Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
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Debate sobre jornalismo como pesquisa da verdade numa guerra de narrativas

O tema das fronteiras entre jornalismo e activismo remete para “uma questão sempre perturbadora, a da verdade. O jornalista ainda pode ter a ambição de contar a verdade? Ou tem que se assumir como um soldado na guerra de narrativas?” Este ponto sensível acabou por ser um dos que dominaram os debates mais vivos no Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, que reuniu nos dias 11 e 12 de Novembro, no Rio de Janeiro, dezenas de jornalistas, articulistas, podcasters, gestores e directores de sites inovadores. Deste encontro não saíram soluções, muito menos receitas, mas foram identificados os problemas e discutidas as escolhas possíveis. Citamos a reportagem, da Agência Pública, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A mesa-redonda da noite de sábado 11 foi um desses momentos de perguntas difíceis e respostas insatisfatórias. 

O jornalista Pedro Dória, editor da newsletter Meio, criticou o activismo, declarando que o jornalista que escolhe esse caminho “torna-se um actor político, actuando politicamente em nome de algum objectivo” e, numa sociedade polarizada como a brasileira, “não convence ninguém; jornalismo activista alimenta a polarização”. 

Dríade Aguiar, do colectivo Fora do Eixo, declarou “tecnicamente impossível que um veículo seja imparcial; todo jornal tem uma parcialidade.” Para ela, o papel do Mídia Ninja é dar visibilidade a pessoas que, na cobertura da imprensa tradicional, são invisíveis. 

Cecília Oliveira, do The Intercept Brasil, concordou: “Todos somos jornalistas activistas. A pergunta é: de que lado você está? Se você está em silêncio, você tem um lado também.” 

O actor e humorista Gregório Duvivier admitiu que não acredita no ‘mito da imparcialidade’: “Mas tenho medo que a gente jogue fora o bebé junto com a água da bacia. E, junto com esse mito, a gente jogue fora fact-checking, jogue fora os factos.” (...) 

Sobre a polarização do debate público, na sessão de encerramento, Pablo Ortellado, que dirige o Monitor do Debate Político no Meio Digital, explicou que o Facebook é, no Brasil, a segunda fonte de informação jornalística, atrás apenas da televisão.  

Segundo ele, há 5 milhões de utentes de esquerda e 7 milhões de direita  – entre os 120 milhões de brasileiros na plataforma –  que postam e compartilham conteúdo como se estivessem numa batalha política. “É ‘Toma, coxinha’, ‘Toma, petralha’. As pessoas compartilham isso como um acto de guerra.” (...) 

“Projectos inovadores foram também apresentados em palestras do tipo Lightning Talks, um formato inspirado nas conferências TED. No palco, seis sites latino-americanos e dez brasileiros – estes, eleitos pelo público. O espanhol José Luis Vieiras, do En Malos Pasos, contou que vem viajando por dois anos pelos sete países mais violentos da América Latina para fazer reportagens. Estão na sua rota Brasil, Venezuela, Colômbia, Honduras, El Salvador, Guatemala e México. “Na América Latina  - disse -  não contamos histórias, contamos mortos.” (...) 

“Foi a primeira vez que oito organizações nativas digitais  - Agência Pública, Nexo, Ponte, Lupa, Brio, Repórter Brasil, Nova Escola e Jota -  se uniram ao Google News Lab para fazer um festival a fim de discutir questões que rondam quem está montando novas iniciativas jornalísticas.” 

As grandes plataformas tiveram representantes seus explicando os procedimentos adoptados para o combate às falsas informações. Cláudia Gurfinkel, líder de parcerias de media para a América Latina no Facebook e Instagram, e Marco Túlio, do Google News Lab, falaram de situações concretas e de soluções novas para estes problemas. 

Mas Sérgio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comité Gestor da Internet, criticou o poder das duas plataformas:

“Concentração não é bom para a democracia em nenhum lugar do mundo”, alertou. “Para ‘melhorar nossa experiência’, o algoritmo quer retirar o inesperado, o incómodo, o oposto. Algoritmos não são neutros”, disse. 

“Como é que a democracia pode sobreviver, sendo que antes a gente lutava pela liberdade de opinião e expressão, e agora temos que lutar pela liberdade de visualização? Eu tenho que escolher o que eu quero ver!” 

E Sérgio Amadeu resumiu a sua visão sob aplausos:

“O debate público está acontecendo dentro de uma empresa privada e tem mais visualização quem paga. Precisamos de ter o direito de visualizar livremente informações de interesse público dentro da plataforma”. (...) 

 

A reportagem na íntegra, no Observatório da Imprensa, contendo os links de vídeo para vários destes debates e mesas-redondas

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...