Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada...

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

A obra é de dois docentes de ciência política, Brigitte Le Grignou e Erik Neveu, e vai ser apresentada numa próxima “Quinta-feira do Acrimed”, a de 7 de Dezembro. O texto que citamos, do site deste Observatório dos Media em França, recolhe estractos de dois parágrafos que servem para “abrir o apetite” aos estudiosos ou leitores mais interessados por esta temática. 

“Se o tempo passado diante do televisor vai baixando ligeiramente desde a década de 2010, este meio de comunicação, descrito como estando em fase terminal, mobiliza ainda, em média, cerca de quatro horas de atenção por dia, em França  - sem falar da televisão vista noutros ecrãs. Um belo boletim de saúde para uma moribunda!” (...) 

Quando se diz que “toda a gente fala dela”, trata-se em primeiro lugar dos profissionais da televisão, que naturalmente fazem ouvir a sua voz, e cujas contribuições “oferecem uma versão pouco crítica, muitas vezes encantada ou heróica, do seu trabalho”. É o caso do “papel central dos jornalistas políticos em tempo de campanha, onde a eleição ‘se faz’ nos estúdios”. (...)

“Desde a sua aparição nos lares americanos, nos anos de 1950, a televisão foi objecto de uma quantidade de discursos proféticos, promocionais ou de denúncia, sobre os seus supostos benefícios para a harmonia familiar ou os seus perigos para a saúde.” (...) 

Houve, mais tarde, livros inteiros sobre a sua influência nefasta para a democracia e a reflexão, por vezes com regresso a raciocínios pobres, usando analogias vagas, como a do “sistema romano do pão e circo”, ou a “redução a comportamentos reflexos dos nossos aparelhos cerebrais e dos nossos sistemas nervosos esgotados”. (...) 

O texto de apresentação deste livro, que citamos do Acrimed, conclui: 

“Nota-se deste modo que os intelectuais dos media, ocupantes quase permanentes dos estúdios de televisão, são pouco críticos  - a menos que seja para se queixarem de já não serem mais vezes convidados -  de um meio que é a condição da sua existência. Os discursos de denúncia encontram, assim, mais reflexo na Imprensa escrita, nos debates radiofónicos, ou em redes intelectuais ligadas ao mundo da escola, onde se defende uma ‘televisão pedagógica’ contra a da estupidez ou da vulgaridade.” (...) 

 

O texto na íntegra, no site de Acrimed, que publica também uma recensão mais desenvolvida do livro apresentado

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...