Sexta-feira, 15 de Dezembro, 2017
Opinião

As redes sociais e o passado

por Francisco Sarsfield Cabral

O semanário britânico The Economist, geralmente um entusiasta do progresso científico e tecnológico, dedicou a capa e o primeiro editorial de um seu recente número a uma crítica severa às redes sociais. Estas, em vez de contribuírem para o esclarecimento público e o debate racional (como inicialmente se esperava), multiplicam mentiras e falsidades – por exemplo, as milhares de intromissões russas no Facebook e no Google. As redes sociais espalham veneno, afirma o Economist. Por isso as considera uma ameaça à democracia.

Essas redes, escreve o Economist, amplificam as divisões existentes na sociedade e tiram dignidade à vida política. Como não há contraditório, reforçam os preconceitos das pessoas. E como circulam na internet numerosos textos anónimos, revelam cobardia, permitindo a impunidade das calúnias. Além disso, segundo o Economist, as redes sociais dão grande relevo a escândalos e à baixa política, que assim se torna cada vez mais agressiva e desagradável, afastando as pessoas.

 

Julgo que o semanário britânico tem razão. Mas, quando essas críticas foram publicadas (3 de Novembro), calhou eu estar a ler uma longa e excelente biografia de Alexander Hamilton, de Ron Chernow. É um livro que mostra como foram complicadas as primeiras décadas dos Estados Unidos. E como foram azedos e frequentes os conflitos entre os “pais fundadores” daquela república – como eram A. Hamilton e T. Jefferson. Aliás, Hamilton, porventura o mais dotado político do seu tempo, foi morto num duelo em 1802 pelo vice-presidente dos EUA Aaron Burr, culminando longos anos de hostilidade recíproca.

 

Esses conflitos passavam sobretudo pelos jornais, que se multiplicavam então no solo americano. Jornais com poucas notícias e muita opinião - eram, então, uma importante arma da luta política. Ora, os ataques, políticos e pessoais, publicados na Imprensa americana nos finais do século XVIII eram frequentemente agressivos e na sua maioria assinados com pseudónimos, logo, praticamente anónimos. “Os artigos assinados (pelos seus autores) eram relativamente raros” (Ron Chernow, Alexander Hamilton, ed. Head of Zeus, Ltd., pág. 397).

 

Ou seja, os males de que se queixa, com razão, o Economist não vêm das novas tecnologias, mas do uso que delas faz muita gente. Claro que as redes sociais dão a esses males uma amplitude muito maior do que a dos jornais do passado. Mas, na sua raiz, os problemas que as redes sociais suscitam já existem há séculos.

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Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

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A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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