null, 26 de Maio, 2019
Estudo

Jornalismo de investigação em crise por falta de suporte financeiro

“Podíamos pensar que não devia haver discussão a respeito da importância do jornalismo de investigação. Mas o colapso da base financeira do jornalismo nestes últimos 15 anos causou muitas vítimas, e uma das principais foi o campo da investigação. (...) O jornalismo de investigação passou a ser visto, cada vez mais, como um desperdício de tempo, custoso e ineficiente.” Esta reflexão faz parte da síntese de apresentação do novo relatório produzido pelo Global Investigative Journalism Network, que desmente o preconceito e demonstra o verdadeiro impacto do jornalismo de investigação, bem como o seu contributo essencial para uma vida democrática saudável.

“A revolução digital não está apenas a dilacerar, está de facto a destruir os modelos de negócio que produziram quase todo o jornalismo de qualidade neste quarto de século depois do Watergate”  -  afirma Richard Tofel, presidente da ProPublica, em texto publicado na Harvard Law Today. Este problema é particularmente agudo no que diz respeito à reportagem de investigação. 

“Cada vez mais, as empresas noticiosas sentem-se coagidas a investir os seus recursos numa cobertura rápida e frenética [fast and furious, no original], onde acham que vão obter mais proveito pelo dinheiro gasto [more bang for the buck, no original].” (...)

A verdade é que, como foi revelado na Stanford University, “se avaliarmos o custo da produção de grandes reportagens pelo valor em dólares dos resultados sociais produzidos, então o valor desse jornalismo é extraordinário. ‘Cada dólar gasto numa reportagem pode gerar centenas de dólares de lucro’ – escreve o economista James Hamilton no seu livro de 2016, Democracy’s Detectives.” 

Preet Bharara, que era em Setembro de 2016 o US Attorney [Procurador Público] do Distrito Sul de Nova Iorque, reconheceu a importância do jornalismo de investigação no seu próprio combate à corrupção naquela cidade: 

“Grande parte do melhor trabalho que os investigadores e vigilantes legais conseguem fazer vem do trabalho que os jornalistas fazem. Eu exortaria qualquer pessoa com capacidade para apoiar o jornalismo de investigação a investir dinheiro nele, porque é dinheiro bem gasto e é bom para o público.” (...) 

O texto que citamos, do GIJN, afirma ainda: 

“O jornalismo de investigação ilumina. Aponta um foco aos cantos mais escuros do comportamento humano, das empresas e dos governos. Revela os secredos que os malfeitores gostariam que continuassem ocultos. E desencadeia acção correctiva  -  das pessoas, das agências e das instituições que podem corrigir os males que ele expõe.” (...) 

O relatório agora apresentado revela que é possível “medir quantitativamente o impacto do jornalismo”, embora os instrumentos acessíveis “não sejam tão directos como a medição das audiências ou do tráfego de websites”: 

“Há muito a fazer nesta área, e tanto este como outros projectos semelhantes são apenas passos nessa direcção. Mas muito progresso tem sido feito em poucos anos. O que temos descoberto leva-nos a concluir que o impacto do jornalismo de investigação pode de facto ser avaliado, e que a sua influência é em proporção muito maior que o seu custo.” (...) 

 

O artigo citado, na íntegra, no GIJN, e o relatório Investigative Impact

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
A celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa  constitui o pretexto e o convite para uma reflexão que não nos exclui. Com os jornais em contínua degradação de vendas em banca, obrigando  já a soluções extremas  - como se verificou com o centenário  “Diário de Noticias”, que passou a ser semanário, embora sem inverter o plano inclinado -,  a apatia...
A Google trouxe a Lisboa Mark Howe, um veterano da publicidade no Reino Unido. Actualmente responsável da Google pela relação com as agências de meios na Europa, Mark Howe contou uma história que mostra bem a importância de as marcas comunicarem de forma continuada – mesmo que o objectivo não seja as vendas imediatamente. A situação passou-se no Reino Unido e nos EUA durante a II Grande Guerra. Por iniciativa dos governos foi...
Agenda
27
Mai
DW Global Media Forum
09:00 @ Bona, Alemanha
02
Jun
"The Children’s Media Conference"
11:00 @ Sheffield, Reino Unido
14
Jun
14
Jun
21
Jun
Social Media Day: Halifax
09:00 @ Halifax, Nova Escócia, Canadá