Quarta-feira, 22 de Agosto, 2018
Media

Primeira experiência de jornais digitais em Portugal fez agora 20 anos

O primeiro órgão de comunicação social exclusivamente online à partida, em Portugal, nasceu há exactamente 20 anos; chamava-se então Canal de Negócios. A edição impressa apareceu dois meses depois, em Janeiro de 1998, e ainda como semanário. “O Negócios nasce como um site que tem um jornal”  -  conta Pedro Santos Guerreiro, um dos fundadores. “Foi o primeiro em Portugal, e julgo que o único até hoje, que fez este percurso.” Três grandes diários generalistas (Jornal de Notícias, Público, Diário de Notícias) lançaram as suas edições online ao longo de 1995, o semanário Expresso em 1997 e o Correio da Manhã no ano seguinte. Em Julho de 1999 apareceu o Diário Digital, publicação exclusivamente online.

Esta cronologia, que aqui citamos do Jornal de Negócios, foi compilada por Hélder Bastos, professor da Universidade do Porto, no livro publicado em 2011:
"Da implementação à estagnação: os primeiros doze anos de ciberjornalismo em Portugal".

Olhando para trás, “os media portugueses foram-se adaptando, como puderam, à era digital, que sempre andou muito mais depressa do que eles nas duas últimas décadas”, disse ao Negócios Hélder Bastos, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. “Em geral, a adaptação foi lenta e inadequada em termos de meios (sobretudo humanos e financeiros), de conteúdos e de linguagens”, acrescentou.


“No final de 1996, data em que também nasceu a TSF Online, "o mercado de trabalho na área dos novos media era ainda muito incipiente. A maior parte dos diários nem sequer tinha jornalistas a tempo inteiro nas suas edições electrónicas”, relembra o professor no mesmo livro. 

“O virar do milénio foi marcado por uma fase de euforia, com os grupos de media a mergulharem praticamente todos os títulos de informação na Internet, mas também a lançarem novas ofertas digitais. O Diário Digital, lançado em Julho de 1999, é um dos exemplos”. 

Esteve online durante 17 anos. Como conta o seu fundador, Luís Delgado, “os primeiros dez a doze anos correram muito bem mas, a partir do momento em que os grandes grupos de media começaram a apostar no online, começou a haver dificuldades”, nomeadamente na distribuição das receitas publicitárias. “O bolo começou a ser dividido por muitos.” (...) 

“Com o foco no online, as vendas dos jornais foram caindo. As receitas publicitárias digitais não eram suficientes para sustentar todos os projectos que foram nascendo, o que levou a que, a partir do ano 2000, as empresas começassem a reduzir o número de trabalhadores e, em alguns casos, a fechar.” (...) 

Nestes seus 20 anos de vida, o Jornal de Negócios conheceu sete directores: o primeiro foi José Diogo Madeira, até Março de 2000, depois Rui Borges durante um ano e meio e, até Outubro de 2002, novamente José Diogo Madeira. O jornal passou então para a direcção de Sérgio Figueiredo, até Fevereiro de 2007, e a partir desta data para Pedro Santos Guerreiro. Em 2013 foi Helena Garrido a assumir essa função, e Raul Vaz a partir de 2016, sendo substituído em Novembro de 2017 por André Veríssimo.

 

Mais informação no artigo citado, do Jornal de Negócios, cujos fundadores contam também a história em vídeo

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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