null, 26 de Maio, 2019
Media

O desgaste, a servidão ao poder e a autocensura nos Media gregos

O último relatório anual dos Repórteres sem Fronteiras atribui à Grécia o 88º lugar, em termos de liberdade de Imprensa, numa lista de 180 países. Este mau diagnóstico não é novidade, mas a demonstração de um desgaste prolongado: “Sete longos anos de crise deixaram à vista as raízes precárias dos meios de comunicação gregos, e revelaram a frágil e por vezes disfuncional estrutura das empresas, com pesos como a forte dependência do poder político (os media como correias de transmissão dos partidos).” Em 2016, a venda de jornais diários teve uma quebra de cerca de 16%. É este o início de uma avaliação assinada por María Antonia Sánchez-Vallejo, especializada sobre a Grécia no El País, e publicada na revista Cuadernos de Periodistas nº 34, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Segundo a autora, “a debilidade do sector é tal que alguns dos media fundados nos anos 90 por empresários mediáticos inopinados, no calor de uma ‘bolha’ desenvolvimentista que depressa se desfez, foram embargados ou estão à beira da ruína, especialmente no sector do audiovisual. A servidão do poder, de qualquer sinal, e o funcionamento de empresas um tanto ‘amadoras’ dominaram esta travessia do deserto que ainda não terminou”. (...) 

“Dantes privilegiada, pela poderosa representatividade do seu sindicato, boas condições laborais e baixa percentagem de desemprego, e hoje condenada ao subemprego  - quando há, com ordenados de 500 euros nos meios digitais -  a classe dos jornalistas é o perfeito reflexo de uma realidade feita em cacos a partir de 2010, ano em que foi negociado o primeiro resgate.”

“Seguir-se-iam mais dois, até desenhar um panorama em que todos os sectores da sociedade grega  - e o dos media não é precisamente uma excepção -  ficaram desvalorizados, como demonstram a perda de mais de 25% do PIB, desde essa altura, e uma quebra que chega quase aos 60% nos salários.” (...) 

María Antonia Sánchez-Vallego recorda como, “por exigências do memorando e dos seus conhecidos cortes, em Junho de 2013 o Governo de Atenas (então composto por conservadores, sociais-democratas e um pequeno partido de centro-esquerda) fechou, da noite para o dia, a radiotelevisão pública, uma entidade ‘paquidérmica’ com quase 2.700 empregados  - reaberta dois anos depois pelo Governo do Syriza, em cumprimento das suas promessas eleitorais”. (...) 

“A uma maior precariedade de suportes e receitas sucedeu, como é evidente, uma menor pluralidade de Informação, uma maior concentração dos meios sobreviventes e uma notável (auto) censura, com escandalosos episódios políticos, administrativos ou judiciais contra alguns informadores. A narrativa da crise, isto é, a articulação de um discurso pró-troika ou anti-austeridade, segundo os casos (em suma, direita contra esquerda), não foi alheia à decantação dos media (e dos seus consumidores) e à tímida reorganização de alguns deles no infinito umbral de possibilidades da Rede.” (...) 

“A agonia de títulos como Eleutheros Typos (de centro-direita) ou Eleutherotypia (de centro-esquerda) prolongou-se durante anos, com suspensão de pagamento aos seus trabalhadores, até que ambos se viram obrigados a fechar. Da equipa do Eleutherotypia saiu há dois anos o Efimerida ton Syntakton (Diário dos redactores), um colectivo experimental em regime de cooperativa que, de momento, goza de alguma saúde, tanto na sua edição impressa como na digital, embora os críticos vejam nisso a mão oculta do Governo (o diário H Afyí, órgão do Syriza, continua aberto, apesar de vender apenas 4.000 exemplares, recordam os críticos).” (...)

  

O artigo de María Antónia Sánchez-Vallejo, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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