Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

A verdade e a confiança nos Media debatida pelos Provedores na Índia

“Se não confia nele, por que havia de pagá-lo?”  - resumiu Rasmus Kleis Nielsen, director de pesquisa do Reuters Institute, sobre o problema da fiabilidade dos media. As questões das notícias falsas e da confiança dos leitores nos meios de comunicação estiveram em destaque na conferência anual da ONO – Organisation of News Ombudsmen, que reuniu na Índia, em Outubro, os Ombudsmen (Provedores dos Media) de 15 países. Uma das sessões foi dedicada ao documento produzido pela UNESCO sobre a cobertura jornalística de actos de terrorismo. Presentes no encontro, dirigentes da Ethical Journalism Network e do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo trouxeram ao debate os dados revelados pelos inquéritos mais recentes sobre estas matérias.

O ponto onde se cruzam todas estas questões é a consciência de uma crise onde se misturam as notícias deliberadamente falsas, a desinformação e o seu impacto sobre a liberdade de expressão, com a quebra de confiança nos media e a necessidade de uma nova ética jornalística. 

O Prof. Rasmus Nielsen fez a pergunta acima citada à luz das conclusões do mais recente Reuters Digital News Report, baseado num inquérito levado a cabo em 36 países, e já referido noutro local deste site

Apenas um quarto (24%) dos que responderam acham que as redes sociais estão a fazer bom trabalho na distinção entre facto e ficção, comparados com os 40% que preferem os meios noticiosos. “Dados qualitativos sugerem que os utentes sentem que a falta de regras e os algoritmos virais encorajam a proliferação rápida da baixa qualidade e das fake news.” 

Outro dos presentes, Pratik Sinha, o fundador e editor de Alt News, um site de fact checking, contou que o serviço de mensagens WhatsApp tem muita procura na Índia, em parte pelo baixo preço dos telemóveis, mas o que isto significa é que as pessoas “têm acesso à propaganda mas não têm meios de a verificar”. (...) 

Na sessão dedicada ao manual da UNESCO sobre a cobertura de actos de terrorismo foi citado o jurista francês Antoine Garapon: 

“Os media estão apanhados num dilema infernal. Por um lado, o seu eco pode tornar as vítimas nos mensageiros involuntários da busca de glória dos seus próprios carrascos; por outro lado, a auto-censura pode ser interpretada como capitulação. O medo pode conduzir ao sacrifício de liberdades duramente conquistadas e acabar por reduzir a diferença entre estados democráticos e autoritários  - precisamente aquilo que os terroristas pretendem.”

 

O texto citado, na íntegra, na Ethical Journalism Network, que contém os links para os documentos The Trust Factor (apresentado nesta conferência) e Terrorism and the Media, da UNESCO

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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