Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Novas iniciativas

Web Summit: uma espécie de Parlamento sobre o uso das novas tecnologias

“A Web Summit é como se fosse um Parlamento: facilita discursos e debates diversificados, alcança uma maior variedade de temas, como os impostos, os vícios, os perigos da inteligência artificial ou monopólios que estão a crescer.” A afirmação é de Paddy Cosgrave, fundador e presidente executivo da Web Summit, que se reúne pela segunda vez em Lisboa, entre 6 e 9 de Novembro. “Acho que se não discutirmos estas coisas estaríamos a trair alguma da nossa responsabilidade pública enquanto aglutinador do sector tecnológico, talvez o aglutinador tecnológico mais global do mundo”, acrescenta. 

Algumas das suas declarações podem parecer surpreendentes da boca de um “guru” das novas tecnologias, que para muitos são uma espécie de “brinquedos novos” sem contra-indicações.  

Em entrevista ao Observador, que aqui citamos, Paddy Cosgrave revela-se preocupado com o espírito dominante em Silicon Valley:  

“Acho que a coisa que mais me desilude é a amnésia coletiva de Silicon Valley; não percebem que Silicon Valley nunca foi um centro de empreendedorismo, de investimento privado, é um centro de investimento massivo do Estado. Foi uma subsidiária do Pentágono norte-americano que, durante décadas e décadas não estava a produzir empresas de tecnologia vencedoras a nível mundial. E por isso tornou-se num centro massivo de Investigação & Desenvolvimento do governo norte-americano”, conta. (…) 

“O chip que faz este telemóvel funcionar se calhar nasceu para guiar mísseis. Muita desta tecnologia principal emerge de um sistema muito deliberado e muito consciente de parcerias com o Estado e de I&D para a Defesa”, explica, acrescentando que “as raízes de Silicon Valley assentam num envolvimento massivo do governo” e que hoje muitas destas empresas esquecem a sua história prévia”. (…) 

Paddy tem 34 anos e é presidente de uma conferência de tecnologia que pôs Paris, Lisboa e Amesterdão a competir para recebê-la. 

“A vontade do Governo português em trazê-la para Lisboa foi tal que o Turismo de Lisboa, Turismo de Portugal e a AICEP – Portugal Global investiram 1,3 milhões de euros para convencer o irlandês a escolher a capital portuguesa. O acordo foi assinado por três anos — 2016, 2017 e 2018 — com possibilidade de estender por mais dois. No entanto, é ele quem diz que é por causa dos telemóveis (que naquele momento estavam desligados) que estamos a criar a geração mais solitária de sempre.” 

“Os adolescentes nunca estiveram tão ligados uns aos outros, mas nunca estiveram tão sós. É uma contradição”, afirma. Qual o papel de uma conferência com o alcance e impacto da Web Summit para travar isto? “Acho que estamos a começar a ter diferentes visões, opiniões sobre inteligência artificial, sobre vícios e sobre a responsabilidade dos governos na protecção das crianças. A China já está a liderar este caminho: estão a introduzir activamente sistemas que protejam as crianças de alguns dos efeitos que a utilização extensiva dos telemóveis pode estar a ter na sua saúde mental. Se a China consegue fazer isto numa escala de 1,5 mil milhões de pessoas, tenho a certeza que os desafios para um país como Portugal são muito menores, sublinha. 

De entre os muitos oradores que vão ocupar o palco principal da Web Summit, podemos destacar quatro portugueses: José Neves, Sara Sampaio, António Guterres e Carlos Moedas. A proposta é do Observador, que começa por seleccionar 24 dos mais de mil inscritos para falar, e estes são os nossos quatro nacionais nessa lista final. 

José Neves, apresentado como “o português que já emprega 2.000 pessoas no mundo”, fundou em 2008 a Farfetch, plataforma online de comércio de marcas de luxo, que se tornou em 2015 na única startup portuguesa avaliada em mil milhões de dólares, o chamado “unicórnio”. Hoje com escritórios em Portugal (Guimarães, Leça do Balio e Lisboa), Reino Unido, Japão, China, Estados Unidos e Rússia, a Farfetch “iniciou-se na instabilidade dos negócios das startups: passou por seis rondas de financiamento até chegar à categoria de ‘unicórnio’. (…) A empresa vende hoje para 190 países, de um catálogo de cerca de 750 designers e boutiques de moda de luxo. Na Web Summit, vai falar sobre a liderança dos líderes e sobre a customização da indústria da moda”. 

Sara Sampaio é apresentada como “a primeira portuguesa a tornar-se top model — um estatuto da indústria da moda que poucas modelos conseguem atingir –, o único anjo português da “Victoria’s Secrete a primeira modelo portuguesa a ser fotografada para a revista Sports Illustrated Swimsuit Issue”. 

As duas personalidades políticas que se seguem não necessitam, como se diz nestas circunstâncias, de qualquer apresentação: 

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas desde 1 de Janeiro de 2017, foi definido pela embaixadora dos EUA na ONU como “o homem para [este] trabalho em tempos tão desafiantes”. “Enfrentamos um número de desafios sem precedentes”, disse, exemplificando: nova ameaça do terrorismo no mundo, tráfico de pessoas, mudanças climáticas. É sobre estes desafios que vai falar. 

Carlos Moedas, actual Comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, tem a seu cargo o programa de financiamento comunitário Horizonte 2020, dedicado a apoiar projectos de investigação e inovação – três empresas portuguesas foram seleccionadas. Na Web Summit, vai falar sobre o papel da Europa enquanto capital da inovação.

 

Mais informação no suplemento Especial do Observador, sobre a Web Summit

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Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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