Quinta-feira, 21 de Março, 2019
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Sobre a necessidade de um jornalismo sério e crítico relacionado com temas religiosos

Há temas considerados polémicos demais, que muitas vezes se evitam com o argumento de que “isso não se discute”. Mas o jornalismo trata deles, nem podia deixar de o fazer  - por exemplo, de política e de futebol. E quando o assunto é religião? “É possível ao jornalismo estabelecer uma cobertura sobre diferentes manifestações religiosas, suas datas, suas crenças e, mais além, seus dogmas e mitos?” Esta reflexão é do Comentário da Semana de ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, e a resposta é que sim.

A autora do texto que citamos propõe exemplos “que apontam para uma apreciação antropológica, sociológica, cultural e política de fenómenos que integram o quotidiano dos leitores. Nesses casos, o jornalismo se faz útil não só para os fiéis, que podem se aprofundar em assuntos dos seus interesses, mas até para os leitores cépticos, que sabem o papel da religião e principalmente das igrejas na estrutura social” . (...) 

Deste modo, “o leitor é convidado a saber, a conhecer e a desvendar aquilo que é apresentado como um acontecimento factual, singular. Mais do que isso: ao ser chamado a reflectir sobre um dos assuntos que mais interessam à humanidade, torna-se apto a participar do debate público, accionando um repertório para além daquele que adquiriu em contacto com a fé ou nas aulas de edução religiosa”. 

Amanda Miranda, doutoranda no POSJOR e pesquisadora do ObjEthos, dá como exemplo o caderno especial que A Folha de São Paulo editou a propósito dos “500 anos da Reforma protestante, liderada por Martinho Lutero como crítica ao papado e a determinados preceitos católicos – para debater um assunto que não costuma ser agendado com frequência”. 

“O periódico trouxe um trabalho bastante completo, apontando para questões relacionadas à cultura e à história, como o papel da mulher de Lutero no movimento; passando por um debate sobre as diferenças entre católicos e protestantes e chegando a duas pautas urgentes: a que discute o avanço das igrejas neopentecostais, como Assembleia de Deus e Universal, e a emergência de bancadas evangélicas no Legislativo.” (...)


 

“O caderno é exemplar no que se refere à abrangência e complexidade que uma pauta como estas exige. Ao trabalhar com um assunto que mobiliza crenças e paixões, simplificá-lo ou polemizar em torno dele em busca de cliques é a tarefa mais fácil  – e muitas vezes é a escolha de grandes jornais. Desmembrar o assunto em pautas que optem por complexificar o fenómeno, trazendo dados novos e interpretações plurais, exige tempo e árduo trabalho de reportagem.” (...) 

A autora cita depois outro caso, o do Diário Catarinense, que “investiu no localismo, ao apontar para a formação da identidade cultural catarinense a partir da influência do luteranismo. Trata-se de uma abordagem cultural e sócio-histórica original que não deixa de discutir questões actuais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os exemplos mostram uma dimensão do jornalismo que pode impulsionar a formação de um leitor crítico a respeito do mundo que o cerca, resgatando sua função original, tão em desuso em tempos de notícias caça-cliques”. 

Amanda Miranda cita depois outros casos, em que o agendamento jornalístico “pode ser subvertido por factualidades que retratam um momento de ascensão do conservadorismo e da onda de intolerância no país”. (...) 

“Como no debate sobre aborto e sobre a destruição dos terreiros [de mães-de-santo] no Rio de Janeiro, estamos falando de factos que se tornaram pauta jornalística pela sua singularidade, mas que muitas vezes deixam de ser trabalhados com a seriedade e a complexidade que o assunto exigiria. Transformam-se, deste modo, em mais um objeto de [inquéritos] sobre ser contra ou a favor, em mais um caça-cliques gerador de polémicas nas redes sociais. Anula-se, assim, sua potência como forma de conhecimento.” (...) 

A autora conclui defendendo a oportunidade de um tratamento jornalístico sério dos temas religiosos, que deve apostar em determinadas direcções  -  e propõe estas três:

diversidade, considerando que há múltiplas manifestações e crenças possíveis na nossa cultura e que estas podem agendar diferentes pautas, com diferentes abordagens;”

respeito, tendo em conta que aceitar a crença (ou cepticismo) do outro é um princípio básico e irrevogável de qualquer pauta;”

abrangência, pensando que fenómenos religiosos não podem e não devem ser simplificados ou relegados a polémicas e factualidades diárias: é preciso tratá-los com a seriedade e a complexidade que exigem.” 

 

O Comentário da Semana na íntegra, em ObjEthos, de onde colhemos as imagens utilizadas

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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