Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
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Sobre a necessidade de um jornalismo sério e crítico relacionado com temas religiosos

Há temas considerados polémicos demais, que muitas vezes se evitam com o argumento de que “isso não se discute”. Mas o jornalismo trata deles, nem podia deixar de o fazer  - por exemplo, de política e de futebol. E quando o assunto é religião? “É possível ao jornalismo estabelecer uma cobertura sobre diferentes manifestações religiosas, suas datas, suas crenças e, mais além, seus dogmas e mitos?” Esta reflexão é do Comentário da Semana de ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, e a resposta é que sim.

A autora do texto que citamos propõe exemplos “que apontam para uma apreciação antropológica, sociológica, cultural e política de fenómenos que integram o quotidiano dos leitores. Nesses casos, o jornalismo se faz útil não só para os fiéis, que podem se aprofundar em assuntos dos seus interesses, mas até para os leitores cépticos, que sabem o papel da religião e principalmente das igrejas na estrutura social” . (...) 

Deste modo, “o leitor é convidado a saber, a conhecer e a desvendar aquilo que é apresentado como um acontecimento factual, singular. Mais do que isso: ao ser chamado a reflectir sobre um dos assuntos que mais interessam à humanidade, torna-se apto a participar do debate público, accionando um repertório para além daquele que adquiriu em contacto com a fé ou nas aulas de edução religiosa”. 

Amanda Miranda, doutoranda no POSJOR e pesquisadora do ObjEthos, dá como exemplo o caderno especial que A Folha de São Paulo editou a propósito dos “500 anos da Reforma protestante, liderada por Martinho Lutero como crítica ao papado e a determinados preceitos católicos – para debater um assunto que não costuma ser agendado com frequência”. 

“O periódico trouxe um trabalho bastante completo, apontando para questões relacionadas à cultura e à história, como o papel da mulher de Lutero no movimento; passando por um debate sobre as diferenças entre católicos e protestantes e chegando a duas pautas urgentes: a que discute o avanço das igrejas neopentecostais, como Assembleia de Deus e Universal, e a emergência de bancadas evangélicas no Legislativo.” (...)


 

“O caderno é exemplar no que se refere à abrangência e complexidade que uma pauta como estas exige. Ao trabalhar com um assunto que mobiliza crenças e paixões, simplificá-lo ou polemizar em torno dele em busca de cliques é a tarefa mais fácil  – e muitas vezes é a escolha de grandes jornais. Desmembrar o assunto em pautas que optem por complexificar o fenómeno, trazendo dados novos e interpretações plurais, exige tempo e árduo trabalho de reportagem.” (...) 

A autora cita depois outro caso, o do Diário Catarinense, que “investiu no localismo, ao apontar para a formação da identidade cultural catarinense a partir da influência do luteranismo. Trata-se de uma abordagem cultural e sócio-histórica original que não deixa de discutir questões actuais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os exemplos mostram uma dimensão do jornalismo que pode impulsionar a formação de um leitor crítico a respeito do mundo que o cerca, resgatando sua função original, tão em desuso em tempos de notícias caça-cliques”. 

Amanda Miranda cita depois outros casos, em que o agendamento jornalístico “pode ser subvertido por factualidades que retratam um momento de ascensão do conservadorismo e da onda de intolerância no país”. (...) 

“Como no debate sobre aborto e sobre a destruição dos terreiros [de mães-de-santo] no Rio de Janeiro, estamos falando de factos que se tornaram pauta jornalística pela sua singularidade, mas que muitas vezes deixam de ser trabalhados com a seriedade e a complexidade que o assunto exigiria. Transformam-se, deste modo, em mais um objeto de [inquéritos] sobre ser contra ou a favor, em mais um caça-cliques gerador de polémicas nas redes sociais. Anula-se, assim, sua potência como forma de conhecimento.” (...) 

A autora conclui defendendo a oportunidade de um tratamento jornalístico sério dos temas religiosos, que deve apostar em determinadas direcções  -  e propõe estas três:

diversidade, considerando que há múltiplas manifestações e crenças possíveis na nossa cultura e que estas podem agendar diferentes pautas, com diferentes abordagens;”

respeito, tendo em conta que aceitar a crença (ou cepticismo) do outro é um princípio básico e irrevogável de qualquer pauta;”

abrangência, pensando que fenómenos religiosos não podem e não devem ser simplificados ou relegados a polémicas e factualidades diárias: é preciso tratá-los com a seriedade e a complexidade que exigem.” 

 

O Comentário da Semana na íntegra, em ObjEthos, de onde colhemos as imagens utilizadas

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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