Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

O desgaste, a servidão ao poder e a autocensura nos Media gregos

O último relatório anual dos Repórteres sem Fronteiras atribui à Grécia o 88º lugar, em termos de liberdade de Imprensa, numa lista de 180 países. Este mau diagnóstico não é novidade, mas a demonstração de um desgaste prolongado: “Sete longos anos de crise deixaram à vista as raízes precárias dos meios de comunicação gregos, e revelaram a frágil e por vezes disfuncional estrutura das empresas, com pesos como a forte dependência do poder político (os media como correias de transmissão dos partidos).” Em 2016, a venda de jornais diários teve uma quebra de cerca de 16%. É este o início de uma avaliação assinada por María Antonia Sánchez-Vallejo, especializada sobre a Grécia no El País, e publicada na revista Cuadernos de Periodistas nº 34, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Segundo a autora, “a debilidade do sector é tal que alguns dos media fundados nos anos 90 por empresários mediáticos inopinados, no calor de uma ‘bolha’ desenvolvimentista que depressa se desfez, foram embargados ou estão à beira da ruína, especialmente no sector do audiovisual. A servidão do poder, de qualquer sinal, e o funcionamento de empresas um tanto ‘amadoras’ dominaram esta travessia do deserto que ainda não terminou”. (...) 

“Dantes privilegiada, pela poderosa representatividade do seu sindicato, boas condições laborais e baixa percentagem de desemprego, e hoje condenada ao subemprego  - quando há, com ordenados de 500 euros nos meios digitais -  a classe dos jornalistas é o perfeito reflexo de uma realidade feita em cacos a partir de 2010, ano em que foi negociado o primeiro resgate.”

“Seguir-se-iam mais dois, até desenhar um panorama em que todos os sectores da sociedade grega  - e o dos media não é precisamente uma excepção -  ficaram desvalorizados, como demonstram a perda de mais de 25% do PIB, desde essa altura, e uma quebra que chega quase aos 60% nos salários.” (...) 

María Antonia Sánchez-Vallego recorda como, “por exigências do memorando e dos seus conhecidos cortes, em Junho de 2013 o Governo de Atenas (então composto por conservadores, sociais-democratas e um pequeno partido de centro-esquerda) fechou, da noite para o dia, a radiotelevisão pública, uma entidade ‘paquidérmica’ com quase 2.700 empregados  - reaberta dois anos depois pelo Governo do Syriza, em cumprimento das suas promessas eleitorais”. (...) 

“A uma maior precariedade de suportes e receitas sucedeu, como é evidente, uma menor pluralidade de Informação, uma maior concentração dos meios sobreviventes e uma notável (auto) censura, com escandalosos episódios políticos, administrativos ou judiciais contra alguns informadores. A narrativa da crise, isto é, a articulação de um discurso pró-troika ou anti-austeridade, segundo os casos (em suma, direita contra esquerda), não foi alheia à decantação dos media (e dos seus consumidores) e à tímida reorganização de alguns deles no infinito umbral de possibilidades da Rede.” (...) 

“A agonia de títulos como Eleutheros Typos (de centro-direita) ou Eleutherotypia (de centro-esquerda) prolongou-se durante anos, com suspensão de pagamento aos seus trabalhadores, até que ambos se viram obrigados a fechar. Da equipa do Eleutherotypia saiu há dois anos o Efimerida ton Syntakton (Diário dos redactores), um colectivo experimental em regime de cooperativa que, de momento, goza de alguma saúde, tanto na sua edição impressa como na digital, embora os críticos vejam nisso a mão oculta do Governo (o diário H Afyí, órgão do Syriza, continua aberto, apesar de vender apenas 4.000 exemplares, recordam os críticos).” (...)

  

O artigo de María Antónia Sánchez-Vallejo, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

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Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
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"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...