Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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Debate sobre jornalismo como pesquisa da verdade numa guerra de narrativas

O tema das fronteiras entre jornalismo e activismo remete para “uma questão sempre perturbadora, a da verdade. O jornalista ainda pode ter a ambição de contar a verdade? Ou tem que se assumir como um soldado na guerra de narrativas?” Este ponto sensível acabou por ser um dos que dominaram os debates mais vivos no Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, que reuniu nos dias 11 e 12 de Novembro, no Rio de Janeiro, dezenas de jornalistas, articulistas, podcasters, gestores e directores de sites inovadores. Deste encontro não saíram soluções, muito menos receitas, mas foram identificados os problemas e discutidas as escolhas possíveis. Citamos a reportagem, da Agência Pública, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A mesa-redonda da noite de sábado 11 foi um desses momentos de perguntas difíceis e respostas insatisfatórias. 

O jornalista Pedro Dória, editor da newsletter Meio, criticou o activismo, declarando que o jornalista que escolhe esse caminho “torna-se um actor político, actuando politicamente em nome de algum objectivo” e, numa sociedade polarizada como a brasileira, “não convence ninguém; jornalismo activista alimenta a polarização”. 

Dríade Aguiar, do colectivo Fora do Eixo, declarou “tecnicamente impossível que um veículo seja imparcial; todo jornal tem uma parcialidade.” Para ela, o papel do Mídia Ninja é dar visibilidade a pessoas que, na cobertura da imprensa tradicional, são invisíveis. 

Cecília Oliveira, do The Intercept Brasil, concordou: “Todos somos jornalistas activistas. A pergunta é: de que lado você está? Se você está em silêncio, você tem um lado também.” 

O actor e humorista Gregório Duvivier admitiu que não acredita no ‘mito da imparcialidade’: “Mas tenho medo que a gente jogue fora o bebé junto com a água da bacia. E, junto com esse mito, a gente jogue fora fact-checking, jogue fora os factos.” (...) 

Sobre a polarização do debate público, na sessão de encerramento, Pablo Ortellado, que dirige o Monitor do Debate Político no Meio Digital, explicou que o Facebook é, no Brasil, a segunda fonte de informação jornalística, atrás apenas da televisão.  

Segundo ele, há 5 milhões de utentes de esquerda e 7 milhões de direita  – entre os 120 milhões de brasileiros na plataforma –  que postam e compartilham conteúdo como se estivessem numa batalha política. “É ‘Toma, coxinha’, ‘Toma, petralha’. As pessoas compartilham isso como um acto de guerra.” (...) 

“Projectos inovadores foram também apresentados em palestras do tipo Lightning Talks, um formato inspirado nas conferências TED. No palco, seis sites latino-americanos e dez brasileiros – estes, eleitos pelo público. O espanhol José Luis Vieiras, do En Malos Pasos, contou que vem viajando por dois anos pelos sete países mais violentos da América Latina para fazer reportagens. Estão na sua rota Brasil, Venezuela, Colômbia, Honduras, El Salvador, Guatemala e México. “Na América Latina  - disse -  não contamos histórias, contamos mortos.” (...) 

“Foi a primeira vez que oito organizações nativas digitais  - Agência Pública, Nexo, Ponte, Lupa, Brio, Repórter Brasil, Nova Escola e Jota -  se uniram ao Google News Lab para fazer um festival a fim de discutir questões que rondam quem está montando novas iniciativas jornalísticas.” 

As grandes plataformas tiveram representantes seus explicando os procedimentos adoptados para o combate às falsas informações. Cláudia Gurfinkel, líder de parcerias de media para a América Latina no Facebook e Instagram, e Marco Túlio, do Google News Lab, falaram de situações concretas e de soluções novas para estes problemas. 

Mas Sérgio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comité Gestor da Internet, criticou o poder das duas plataformas:

“Concentração não é bom para a democracia em nenhum lugar do mundo”, alertou. “Para ‘melhorar nossa experiência’, o algoritmo quer retirar o inesperado, o incómodo, o oposto. Algoritmos não são neutros”, disse. 

“Como é que a democracia pode sobreviver, sendo que antes a gente lutava pela liberdade de opinião e expressão, e agora temos que lutar pela liberdade de visualização? Eu tenho que escolher o que eu quero ver!” 

E Sérgio Amadeu resumiu a sua visão sob aplausos:

“O debate público está acontecendo dentro de uma empresa privada e tem mais visualização quem paga. Precisamos de ter o direito de visualizar livremente informações de interesse público dentro da plataforma”. (...) 

 

A reportagem na íntegra, no Observatório da Imprensa, contendo os links de vídeo para vários destes debates e mesas-redondas

Connosco
Quando os repórteres são os heróis que nos fazem falta Ver galeria

Parece excessivo declarar que os repórteres são os heróis do nosso tempo, como vem no título do texto que aqui citamos. Quem o diz não é um jornalista, mas um historiador. E explica porquê, e de que repórteres está a falar. Trata-se daqueles que assumem riscos e perdem a vida para investigar a verdade do que sucede à nossa volta  - e esse tipo de reportagem de investigação “é um pedacinho microscópico dessa coisa a que chamamos media”.

Os repórteres que “correm riscos pela verdade” fazem-no por todos nós, incluindo pelos soldados que vamos ou não enviar para a frente de batalha. O único modo de avaliarmos as guerras em que nos envolvemos é tendo repórteres “com a coragem e a capacidade de irem lá fazer reportagem”. Esta reflexão é do historiador norte-americano Timothy Snyder, que citamos da Global Investigative Journalism Network.

O jornalismo com mais “clics” pode não ser o mais lido Ver galeria

Pode acontecer que o melhor jornalismo nem seja o que é mais lido. Não gostamos de ouvir esta notícia, mas foi disto e de outras coisas parecidas que se falou no XXI Laboratorio de Periodismo da APM, o debate periódico sobre temas de actualidade que, na sua edição de Abril de 2017, teve por tema “O que lêem e o que não lêem os leitores”. O encontro decorreu na sede da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  e foi moderado por Nemésio Rodríguez, vice-presidente da APM e actual presidente da FAPE – Federación de las Asociaciones de Periodistas de España.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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No passado dia 14 de março, Maria Joana Raposo Marques Vidal foi falar ao Grémio Literário no ciclo que ali decorre sob o tema: "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. Na sua longa  intervenção  falou  do Ministério Público e de Justiça e ajudou os leigos na matéria - como...
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24
Abr
Social Media Week New York 2018
09:00 @ Sheraton Times Square, Nova Iorque
24
Abr
Social Media Strategies Summit Chicago 2018
22:00 @ Union League Club, Chicago
25
Abr
8º Congresso Nacional de "Periodismo Autónomo y Freelance: ‘La revolución audiovisual’"
09:00 @ Sala de Conferências da Faculdade de Ciências de Informação, Universidade de Madrid
28
Abr
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa