Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
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Sobre a necessidade de um jornalismo sério e crítico relacionado com temas religiosos

Há temas considerados polémicos demais, que muitas vezes se evitam com o argumento de que “isso não se discute”. Mas o jornalismo trata deles, nem podia deixar de o fazer  - por exemplo, de política e de futebol. E quando o assunto é religião? “É possível ao jornalismo estabelecer uma cobertura sobre diferentes manifestações religiosas, suas datas, suas crenças e, mais além, seus dogmas e mitos?” Esta reflexão é do Comentário da Semana de ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, e a resposta é que sim.

A autora do texto que citamos propõe exemplos “que apontam para uma apreciação antropológica, sociológica, cultural e política de fenómenos que integram o quotidiano dos leitores. Nesses casos, o jornalismo se faz útil não só para os fiéis, que podem se aprofundar em assuntos dos seus interesses, mas até para os leitores cépticos, que sabem o papel da religião e principalmente das igrejas na estrutura social” . (...) 

Deste modo, “o leitor é convidado a saber, a conhecer e a desvendar aquilo que é apresentado como um acontecimento factual, singular. Mais do que isso: ao ser chamado a reflectir sobre um dos assuntos que mais interessam à humanidade, torna-se apto a participar do debate público, accionando um repertório para além daquele que adquiriu em contacto com a fé ou nas aulas de edução religiosa”. 

Amanda Miranda, doutoranda no POSJOR e pesquisadora do ObjEthos, dá como exemplo o caderno especial que A Folha de São Paulo editou a propósito dos “500 anos da Reforma protestante, liderada por Martinho Lutero como crítica ao papado e a determinados preceitos católicos – para debater um assunto que não costuma ser agendado com frequência”. 

“O periódico trouxe um trabalho bastante completo, apontando para questões relacionadas à cultura e à história, como o papel da mulher de Lutero no movimento; passando por um debate sobre as diferenças entre católicos e protestantes e chegando a duas pautas urgentes: a que discute o avanço das igrejas neopentecostais, como Assembleia de Deus e Universal, e a emergência de bancadas evangélicas no Legislativo.” (...)


 

“O caderno é exemplar no que se refere à abrangência e complexidade que uma pauta como estas exige. Ao trabalhar com um assunto que mobiliza crenças e paixões, simplificá-lo ou polemizar em torno dele em busca de cliques é a tarefa mais fácil  – e muitas vezes é a escolha de grandes jornais. Desmembrar o assunto em pautas que optem por complexificar o fenómeno, trazendo dados novos e interpretações plurais, exige tempo e árduo trabalho de reportagem.” (...) 

A autora cita depois outro caso, o do Diário Catarinense, que “investiu no localismo, ao apontar para a formação da identidade cultural catarinense a partir da influência do luteranismo. Trata-se de uma abordagem cultural e sócio-histórica original que não deixa de discutir questões actuais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os exemplos mostram uma dimensão do jornalismo que pode impulsionar a formação de um leitor crítico a respeito do mundo que o cerca, resgatando sua função original, tão em desuso em tempos de notícias caça-cliques”. 

Amanda Miranda cita depois outros casos, em que o agendamento jornalístico “pode ser subvertido por factualidades que retratam um momento de ascensão do conservadorismo e da onda de intolerância no país”. (...) 

“Como no debate sobre aborto e sobre a destruição dos terreiros [de mães-de-santo] no Rio de Janeiro, estamos falando de factos que se tornaram pauta jornalística pela sua singularidade, mas que muitas vezes deixam de ser trabalhados com a seriedade e a complexidade que o assunto exigiria. Transformam-se, deste modo, em mais um objeto de [inquéritos] sobre ser contra ou a favor, em mais um caça-cliques gerador de polémicas nas redes sociais. Anula-se, assim, sua potência como forma de conhecimento.” (...) 

A autora conclui defendendo a oportunidade de um tratamento jornalístico sério dos temas religiosos, que deve apostar em determinadas direcções  -  e propõe estas três:

diversidade, considerando que há múltiplas manifestações e crenças possíveis na nossa cultura e que estas podem agendar diferentes pautas, com diferentes abordagens;”

respeito, tendo em conta que aceitar a crença (ou cepticismo) do outro é um princípio básico e irrevogável de qualquer pauta;”

abrangência, pensando que fenómenos religiosos não podem e não devem ser simplificados ou relegados a polémicas e factualidades diárias: é preciso tratá-los com a seriedade e a complexidade que exigem.” 

 

O Comentário da Semana na íntegra, em ObjEthos, de onde colhemos as imagens utilizadas

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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