Sexta-feira, 15 de Dezembro, 2017
Estudo

Jornalismo de investigação em crise por falta de suporte financeiro

“Podíamos pensar que não devia haver discussão a respeito da importância do jornalismo de investigação. Mas o colapso da base financeira do jornalismo nestes últimos 15 anos causou muitas vítimas, e uma das principais foi o campo da investigação. (...) O jornalismo de investigação passou a ser visto, cada vez mais, como um desperdício de tempo, custoso e ineficiente.” Esta reflexão faz parte da síntese de apresentação do novo relatório produzido pelo Global Investigative Journalism Network, que desmente o preconceito e demonstra o verdadeiro impacto do jornalismo de investigação, bem como o seu contributo essencial para uma vida democrática saudável.

“A revolução digital não está apenas a dilacerar, está de facto a destruir os modelos de negócio que produziram quase todo o jornalismo de qualidade neste quarto de século depois do Watergate”  -  afirma Richard Tofel, presidente da ProPublica, em texto publicado na Harvard Law Today. Este problema é particularmente agudo no que diz respeito à reportagem de investigação. 

“Cada vez mais, as empresas noticiosas sentem-se coagidas a investir os seus recursos numa cobertura rápida e frenética [fast and furious, no original], onde acham que vão obter mais proveito pelo dinheiro gasto [more bang for the buck, no original].” (...)

A verdade é que, como foi revelado na Stanford University, “se avaliarmos o custo da produção de grandes reportagens pelo valor em dólares dos resultados sociais produzidos, então o valor desse jornalismo é extraordinário. ‘Cada dólar gasto numa reportagem pode gerar centenas de dólares de lucro’ – escreve o economista James Hamilton no seu livro de 2016, Democracy’s Detectives.” 

Preet Bharara, que era em Setembro de 2016 o US Attorney [Procurador Público] do Distrito Sul de Nova Iorque, reconheceu a importância do jornalismo de investigação no seu próprio combate à corrupção naquela cidade: 

“Grande parte do melhor trabalho que os investigadores e vigilantes legais conseguem fazer vem do trabalho que os jornalistas fazem. Eu exortaria qualquer pessoa com capacidade para apoiar o jornalismo de investigação a investir dinheiro nele, porque é dinheiro bem gasto e é bom para o público.” (...) 

O texto que citamos, do GIJN, afirma ainda: 

“O jornalismo de investigação ilumina. Aponta um foco aos cantos mais escuros do comportamento humano, das empresas e dos governos. Revela os secredos que os malfeitores gostariam que continuassem ocultos. E desencadeia acção correctiva  -  das pessoas, das agências e das instituições que podem corrigir os males que ele expõe.” (...) 

O relatório agora apresentado revela que é possível “medir quantitativamente o impacto do jornalismo”, embora os instrumentos acessíveis “não sejam tão directos como a medição das audiências ou do tráfego de websites”: 

“Há muito a fazer nesta área, e tanto este como outros projectos semelhantes são apenas passos nessa direcção. Mas muito progresso tem sido feito em poucos anos. O que temos descoberto leva-nos a concluir que o impacto do jornalismo de investigação pode de facto ser avaliado, e que a sua influência é em proporção muito maior que o seu custo.” (...) 

 

O artigo citado, na íntegra, no GIJN, e o relatório Investigative Impact

Connosco
Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública Ver galeria

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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