Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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A notícia da morte do jornalismo é manifestamente exagerada...

“O jornalismo morreu!”  -  é a afirmação ouvida insistentemente, mas contestada pelo jornalista brasileiro Paulo Silvestre, consultor dos media e cultura digital, que afirma que “o jornalismo nunca esteve tão vivo”:  
“Para mim, a história da morte do jornalismo faz parte de uma tríade de bobagens que me incomodam há alguns anos. As outras duas são que as pessoas não lêem mais, e que não querem mais pagar por conteúdo.” A sua reflexão vem no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Para o autor, o facto é que “as pessoas nunca consumiram tanto conteúdo, inclusive jornalístico. E, apesar do avanço do vídeo digital, a maior parte de todo esse conteúdo chega de forma escrita. A responsável por isso é a combinação dos smartphones com as redes sociais, que começou a se desenhar há uns dez anos”. 

“O primeiro é um computador poderoso, permanentemente online, que carregamos em nosso bolso para onde formos. Já as segundas cumprem o papel de seleccionar e entregar o conteúdo de acordo com as nossas necessidades. Ou seja, as pessoas nem precisam ir até as notícias: elas vêm até ao público.” (...) 

E Paulo Silvestre adianta:

“O problema disso é que as pessoas consomem cada vez mais o que os algoritmos de relevância das redes sociais consideram interessante, o que não é necessariamente bom. Perde força a curadoria feita pelos editores, sendo substituída pelas curtidas dos nossos amigos, que ajudam o Facebook e afins a determinar o que deve ser promovido.” 

“Sem entrar no mérito de que isso aumenta enormemente o risco de deixarmos de consumir conteúdo que deveríamos, isso nos leva à terceira das bobagens acima, aquela que diz que as pessoas não querem mais pagar por conteúdo. Sim, as pessoas pagam por conteúdo, desde que faça sentido para elas!” (...) 

O autor cita depois o exemplos de duas primeiras páginas quase iguais, de dois jornais brasileiros de referência, para fazer a sua crítica ao tipo de jornalismo que praticam: 

“O facto de serem incrivelmente parecidas não é coincidência. Resulta do facto de que os veículos têm investido pouco em reportagem, que é a alma do bom jornalismo. Ao invés disso, vivem de denúncias, de ‘jornalismo palaciano’ (acompanhamento de acontecimentos de fontes oficiais), de denuncismo. Ou seja, uma mesmice crónica resultante de uma apuração rasa, feita por uma mão de obra cada vez menos qualificada e barata (os mais experientes  — e caros — foram quase todos demitidos nos últimos anos).” 

Por contraste, cita o exemplo de The Washington Post e a transformação que nele foi operada pelo novo proprietário, Jeff Bezos, que “aplicou ao jornalão duas de suas máximas mais conhecidas: ‘preste mais atenção em seus consumidores que em seus concorrentes’ e ‘se você dobra seus experimentos, você duplica sua inventividade’.” 

“Em outras palavras, foi necessário um mogul do e-commerce para meter o dedo na ferida do jornal e fazer as mudanças necessárias, inclusive correndo riscos. Tudo para se aproximar de seu cliente, tornar o seu produto mais relevante.” (...)

 

O artigo na íntegra, no Observatório da Imprensa

 

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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