os utilizadores” para recolher esses dados.

Existe, também, a opção de utilizar “tecnologia baseada na recolha, armazenamento e análise de cookies”, que permite adaptar a publicidade aos hábitos do utilizador, baseando-se, por exemplo, no seu histórico de navegação, pesquisas, compras anteriores e links clicados. 

O Clube


Lançado em novembro de 2016, este site do Clube Português de Imprensa tem mantido, desde então, uma actividade regular, com actualizações diárias, quer sobre iniciativas próprias da Associação, quer sobre a actualidade relacionada com os media portugueses e internacionais.

O site tem sido, ainda, um fórum de debate e de reflexão sobre as questões que se colocam ao jornalismo e aos jornalistas, reunindo a opinião de vários colunistas e textos editados por instituições com as quais celebrámos parcerias, desde o Observatório de Imprensa do Brasil à Asociacion de la Prensa de Madrid ou ao jornal “A Tribuna” de Macau.

Em seis anos de presença online constante, com um crescimento assinalável de visitantes, é natural que o site deva corresponder a essa procura, reinventando-se e procedendo a uma actualização tecnológica.

Pela sua natureza, essa modernização conceptual implicará algumas modificações na frequência e rotatividade de conteúdos, já a partir de outubro. É uma transição necessária.

Continuamos a contar com o interesse e adesão dos associados, além dos muitos milhares de frequentadores deste site, que constituem um valioso incentivo para quem contribui, sem outras ambições nem dependências, para um suporte digital que é um dos principais “cartões de visita” do Clube Português de Imprensa, fundado em 1980.  

 

A Direcção


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