Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

Dinheiro do Facebook cria dependências às empresas jornalísticas

O Facebook ganhou, e as empresas noticiosas francesas tornaram-se “triplamente dependentes: de expandirem a sua audiência de graça, do uso das ferramentas de produção e distribuição daquela rede social, e de ganharem um rendimento adicional”. Mas vem aí a “ressaca”. O Facebook vai cobrar às empresas que ficaram mais “agarradas” aos likes e ao tráfego que gerou para os seus sites. “Todos os dias, as equipas editoriais estão a trabalhar em força para produzirem conteúdos especificamente destinados àquela plataforma.” A reflexão é de Nicolas Becquet, num estudo publicado no European Journalism Observatory.

Como explica o autor, tudo começou de modo inocente, com a procura dos likes, mas o dealer das audiências soube fazer o seu trabalho. Aos poucos, os editores foram firmando com a plataforma um pacto parecido com um casamento de conveniência: “O dote da noiva vinha com dois milhares de milhões de utentes. O noivo pelintra não podia pedir melhor.” (...) 

“Que repercussões terá esta servidão voluntária para o trabalho diário das redacções, grandes ou pequenas? Quais serão as consequências para as equipas que trabalham para encher as fontes noticiosas do Facebook, especialmente com o vídeo, live e a pedido?” 

“E, acima de tudo, como é que a rede social conseguiu convencer tantos sites noticiosos, no limite das capacidades financeiras, a trabalharem para a sua plataforma?” (...) 

Nicolas Becquet conta então  - num artigo cuja extensão e pormenor exigem uma leitura na íntegra, pela importância do processo que é descrito -  que o Facebook, na prática, está a seduzir jornais de todo o mundo com uma oferta que, uma vez contratada, não podem recusar. 

Mark Zuckerberg criou uma “equipa de sonho” de pesos-pesados noticiosos dos EUA, que inclui The New York Times, a CNN, The Huffington Post, Vox, Mashable e até Condé Nast, que recebem determinada soma para produzirem quantidades enormes de conteúdo de alto valor para a plataforma, incluindo vídeo, Facebook Live, 360 e Instant Articles. “São pagos para inundarem as fontes noticiosas com conteúdos originais, que deverão depois convencer todas as outras editoras a seguirem o exemplo.” (...) 

“A estratégia foi eficaz. Os sites contratados são grandes nomes, e isso, combinado com os poderosos algoritmos, ajudou a tornar os novos formatos a norma em todo o mundo, em menos de um ano.” 

Em França, segundo o autor, a TF1, Le Figaro, Le Parisien e os títulos do grupo Le Monde encontram-se entre os que foram pagos para produzirem conteúdos de vídeo para o Facebook

O preço a pagar é um cumprimento rigoroso dos formatos projectados e decididos na grande empresa patrocinadora. Mas esta dependência tem consequências também sobre os departamentos de publicidade das pequenas empresas, que não podem competir com as “malas cheias de dinheiro” de um gigante como o Facebook

Nicolas Becquet ouve os argumentos (e as queixas) de vários dos envolvidos nesta aventura e sublinha, principalmente, que está a instalar-se um “ecossistema a duas velocidades”, com as pequenas empresas noticiosas a perderem a corrida e a possibilidade de manterem a audiência específica dos seus assinantes conhecidos. 

E conclui: 

“Os media franceses têm feito soar regularmente os alarmes sobre a perda de independência perante os accionistas industriais bilionários. No entanto, os mesmos media têm permitido a instalação de uma ameaça que é igualmente tóxica para o futuro dos seus sites e da própria democracia  - a ameaça do soft power, do dinheiro e do ecossistema das GAFA (Google, Amazon, Facebook e Apple). 


O artigo na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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