Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

O desgaste, a servidão ao poder e a autocensura nos Media gregos

O último relatório anual dos Repórteres sem Fronteiras atribui à Grécia o 88º lugar, em termos de liberdade de Imprensa, numa lista de 180 países. Este mau diagnóstico não é novidade, mas a demonstração de um desgaste prolongado: “Sete longos anos de crise deixaram à vista as raízes precárias dos meios de comunicação gregos, e revelaram a frágil e por vezes disfuncional estrutura das empresas, com pesos como a forte dependência do poder político (os media como correias de transmissão dos partidos).” Em 2016, a venda de jornais diários teve uma quebra de cerca de 16%. É este o início de uma avaliação assinada por María Antonia Sánchez-Vallejo, especializada sobre a Grécia no El País, e publicada na revista Cuadernos de Periodistas nº 34, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Segundo a autora, “a debilidade do sector é tal que alguns dos media fundados nos anos 90 por empresários mediáticos inopinados, no calor de uma ‘bolha’ desenvolvimentista que depressa se desfez, foram embargados ou estão à beira da ruína, especialmente no sector do audiovisual. A servidão do poder, de qualquer sinal, e o funcionamento de empresas um tanto ‘amadoras’ dominaram esta travessia do deserto que ainda não terminou”. (...) 

“Dantes privilegiada, pela poderosa representatividade do seu sindicato, boas condições laborais e baixa percentagem de desemprego, e hoje condenada ao subemprego  - quando há, com ordenados de 500 euros nos meios digitais -  a classe dos jornalistas é o perfeito reflexo de uma realidade feita em cacos a partir de 2010, ano em que foi negociado o primeiro resgate.”

“Seguir-se-iam mais dois, até desenhar um panorama em que todos os sectores da sociedade grega  - e o dos media não é precisamente uma excepção -  ficaram desvalorizados, como demonstram a perda de mais de 25% do PIB, desde essa altura, e uma quebra que chega quase aos 60% nos salários.” (...) 

María Antonia Sánchez-Vallego recorda como, “por exigências do memorando e dos seus conhecidos cortes, em Junho de 2013 o Governo de Atenas (então composto por conservadores, sociais-democratas e um pequeno partido de centro-esquerda) fechou, da noite para o dia, a radiotelevisão pública, uma entidade ‘paquidérmica’ com quase 2.700 empregados  - reaberta dois anos depois pelo Governo do Syriza, em cumprimento das suas promessas eleitorais”. (...) 

“A uma maior precariedade de suportes e receitas sucedeu, como é evidente, uma menor pluralidade de Informação, uma maior concentração dos meios sobreviventes e uma notável (auto) censura, com escandalosos episódios políticos, administrativos ou judiciais contra alguns informadores. A narrativa da crise, isto é, a articulação de um discurso pró-troika ou anti-austeridade, segundo os casos (em suma, direita contra esquerda), não foi alheia à decantação dos media (e dos seus consumidores) e à tímida reorganização de alguns deles no infinito umbral de possibilidades da Rede.” (...) 

“A agonia de títulos como Eleutheros Typos (de centro-direita) ou Eleutherotypia (de centro-esquerda) prolongou-se durante anos, com suspensão de pagamento aos seus trabalhadores, até que ambos se viram obrigados a fechar. Da equipa do Eleutherotypia saiu há dois anos o Efimerida ton Syntakton (Diário dos redactores), um colectivo experimental em regime de cooperativa que, de momento, goza de alguma saúde, tanto na sua edição impressa como na digital, embora os críticos vejam nisso a mão oculta do Governo (o diário H Afyí, órgão do Syriza, continua aberto, apesar de vender apenas 4.000 exemplares, recordam os críticos).” (...)

  

O artigo de María Antónia Sánchez-Vallejo, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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