Sábado, 25 de Maio, 2019
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Debate sobre jornalismo como pesquisa da verdade numa guerra de narrativas

O tema das fronteiras entre jornalismo e activismo remete para “uma questão sempre perturbadora, a da verdade. O jornalista ainda pode ter a ambição de contar a verdade? Ou tem que se assumir como um soldado na guerra de narrativas?” Este ponto sensível acabou por ser um dos que dominaram os debates mais vivos no Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, que reuniu nos dias 11 e 12 de Novembro, no Rio de Janeiro, dezenas de jornalistas, articulistas, podcasters, gestores e directores de sites inovadores. Deste encontro não saíram soluções, muito menos receitas, mas foram identificados os problemas e discutidas as escolhas possíveis. Citamos a reportagem, da Agência Pública, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A mesa-redonda da noite de sábado 11 foi um desses momentos de perguntas difíceis e respostas insatisfatórias. 

O jornalista Pedro Dória, editor da newsletter Meio, criticou o activismo, declarando que o jornalista que escolhe esse caminho “torna-se um actor político, actuando politicamente em nome de algum objectivo” e, numa sociedade polarizada como a brasileira, “não convence ninguém; jornalismo activista alimenta a polarização”. 

Dríade Aguiar, do colectivo Fora do Eixo, declarou “tecnicamente impossível que um veículo seja imparcial; todo jornal tem uma parcialidade.” Para ela, o papel do Mídia Ninja é dar visibilidade a pessoas que, na cobertura da imprensa tradicional, são invisíveis. 

Cecília Oliveira, do The Intercept Brasil, concordou: “Todos somos jornalistas activistas. A pergunta é: de que lado você está? Se você está em silêncio, você tem um lado também.” 

O actor e humorista Gregório Duvivier admitiu que não acredita no ‘mito da imparcialidade’: “Mas tenho medo que a gente jogue fora o bebé junto com a água da bacia. E, junto com esse mito, a gente jogue fora fact-checking, jogue fora os factos.” (...) 

Sobre a polarização do debate público, na sessão de encerramento, Pablo Ortellado, que dirige o Monitor do Debate Político no Meio Digital, explicou que o Facebook é, no Brasil, a segunda fonte de informação jornalística, atrás apenas da televisão.  

Segundo ele, há 5 milhões de utentes de esquerda e 7 milhões de direita  – entre os 120 milhões de brasileiros na plataforma –  que postam e compartilham conteúdo como se estivessem numa batalha política. “É ‘Toma, coxinha’, ‘Toma, petralha’. As pessoas compartilham isso como um acto de guerra.” (...) 

“Projectos inovadores foram também apresentados em palestras do tipo Lightning Talks, um formato inspirado nas conferências TED. No palco, seis sites latino-americanos e dez brasileiros – estes, eleitos pelo público. O espanhol José Luis Vieiras, do En Malos Pasos, contou que vem viajando por dois anos pelos sete países mais violentos da América Latina para fazer reportagens. Estão na sua rota Brasil, Venezuela, Colômbia, Honduras, El Salvador, Guatemala e México. “Na América Latina  - disse -  não contamos histórias, contamos mortos.” (...) 

“Foi a primeira vez que oito organizações nativas digitais  - Agência Pública, Nexo, Ponte, Lupa, Brio, Repórter Brasil, Nova Escola e Jota -  se uniram ao Google News Lab para fazer um festival a fim de discutir questões que rondam quem está montando novas iniciativas jornalísticas.” 

As grandes plataformas tiveram representantes seus explicando os procedimentos adoptados para o combate às falsas informações. Cláudia Gurfinkel, líder de parcerias de media para a América Latina no Facebook e Instagram, e Marco Túlio, do Google News Lab, falaram de situações concretas e de soluções novas para estes problemas. 

Mas Sérgio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comité Gestor da Internet, criticou o poder das duas plataformas:

“Concentração não é bom para a democracia em nenhum lugar do mundo”, alertou. “Para ‘melhorar nossa experiência’, o algoritmo quer retirar o inesperado, o incómodo, o oposto. Algoritmos não são neutros”, disse. 

“Como é que a democracia pode sobreviver, sendo que antes a gente lutava pela liberdade de opinião e expressão, e agora temos que lutar pela liberdade de visualização? Eu tenho que escolher o que eu quero ver!” 

E Sérgio Amadeu resumiu a sua visão sob aplausos:

“O debate público está acontecendo dentro de uma empresa privada e tem mais visualização quem paga. Precisamos de ter o direito de visualizar livremente informações de interesse público dentro da plataforma”. (...) 

 

A reportagem na íntegra, no Observatório da Imprensa, contendo os links de vídeo para vários destes debates e mesas-redondas

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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