Sábado, 25 de Maio, 2019
Estudo

Dinheiro do Facebook cria dependências às empresas jornalísticas

O Facebook ganhou, e as empresas noticiosas francesas tornaram-se “triplamente dependentes: de expandirem a sua audiência de graça, do uso das ferramentas de produção e distribuição daquela rede social, e de ganharem um rendimento adicional”. Mas vem aí a “ressaca”. O Facebook vai cobrar às empresas que ficaram mais “agarradas” aos likes e ao tráfego que gerou para os seus sites. “Todos os dias, as equipas editoriais estão a trabalhar em força para produzirem conteúdos especificamente destinados àquela plataforma.” A reflexão é de Nicolas Becquet, num estudo publicado no European Journalism Observatory.

Como explica o autor, tudo começou de modo inocente, com a procura dos likes, mas o dealer das audiências soube fazer o seu trabalho. Aos poucos, os editores foram firmando com a plataforma um pacto parecido com um casamento de conveniência: “O dote da noiva vinha com dois milhares de milhões de utentes. O noivo pelintra não podia pedir melhor.” (...) 

“Que repercussões terá esta servidão voluntária para o trabalho diário das redacções, grandes ou pequenas? Quais serão as consequências para as equipas que trabalham para encher as fontes noticiosas do Facebook, especialmente com o vídeo, live e a pedido?” 

“E, acima de tudo, como é que a rede social conseguiu convencer tantos sites noticiosos, no limite das capacidades financeiras, a trabalharem para a sua plataforma?” (...) 

Nicolas Becquet conta então  - num artigo cuja extensão e pormenor exigem uma leitura na íntegra, pela importância do processo que é descrito -  que o Facebook, na prática, está a seduzir jornais de todo o mundo com uma oferta que, uma vez contratada, não podem recusar. 

Mark Zuckerberg criou uma “equipa de sonho” de pesos-pesados noticiosos dos EUA, que inclui The New York Times, a CNN, The Huffington Post, Vox, Mashable e até Condé Nast, que recebem determinada soma para produzirem quantidades enormes de conteúdo de alto valor para a plataforma, incluindo vídeo, Facebook Live, 360 e Instant Articles. “São pagos para inundarem as fontes noticiosas com conteúdos originais, que deverão depois convencer todas as outras editoras a seguirem o exemplo.” (...) 

“A estratégia foi eficaz. Os sites contratados são grandes nomes, e isso, combinado com os poderosos algoritmos, ajudou a tornar os novos formatos a norma em todo o mundo, em menos de um ano.” 

Em França, segundo o autor, a TF1, Le Figaro, Le Parisien e os títulos do grupo Le Monde encontram-se entre os que foram pagos para produzirem conteúdos de vídeo para o Facebook

O preço a pagar é um cumprimento rigoroso dos formatos projectados e decididos na grande empresa patrocinadora. Mas esta dependência tem consequências também sobre os departamentos de publicidade das pequenas empresas, que não podem competir com as “malas cheias de dinheiro” de um gigante como o Facebook

Nicolas Becquet ouve os argumentos (e as queixas) de vários dos envolvidos nesta aventura e sublinha, principalmente, que está a instalar-se um “ecossistema a duas velocidades”, com as pequenas empresas noticiosas a perderem a corrida e a possibilidade de manterem a audiência específica dos seus assinantes conhecidos. 

E conclui: 

“Os media franceses têm feito soar regularmente os alarmes sobre a perda de independência perante os accionistas industriais bilionários. No entanto, os mesmos media têm permitido a instalação de uma ameaça que é igualmente tóxica para o futuro dos seus sites e da própria democracia  - a ameaça do soft power, do dinheiro e do ecossistema das GAFA (Google, Amazon, Facebook e Apple). 


O artigo na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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