Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Novas iniciativas

Web Summit: uma espécie de Parlamento sobre o uso das novas tecnologias

“A Web Summit é como se fosse um Parlamento: facilita discursos e debates diversificados, alcança uma maior variedade de temas, como os impostos, os vícios, os perigos da inteligência artificial ou monopólios que estão a crescer.” A afirmação é de Paddy Cosgrave, fundador e presidente executivo da Web Summit, que se reúne pela segunda vez em Lisboa, entre 6 e 9 de Novembro. “Acho que se não discutirmos estas coisas estaríamos a trair alguma da nossa responsabilidade pública enquanto aglutinador do sector tecnológico, talvez o aglutinador tecnológico mais global do mundo”, acrescenta. 

Algumas das suas declarações podem parecer surpreendentes da boca de um “guru” das novas tecnologias, que para muitos são uma espécie de “brinquedos novos” sem contra-indicações.  

Em entrevista ao Observador, que aqui citamos, Paddy Cosgrave revela-se preocupado com o espírito dominante em Silicon Valley:  

“Acho que a coisa que mais me desilude é a amnésia coletiva de Silicon Valley; não percebem que Silicon Valley nunca foi um centro de empreendedorismo, de investimento privado, é um centro de investimento massivo do Estado. Foi uma subsidiária do Pentágono norte-americano que, durante décadas e décadas não estava a produzir empresas de tecnologia vencedoras a nível mundial. E por isso tornou-se num centro massivo de Investigação & Desenvolvimento do governo norte-americano”, conta. (…) 

“O chip que faz este telemóvel funcionar se calhar nasceu para guiar mísseis. Muita desta tecnologia principal emerge de um sistema muito deliberado e muito consciente de parcerias com o Estado e de I&D para a Defesa”, explica, acrescentando que “as raízes de Silicon Valley assentam num envolvimento massivo do governo” e que hoje muitas destas empresas esquecem a sua história prévia”. (…) 

Paddy tem 34 anos e é presidente de uma conferência de tecnologia que pôs Paris, Lisboa e Amesterdão a competir para recebê-la. 

“A vontade do Governo português em trazê-la para Lisboa foi tal que o Turismo de Lisboa, Turismo de Portugal e a AICEP – Portugal Global investiram 1,3 milhões de euros para convencer o irlandês a escolher a capital portuguesa. O acordo foi assinado por três anos — 2016, 2017 e 2018 — com possibilidade de estender por mais dois. No entanto, é ele quem diz que é por causa dos telemóveis (que naquele momento estavam desligados) que estamos a criar a geração mais solitária de sempre.” 

“Os adolescentes nunca estiveram tão ligados uns aos outros, mas nunca estiveram tão sós. É uma contradição”, afirma. Qual o papel de uma conferência com o alcance e impacto da Web Summit para travar isto? “Acho que estamos a começar a ter diferentes visões, opiniões sobre inteligência artificial, sobre vícios e sobre a responsabilidade dos governos na protecção das crianças. A China já está a liderar este caminho: estão a introduzir activamente sistemas que protejam as crianças de alguns dos efeitos que a utilização extensiva dos telemóveis pode estar a ter na sua saúde mental. Se a China consegue fazer isto numa escala de 1,5 mil milhões de pessoas, tenho a certeza que os desafios para um país como Portugal são muito menores, sublinha. 

De entre os muitos oradores que vão ocupar o palco principal da Web Summit, podemos destacar quatro portugueses: José Neves, Sara Sampaio, António Guterres e Carlos Moedas. A proposta é do Observador, que começa por seleccionar 24 dos mais de mil inscritos para falar, e estes são os nossos quatro nacionais nessa lista final. 

José Neves, apresentado como “o português que já emprega 2.000 pessoas no mundo”, fundou em 2008 a Farfetch, plataforma online de comércio de marcas de luxo, que se tornou em 2015 na única startup portuguesa avaliada em mil milhões de dólares, o chamado “unicórnio”. Hoje com escritórios em Portugal (Guimarães, Leça do Balio e Lisboa), Reino Unido, Japão, China, Estados Unidos e Rússia, a Farfetch “iniciou-se na instabilidade dos negócios das startups: passou por seis rondas de financiamento até chegar à categoria de ‘unicórnio’. (…) A empresa vende hoje para 190 países, de um catálogo de cerca de 750 designers e boutiques de moda de luxo. Na Web Summit, vai falar sobre a liderança dos líderes e sobre a customização da indústria da moda”. 

Sara Sampaio é apresentada como “a primeira portuguesa a tornar-se top model — um estatuto da indústria da moda que poucas modelos conseguem atingir –, o único anjo português da “Victoria’s Secrete a primeira modelo portuguesa a ser fotografada para a revista Sports Illustrated Swimsuit Issue”. 

As duas personalidades políticas que se seguem não necessitam, como se diz nestas circunstâncias, de qualquer apresentação: 

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas desde 1 de Janeiro de 2017, foi definido pela embaixadora dos EUA na ONU como “o homem para [este] trabalho em tempos tão desafiantes”. “Enfrentamos um número de desafios sem precedentes”, disse, exemplificando: nova ameaça do terrorismo no mundo, tráfico de pessoas, mudanças climáticas. É sobre estes desafios que vai falar. 

Carlos Moedas, actual Comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, tem a seu cargo o programa de financiamento comunitário Horizonte 2020, dedicado a apoiar projectos de investigação e inovação – três empresas portuguesas foram seleccionadas. Na Web Summit, vai falar sobre o papel da Europa enquanto capital da inovação.

 

Mais informação no suplemento Especial do Observador, sobre a Web Summit

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...