Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
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Debate sobre jornalismo como pesquisa da verdade numa guerra de narrativas

O tema das fronteiras entre jornalismo e activismo remete para “uma questão sempre perturbadora, a da verdade. O jornalista ainda pode ter a ambição de contar a verdade? Ou tem que se assumir como um soldado na guerra de narrativas?” Este ponto sensível acabou por ser um dos que dominaram os debates mais vivos no Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, que reuniu nos dias 11 e 12 de Novembro, no Rio de Janeiro, dezenas de jornalistas, articulistas, podcasters, gestores e directores de sites inovadores. Deste encontro não saíram soluções, muito menos receitas, mas foram identificados os problemas e discutidas as escolhas possíveis. Citamos a reportagem, da Agência Pública, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A mesa-redonda da noite de sábado 11 foi um desses momentos de perguntas difíceis e respostas insatisfatórias. 

O jornalista Pedro Dória, editor da newsletter Meio, criticou o activismo, declarando que o jornalista que escolhe esse caminho “torna-se um actor político, actuando politicamente em nome de algum objectivo” e, numa sociedade polarizada como a brasileira, “não convence ninguém; jornalismo activista alimenta a polarização”. 

Dríade Aguiar, do colectivo Fora do Eixo, declarou “tecnicamente impossível que um veículo seja imparcial; todo jornal tem uma parcialidade.” Para ela, o papel do Mídia Ninja é dar visibilidade a pessoas que, na cobertura da imprensa tradicional, são invisíveis. 

Cecília Oliveira, do The Intercept Brasil, concordou: “Todos somos jornalistas activistas. A pergunta é: de que lado você está? Se você está em silêncio, você tem um lado também.” 

O actor e humorista Gregório Duvivier admitiu que não acredita no ‘mito da imparcialidade’: “Mas tenho medo que a gente jogue fora o bebé junto com a água da bacia. E, junto com esse mito, a gente jogue fora fact-checking, jogue fora os factos.” (...) 

Sobre a polarização do debate público, na sessão de encerramento, Pablo Ortellado, que dirige o Monitor do Debate Político no Meio Digital, explicou que o Facebook é, no Brasil, a segunda fonte de informação jornalística, atrás apenas da televisão.  

Segundo ele, há 5 milhões de utentes de esquerda e 7 milhões de direita  – entre os 120 milhões de brasileiros na plataforma –  que postam e compartilham conteúdo como se estivessem numa batalha política. “É ‘Toma, coxinha’, ‘Toma, petralha’. As pessoas compartilham isso como um acto de guerra.” (...) 

“Projectos inovadores foram também apresentados em palestras do tipo Lightning Talks, um formato inspirado nas conferências TED. No palco, seis sites latino-americanos e dez brasileiros – estes, eleitos pelo público. O espanhol José Luis Vieiras, do En Malos Pasos, contou que vem viajando por dois anos pelos sete países mais violentos da América Latina para fazer reportagens. Estão na sua rota Brasil, Venezuela, Colômbia, Honduras, El Salvador, Guatemala e México. “Na América Latina  - disse -  não contamos histórias, contamos mortos.” (...) 

“Foi a primeira vez que oito organizações nativas digitais  - Agência Pública, Nexo, Ponte, Lupa, Brio, Repórter Brasil, Nova Escola e Jota -  se uniram ao Google News Lab para fazer um festival a fim de discutir questões que rondam quem está montando novas iniciativas jornalísticas.” 

As grandes plataformas tiveram representantes seus explicando os procedimentos adoptados para o combate às falsas informações. Cláudia Gurfinkel, líder de parcerias de media para a América Latina no Facebook e Instagram, e Marco Túlio, do Google News Lab, falaram de situações concretas e de soluções novas para estes problemas. 

Mas Sérgio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comité Gestor da Internet, criticou o poder das duas plataformas:

“Concentração não é bom para a democracia em nenhum lugar do mundo”, alertou. “Para ‘melhorar nossa experiência’, o algoritmo quer retirar o inesperado, o incómodo, o oposto. Algoritmos não são neutros”, disse. 

“Como é que a democracia pode sobreviver, sendo que antes a gente lutava pela liberdade de opinião e expressão, e agora temos que lutar pela liberdade de visualização? Eu tenho que escolher o que eu quero ver!” 

E Sérgio Amadeu resumiu a sua visão sob aplausos:

“O debate público está acontecendo dentro de uma empresa privada e tem mais visualização quem paga. Precisamos de ter o direito de visualizar livremente informações de interesse público dentro da plataforma”. (...) 

 

A reportagem na íntegra, no Observatório da Imprensa, contendo os links de vídeo para vários destes debates e mesas-redondas

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémio de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.

Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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