Quarta-feira, 30 de Novembro, 2022
Prémio

Wim Wenders: só a nossa herança cultural pode salvar a “casa comum” europeia

O cineasta Wim Wenders definiu a Europa como um “Paraíso” envolvido em problemas, não sendo ela o problema, mas a solução: “Só a Europa, nossa casa comum, nos pode proteger do furacão expondo-nos ao nosso próprio vento e clima, só a Europa tem condições para proteger, guardar, restaurar, conservar e alimentar a nossa herança completa debaixo do seu telhado.” Em resposta, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa defendeu a urgência de conquistar para esta batalha cultural as jovens gerações, “aqueles que não conheceram a II Guerra” nem têm memória do “caminho difícil para sermos aquilo a que chegámos”. Afirmou que Wim Wenders “nunca foi estrangeiro em Portugal, foi sempre um português que vivia Portugal de uma forma original”, e atribuíu-lhe a condecoração da Ordem do Mérito.

Foi assim na entrega do 5º Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, cujo júri assumiu também, por unanimidade, um reconhecimento público de homenagem à Deputada italiana no Parlamento Europeu Silvia Costa, pelo seu empenhamento cívico em defesa da Cultura e da Educação, com papel importante na decisão, tomada pela UE, de celebrar 2018 como o Ano Europeu do Património Cultural.
Para Dinis de Abreu, que interveio em nome do Clube Português de Imprensa, este Prémio Helena Vaz da Silva também consagra a sua coragem "de conviver com a utopia e de ser capaz de abrir portas ao futuro, como quem sabe pertencer-lhe".

O acto, realizado na Fundação Calouste Gulbenkian, é o ponto alto de uma iniciativa do Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a “Europa Nostra”, que representa em Portugal, e em parceria com o Clube Português de Imprensa. 

A apresentação do premiado coube a Pedro Mexia, assessor do Presidente da República para a Cultura, que descreveu o seu percurso criativo como realizador, desde a primeira fase “alemã” até à “fase americana” e à dos documentários, passando pelo nosso País e, nomeadamente, por Lisboa, com dois filmes importantes, O Estado das Coisas e Lisbon Story

“Eis uma boa maneira de saudar Wim Wenders”  -  disse Pedro Mexia. “Todos lhe devemos alguma coisa. E agradeço a hipótese que me deram de lhe agradecer.”  (...) 

O próprio Wim Wenders referiu o facto de ser “uma pessoa visual” para situar a presente crise global, de uma civilização “em que tudo era real, podia ser tocado e entregue fisicamente”, para uma nova fase em que cada vez menos coisas são tangíveis e “até os nossos amigos se tornam fictícios, são dados”. 

A sua proposta foi a de usarmos Lisboa como o ponto de apoio da alavanca descrita por Arquimedes, em função do qual possamos elevar o nosso mundo, nomeadamente a Europa como “desejamos que seja”. 

Conforme disse, os nacionalismos que prometem o regresso a um passado de exclusão recíproca têm sucesso porque muitas pessoas sentem medo, no meio desta crise “em que já não podem tocar nas coisas, e desejam de novo alguma coisa tangível, querem segurar-se a algo que conheçam”. Mas, ao fazê-lo, “agarram-se a um passado que vai mantê-las no passado”.  (...) 

São aqui culpados, segundo Wim Wenders, os “flautistas enganadores” [como no conto dos irmãos Grimm] que deram a muitos eleitorados europeus informação errada sobre as escolhas à sua frente. A esperança não está nos bancos nem na finança, e “foi um grande erro termos deixado a Europa baseada nisso tempo demais; permitimos que ela fosse uma entidade financeira seca”. (...) 

A única resposta, como afirmou, reside na nossa verdadeira herança e cultura comum, “esse precioso depósito imaterial, o somatório de todos os nossos pensadores, compositores, pintores, oleiros, poetas e sacerdotes, escritores, músicos, arquitectos, historiadores e cientistas, com grandes e fortes mulheres entre todos eles, actores, realizadores, teólogos, comediantes, médicos, inventores e professores”.  (...) 

De modo semelhante, o Presidente da República afirmou que “a Cultura é a pedra de toque nesta batalha pela Europa; ou ganhamos culturalmente, ou perdemos culturalmente”. 

“Não se ganha nas finanças, não se ganha na economia, porque finanças e economia há outros que as têm, tão boas quanto as nossas. (...)  Ganha-se em não ter vergonha do nosso património cultural, em ter, pelo contrário, auto-estima relativamente a esse património.” (...) 

“E o momento que atravessamos, e vamos atravessar no próximo ano e meio, é decisivo  -  antes das eleições europeias de 2019. É decisivo, porque todas as semanas corremos o risco de ter uma má notícia, aqui a chegada ao poder de orientações ou de tendências cépticas em relação à Europa, acolá compromissos ou coligações que têm de ser feitas com eurocépticos… E esta realidade espalha-se como mancha de óleo.” 

Afirmou ainda Marcelo Rebelo de Sousa:

“É verdade que a Europa está a pagar a factura de ter sido um projecto vanguardista que se esqueceu muitas vezes de se alargar às opiniões públicas. Acreditava que bastava que algumas elites fossem europeístas para que os povos fossem europeístas. E essas elites distanciaram-se dos povos. Esqueceram os povos. Entenderam que não era preciso fazer pedagogia europeia. Que não era preciso todos os dias fazer pedagogia da liberdade, da democracia, da compreensão, do diálogo, da coesão e, portanto, da Europa.”  (...) 

Também a Deputada Silvia Costa, distinguida com um reconhecimento especial pelo júri do Prémio Helena Vaz da Silva, definiu a diversidade cultural europeia e a sua herança, “à luz dos valores comuns da liberdade de expressão, dignidade humana, democracia e paz”, como parte integral da “paisagem identitária” europeia: 

“Estes valores têm estado no centro de todas as medidas culturais e educacionais que tenho proposto e desenvolvido em toda a minha carreira, focada também na construção de caminhos de diálogo inter-cultural e inter-religioso, construindo pontes em vez de muros!” (...) 

“Numa Europa desafiada pela globalização e pela revolução digital, por novas dificuldades geracionais, bem como por nacionalismos e populismos, compreendemos finalmente que não haverá uma política de relações exteriores, uma política de desenvolvimento ou uma política de segurança sem uma dimensão ética e cultural.”  (...) 

No seu discurso de elogio da Deputada Silvia Costa, Guilherme d’Oliveira Martins sublinhou especialmente a sua “acção muito relevante na Comissão de Cultura e Educação” do Parlamento Europeu, bem como o “importantíssimo papel” por si desempenhado na “decisão da União Europeia de considerar o ano de 2018 como Ano Europeu do Património Cultural”: 

“E estamos certos de que a nossa homenageada será um elemento fundamental para esta importante iniciativa. De facto, podemos dizer que é a continuação e o aprofundamento da experiência fecundíssima de Helena que a Deputada Silvia Costa prossegue com determinação, entusiasmo e inteligência. Ninguém melhor, pois, para receber hoje esta distinção.”

_______________________

 

A cerimónia foi aberta por Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, que começou por felicitar os vencedores portugueses do Prémio Europa Nostra 2017, nomeadamente o projecto de reabilitação da Igreja e Torre dos Clérigos, no Porto, e o mestrado em Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, um programa. 

Sublinhou especialmente, em relação ao primeiro, que fora já distinguido, em 2016, pelo Prémio Vasco Vilalva da própria Fundação Gulbenkian, no âmbito do cinquentenário da sua existência. 

Proferiu uma palavra de evocação da memória de Helena Vaz da Silva, “a grande mulher da Cultura, uma das primeiras e mais importantes jornalistas culturais e dinamizadoras da Cultura do nosso País, que dá o nome a este prémio, que se quer destinado a criadores e pensadores de excepção; recordo-a com especial afecto”. 

Falou seguidamente Maria Calado, presidente do Centro Nacional de Cultura, que recordou o “particular significado” europeu do Prémio instituído, sublinhando, na sua organização, os apoios e envolvimentos com que conta, do sector institucional público os Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, e o Turismo de Portugal; e do sector privado a fundação Calouste Gulbenkian. Sublinhou igualmente as relações de parceria com a “Europa Nostra” e o Clube Português de Imprensa. 

O Ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes, evocou igualmente Helena Vaz da Silva, como alguém que “soube interpretar e liderar uma organização cultural da sociedade civil que foi forjada nos difíceis tempos da Ditadura como bastião do debate livre de ideias e de projectos para a sociedade Portuguesa”. 

Informou ainda que o seu Ministério convidou  Guilherme d’Oliveira Martins para chefiar a Comissão do Ano Europeu do Património Cultural 2018, “encarregada de de promover as necessárias campanhas de sensibilização da sociedade civil para o desígnio nacional e imperativo político de defender, salvaguardar e promover o Património Cultural”. (...) 

A apresentação do Projecto de Reabilitação e Valorização da Igreja e Torre dos Clérigos foi feita pelo Arqº João Carlos dos Santos, e a do Mestrado em Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, programa europeu coordenado em Guimarães, pelo Engº Paulo Lourenço. 

Ambas as apresentações foram complementadas com a projecção de um vídeo explicativo sobre os referidos processos de reabilitação dos patrimónios envolvidos. 

No início do acto formal de entrega do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, voltou a falar a Presidente do Centro Nacional de Cultura, Maria Calado, que cumprimentou de modo especial o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, como “um colaborador, interveniente activo em múltiplas actividades do CNC, sócio honorário e, por inerência, membro do Grande Conselho, por decisão expressa e unânime da nossa última Assembleia Geral”. 

Referiu-se também ao lançamento, nesta data, do concurso de ideias “Vamos Mudar o Mundo”, em pareceria com a revista Egoísta, mas também com o patrocínio do Presidente da República. 

Falou ainda Dinis de Abreu, presidente do Clube Português de Imprensa, que recordou o percurso de vida de Helena Vaz da Silva, “numa permanente luta contra o tempo, como se o tempo nunca lhe bastasse, mesmo na idade em que o tempo não ainda contava”. Citou o seu envolvimento no jornalismo, “entre O Tempo e o Modo, em nome do pensamento e da acção, e a Raiz e Utopia, já inconformista e virada para o debate das grandes temáticas que apaixonavam”. 

Recordou também a sua obra no Centro Nacional de Cultura, "numa altura em que tudo apontava para o seu definhamento irreversível", a sua coragem e apego à vida. Helena Vaz da Silva  - disse -  "era uma mulher que pensava e fazia, fiel a valores dos quais nunca abdicou".

"Sabe bem evocar o seu exemplo, num tempo incerto e caótico, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios. A Helena foi sempre uma mulher combativa, ao dar a cara pelas causas em que acreditava. Na Cultura e fora dela."

“Este Prémio também consagra essa coragem de conviver com a utopia e de ser capaz de abrir portas ao futuro, como quem sabe pertencer-lhe”  -  concluíu Dinis de Abreu.

 

 

As imagens aqui utilizadas são recolhidas do site da Presidência da República

Connosco
Maestrina Oksana Lyniv recebeu o Prémio Helena Vaz da Silva na Fundação Gulbenkian Ver galeria

Numa cerimónia realizada no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, foi homenageada a maestrina ucraniana Oksana Lyniv, vencedora do Prémio Helena Vaz da Silva, atribuído anualmente pelo Centro Nacional de Cultura, com o apoio da Europa Nostra e do Clube Português de Imprensa.

Na cerimónia, presidida pelo Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, e sendo anfitrião Guilherme de Oliveira Martins, administrador da Fundação, a figura e a carreira de Oksana Lyniv foi apresentada pela maestrina Joana Carneiro.

Impossibilitada de se deslocar a Portugal, por motivos pessoas insuperáveis, foi o seu pai quem recebeu o prémio, em sua representação.

Recorde-se que a vencedora da décima edição do Prémio Helena Vaz da Silva concedeu, entretanto, uma entrevista ao semanário Expresso, na qual declarou que a invasão russa do seu país é uma clara tentativa de destruir uma nação, tendo sido, completamente, motivada por ódio.

Em relação à família que tem na Ucrânia, a vencedora do prémio revelou que estes querem permanecer no país, dedicando-se a acolher e ajudar várias famílias de refugiados.

Lyniv comentou, também, o papel dos artistas na guerra, descrevendo as grandes obras artísticas como “canais para comunicar algo importante”. De acordo com a maestrina, “quando olhamos [para] a história da cultura, e estudamos as obras e o contexto em que foram criadas, vemos que os grandes artistas — Michelangelo, Mozart ou Beethoven — agiram dentro de uma sociedade, por vezes uns passos à frente dela”.

No entanto, Lyniv admitiu que o papel que a arte e os artistas assumem tem vindo a ser cada vez mais explorado e usado para fins de propaganda, como é o caso do maestro russo Valery Gergiev, que se tornou “uma bandeira do regime ditatorial de Putin”.

Em relação à sua carreira profissional, Lyniv revelou que a sua decisão para se tornar maestrina foi tomada aos 18 anos, depois de descobrir que as mulheres podiam ocupar esse cargo. Após obter o seu diploma na Academia de Música de Lviv e ganhar o terceiro prémio no Concurso Gustav Mahler, em 2004, a maestrina prosseguiu a sua formação em Dresden, na Alemanha.

Lyniv acrescentou, igualmente, que “o seu primeiro cargo fixo veio da Ópera Nacional de Odessa, como maestrina assistente”, tendo também oportunidade de trabalhar na Ópera do Estado da Bavária, como assistente de Kirill Petrenko.

Apesar de ser a directora musical do Teatro Comunale di Bologna, sendo “a primeira mulher à frente de uma casa de ópera italiana”, Lyniv confessou que inclui sempre compositores ucranianos em todos os seus concertos, o que passou a constituir a sua “imagem de marca”.

Numa última reflexão acerca das mulheres na regência de orquestras, Lyniv admitiu que “já existem jovens maestrinas fantásticas” e que tudo indica que se trata de um movimento imparável.

A transformação digital dos "media" e os vários modelos utilizados Ver galeria

Os media estão, actualmente, a passar por uma transformação digital, mudança que ganhou mais balanço após a pandemia ter “acelerado a quebra da circulação e publicidade das edições impressas” e a invasão russa da Ucrânia ter “disparado os preços da tinta e do papel”.

Apesar de não existir um modelo específico para a transformação dos media, o director do Evoca Media, Pepe Cerezo, sublinhou que são essenciais três “pilares” para “estabelecer uma estratégia de negócios digitais”, nomeadamente, inovação e adaptação, diversificação, e hibridização.

Estes três elementos implicam que as fontes de receita devem ser obtidas a partir de diversas fontes (assinaturas, publicidade, lojas online), utilizando modelos que se adaptam a diferentes públicos e mercados e que respondem às necessidades e aos hábitos de consumo dos utilizadores.

O aumento da publicidade digital, uma das maiores fontes de receita, hoje em dia, tem vindo a desacelerar, devido, em parte, à mudança a que esta foi sujeita, causada pela “pelo desaparecimento dos cookies de terceiros”.

A falta de cookies de terceiros torna mais difícil aspectos como a criação de perfis de utilizadores, a sua monotorização e a adaptação às suas necessidades, implicando que as empresas devem desenvolver um “relacionamento individual com os utilizadores” para recolher esses dados.

Existe, também, a opção de utilizar “tecnologia baseada na recolha, armazenamento e análise de cookies”, que permite adaptar a publicidade aos hábitos do utilizador, baseando-se, por exemplo, no seu histórico de navegação, pesquisas, compras anteriores e links clicados. 

O Clube


Lançado em novembro de 2016, este site do Clube Português de Imprensa tem mantido, desde então, uma actividade regular, com actualizações diárias, quer sobre iniciativas próprias da Associação, quer sobre a actualidade relacionada com os media portugueses e internacionais.

O site tem sido, ainda, um fórum de debate e de reflexão sobre as questões que se colocam ao jornalismo e aos jornalistas, reunindo a opinião de vários colunistas e textos editados por instituições com as quais celebrámos parcerias, desde o Observatório de Imprensa do Brasil à Asociacion de la Prensa de Madrid ou ao jornal “A Tribuna” de Macau.

Em seis anos de presença online constante, com um crescimento assinalável de visitantes, é natural que o site deva corresponder a essa procura, reinventando-se e procedendo a uma actualização tecnológica.

Pela sua natureza, essa modernização conceptual implicará algumas modificações na frequência e rotatividade de conteúdos, já a partir de outubro. É uma transição necessária.

Continuamos a contar com o interesse e adesão dos associados, além dos muitos milhares de frequentadores deste site, que constituem um valioso incentivo para quem contribui, sem outras ambições nem dependências, para um suporte digital que é um dos principais “cartões de visita” do Clube Português de Imprensa, fundado em 1980.  

 

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