Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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Sobre a necessidade de um jornalismo sério e crítico relacionado com temas religiosos

Há temas considerados polémicos demais, que muitas vezes se evitam com o argumento de que “isso não se discute”. Mas o jornalismo trata deles, nem podia deixar de o fazer  - por exemplo, de política e de futebol. E quando o assunto é religião? “É possível ao jornalismo estabelecer uma cobertura sobre diferentes manifestações religiosas, suas datas, suas crenças e, mais além, seus dogmas e mitos?” Esta reflexão é do Comentário da Semana de ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, e a resposta é que sim.

A autora do texto que citamos propõe exemplos “que apontam para uma apreciação antropológica, sociológica, cultural e política de fenómenos que integram o quotidiano dos leitores. Nesses casos, o jornalismo se faz útil não só para os fiéis, que podem se aprofundar em assuntos dos seus interesses, mas até para os leitores cépticos, que sabem o papel da religião e principalmente das igrejas na estrutura social” . (...) 

Deste modo, “o leitor é convidado a saber, a conhecer e a desvendar aquilo que é apresentado como um acontecimento factual, singular. Mais do que isso: ao ser chamado a reflectir sobre um dos assuntos que mais interessam à humanidade, torna-se apto a participar do debate público, accionando um repertório para além daquele que adquiriu em contacto com a fé ou nas aulas de edução religiosa”. 

Amanda Miranda, doutoranda no POSJOR e pesquisadora do ObjEthos, dá como exemplo o caderno especial que A Folha de São Paulo editou a propósito dos “500 anos da Reforma protestante, liderada por Martinho Lutero como crítica ao papado e a determinados preceitos católicos – para debater um assunto que não costuma ser agendado com frequência”. 

“O periódico trouxe um trabalho bastante completo, apontando para questões relacionadas à cultura e à história, como o papel da mulher de Lutero no movimento; passando por um debate sobre as diferenças entre católicos e protestantes e chegando a duas pautas urgentes: a que discute o avanço das igrejas neopentecostais, como Assembleia de Deus e Universal, e a emergência de bancadas evangélicas no Legislativo.” (...)


 

“O caderno é exemplar no que se refere à abrangência e complexidade que uma pauta como estas exige. Ao trabalhar com um assunto que mobiliza crenças e paixões, simplificá-lo ou polemizar em torno dele em busca de cliques é a tarefa mais fácil  – e muitas vezes é a escolha de grandes jornais. Desmembrar o assunto em pautas que optem por complexificar o fenómeno, trazendo dados novos e interpretações plurais, exige tempo e árduo trabalho de reportagem.” (...) 

A autora cita depois outro caso, o do Diário Catarinense, que “investiu no localismo, ao apontar para a formação da identidade cultural catarinense a partir da influência do luteranismo. Trata-se de uma abordagem cultural e sócio-histórica original que não deixa de discutir questões actuais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os exemplos mostram uma dimensão do jornalismo que pode impulsionar a formação de um leitor crítico a respeito do mundo que o cerca, resgatando sua função original, tão em desuso em tempos de notícias caça-cliques”. 

Amanda Miranda cita depois outros casos, em que o agendamento jornalístico “pode ser subvertido por factualidades que retratam um momento de ascensão do conservadorismo e da onda de intolerância no país”. (...) 

“Como no debate sobre aborto e sobre a destruição dos terreiros [de mães-de-santo] no Rio de Janeiro, estamos falando de factos que se tornaram pauta jornalística pela sua singularidade, mas que muitas vezes deixam de ser trabalhados com a seriedade e a complexidade que o assunto exigiria. Transformam-se, deste modo, em mais um objeto de [inquéritos] sobre ser contra ou a favor, em mais um caça-cliques gerador de polémicas nas redes sociais. Anula-se, assim, sua potência como forma de conhecimento.” (...) 

A autora conclui defendendo a oportunidade de um tratamento jornalístico sério dos temas religiosos, que deve apostar em determinadas direcções  -  e propõe estas três:

diversidade, considerando que há múltiplas manifestações e crenças possíveis na nossa cultura e que estas podem agendar diferentes pautas, com diferentes abordagens;”

respeito, tendo em conta que aceitar a crença (ou cepticismo) do outro é um princípio básico e irrevogável de qualquer pauta;”

abrangência, pensando que fenómenos religiosos não podem e não devem ser simplificados ou relegados a polémicas e factualidades diárias: é preciso tratá-los com a seriedade e a complexidade que exigem.” 

 

O Comentário da Semana na íntegra, em ObjEthos, de onde colhemos as imagens utilizadas

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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