Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Estudo

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada...

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

A obra é de dois docentes de ciência política, Brigitte Le Grignou e Erik Neveu, e vai ser apresentada numa próxima “Quinta-feira do Acrimed”, a de 7 de Dezembro. O texto que citamos, do site deste Observatório dos Media em França, recolhe estractos de dois parágrafos que servem para “abrir o apetite” aos estudiosos ou leitores mais interessados por esta temática. 

“Se o tempo passado diante do televisor vai baixando ligeiramente desde a década de 2010, este meio de comunicação, descrito como estando em fase terminal, mobiliza ainda, em média, cerca de quatro horas de atenção por dia, em França  - sem falar da televisão vista noutros ecrãs. Um belo boletim de saúde para uma moribunda!” (...) 

Quando se diz que “toda a gente fala dela”, trata-se em primeiro lugar dos profissionais da televisão, que naturalmente fazem ouvir a sua voz, e cujas contribuições “oferecem uma versão pouco crítica, muitas vezes encantada ou heróica, do seu trabalho”. É o caso do “papel central dos jornalistas políticos em tempo de campanha, onde a eleição ‘se faz’ nos estúdios”. (...)

“Desde a sua aparição nos lares americanos, nos anos de 1950, a televisão foi objecto de uma quantidade de discursos proféticos, promocionais ou de denúncia, sobre os seus supostos benefícios para a harmonia familiar ou os seus perigos para a saúde.” (...) 

Houve, mais tarde, livros inteiros sobre a sua influência nefasta para a democracia e a reflexão, por vezes com regresso a raciocínios pobres, usando analogias vagas, como a do “sistema romano do pão e circo”, ou a “redução a comportamentos reflexos dos nossos aparelhos cerebrais e dos nossos sistemas nervosos esgotados”. (...) 

O texto de apresentação deste livro, que citamos do Acrimed, conclui: 

“Nota-se deste modo que os intelectuais dos media, ocupantes quase permanentes dos estúdios de televisão, são pouco críticos  - a menos que seja para se queixarem de já não serem mais vezes convidados -  de um meio que é a condição da sua existência. Os discursos de denúncia encontram, assim, mais reflexo na Imprensa escrita, nos debates radiofónicos, ou em redes intelectuais ligadas ao mundo da escola, onde se defende uma ‘televisão pedagógica’ contra a da estupidez ou da vulgaridade.” (...) 

 

O texto na íntegra, no site de Acrimed, que publica também uma recensão mais desenvolvida do livro apresentado

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

ver mais >
Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...