Sábado, 20 de Outubro, 2018
Opinião

As redes sociais e o passado

por Francisco Sarsfield Cabral

O semanário britânico The Economist, geralmente um entusiasta do progresso científico e tecnológico, dedicou a capa e o primeiro editorial de um seu recente número a uma crítica severa às redes sociais. Estas, em vez de contribuírem para o esclarecimento público e o debate racional (como inicialmente se esperava), multiplicam mentiras e falsidades – por exemplo, as milhares de intromissões russas no Facebook e no Google. As redes sociais espalham veneno, afirma o Economist. Por isso as considera uma ameaça à democracia.

Essas redes, escreve o Economist, amplificam as divisões existentes na sociedade e tiram dignidade à vida política. Como não há contraditório, reforçam os preconceitos das pessoas. E como circulam na internet numerosos textos anónimos, revelam cobardia, permitindo a impunidade das calúnias. Além disso, segundo o Economist, as redes sociais dão grande relevo a escândalos e à baixa política, que assim se torna cada vez mais agressiva e desagradável, afastando as pessoas.

 

Julgo que o semanário britânico tem razão. Mas, quando essas críticas foram publicadas (3 de Novembro), calhou eu estar a ler uma longa e excelente biografia de Alexander Hamilton, de Ron Chernow. É um livro que mostra como foram complicadas as primeiras décadas dos Estados Unidos. E como foram azedos e frequentes os conflitos entre os “pais fundadores” daquela república – como eram A. Hamilton e T. Jefferson. Aliás, Hamilton, porventura o mais dotado político do seu tempo, foi morto num duelo em 1802 pelo vice-presidente dos EUA Aaron Burr, culminando longos anos de hostilidade recíproca.

 

Esses conflitos passavam sobretudo pelos jornais, que se multiplicavam então no solo americano. Jornais com poucas notícias e muita opinião - eram, então, uma importante arma da luta política. Ora, os ataques, políticos e pessoais, publicados na Imprensa americana nos finais do século XVIII eram frequentemente agressivos e na sua maioria assinados com pseudónimos, logo, praticamente anónimos. “Os artigos assinados (pelos seus autores) eram relativamente raros” (Ron Chernow, Alexander Hamilton, ed. Head of Zeus, Ltd., pág. 397).

 

Ou seja, os males de que se queixa, com razão, o Economist não vêm das novas tecnologias, mas do uso que delas faz muita gente. Claro que as redes sociais dão a esses males uma amplitude muito maior do que a dos jornais do passado. Mas, na sua raiz, os problemas que as redes sociais suscitam já existem há séculos.

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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