null, 26 de Maio, 2019
Prémio

Wim Wenders: só a nossa herança cultural pode salvar a “casa comum” europeia

O cineasta Wim Wenders definiu a Europa como um “Paraíso” envolvido em problemas, não sendo ela o problema, mas a solução: “Só a Europa, nossa casa comum, nos pode proteger do furacão expondo-nos ao nosso próprio vento e clima, só a Europa tem condições para proteger, guardar, restaurar, conservar e alimentar a nossa herança completa debaixo do seu telhado.” Em resposta, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa defendeu a urgência de conquistar para esta batalha cultural as jovens gerações, “aqueles que não conheceram a II Guerra” nem têm memória do “caminho difícil para sermos aquilo a que chegámos”. Afirmou que Wim Wenders “nunca foi estrangeiro em Portugal, foi sempre um português que vivia Portugal de uma forma original”, e atribuíu-lhe a condecoração da Ordem do Mérito.

Foi assim na entrega do 5º Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, cujo júri assumiu também, por unanimidade, um reconhecimento público de homenagem à Deputada italiana no Parlamento Europeu Silvia Costa, pelo seu empenhamento cívico em defesa da Cultura e da Educação, com papel importante na decisão, tomada pela UE, de celebrar 2018 como o Ano Europeu do Património Cultural.
Para Dinis de Abreu, que interveio em nome do Clube Português de Imprensa, este Prémio Helena Vaz da Silva também consagra a sua coragem "de conviver com a utopia e de ser capaz de abrir portas ao futuro, como quem sabe pertencer-lhe".

O acto, realizado na Fundação Calouste Gulbenkian, é o ponto alto de uma iniciativa do Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a “Europa Nostra”, que representa em Portugal, e em parceria com o Clube Português de Imprensa. 

A apresentação do premiado coube a Pedro Mexia, assessor do Presidente da República para a Cultura, que descreveu o seu percurso criativo como realizador, desde a primeira fase “alemã” até à “fase americana” e à dos documentários, passando pelo nosso País e, nomeadamente, por Lisboa, com dois filmes importantes, O Estado das Coisas e Lisbon Story

“Eis uma boa maneira de saudar Wim Wenders”  -  disse Pedro Mexia. “Todos lhe devemos alguma coisa. E agradeço a hipótese que me deram de lhe agradecer.”  (...) 

O próprio Wim Wenders referiu o facto de ser “uma pessoa visual” para situar a presente crise global, de uma civilização “em que tudo era real, podia ser tocado e entregue fisicamente”, para uma nova fase em que cada vez menos coisas são tangíveis e “até os nossos amigos se tornam fictícios, são dados”. 

A sua proposta foi a de usarmos Lisboa como o ponto de apoio da alavanca descrita por Arquimedes, em função do qual possamos elevar o nosso mundo, nomeadamente a Europa como “desejamos que seja”. 

Conforme disse, os nacionalismos que prometem o regresso a um passado de exclusão recíproca têm sucesso porque muitas pessoas sentem medo, no meio desta crise “em que já não podem tocar nas coisas, e desejam de novo alguma coisa tangível, querem segurar-se a algo que conheçam”. Mas, ao fazê-lo, “agarram-se a um passado que vai mantê-las no passado”.  (...) 

São aqui culpados, segundo Wim Wenders, os “flautistas enganadores” [como no conto dos irmãos Grimm] que deram a muitos eleitorados europeus informação errada sobre as escolhas à sua frente. A esperança não está nos bancos nem na finança, e “foi um grande erro termos deixado a Europa baseada nisso tempo demais; permitimos que ela fosse uma entidade financeira seca”. (...) 

A única resposta, como afirmou, reside na nossa verdadeira herança e cultura comum, “esse precioso depósito imaterial, o somatório de todos os nossos pensadores, compositores, pintores, oleiros, poetas e sacerdotes, escritores, músicos, arquitectos, historiadores e cientistas, com grandes e fortes mulheres entre todos eles, actores, realizadores, teólogos, comediantes, médicos, inventores e professores”.  (...) 

De modo semelhante, o Presidente da República afirmou que “a Cultura é a pedra de toque nesta batalha pela Europa; ou ganhamos culturalmente, ou perdemos culturalmente”. 

“Não se ganha nas finanças, não se ganha na economia, porque finanças e economia há outros que as têm, tão boas quanto as nossas. (...)  Ganha-se em não ter vergonha do nosso património cultural, em ter, pelo contrário, auto-estima relativamente a esse património.” (...) 

“E o momento que atravessamos, e vamos atravessar no próximo ano e meio, é decisivo  -  antes das eleições europeias de 2019. É decisivo, porque todas as semanas corremos o risco de ter uma má notícia, aqui a chegada ao poder de orientações ou de tendências cépticas em relação à Europa, acolá compromissos ou coligações que têm de ser feitas com eurocépticos… E esta realidade espalha-se como mancha de óleo.” 

Afirmou ainda Marcelo Rebelo de Sousa:

“É verdade que a Europa está a pagar a factura de ter sido um projecto vanguardista que se esqueceu muitas vezes de se alargar às opiniões públicas. Acreditava que bastava que algumas elites fossem europeístas para que os povos fossem europeístas. E essas elites distanciaram-se dos povos. Esqueceram os povos. Entenderam que não era preciso fazer pedagogia europeia. Que não era preciso todos os dias fazer pedagogia da liberdade, da democracia, da compreensão, do diálogo, da coesão e, portanto, da Europa.”  (...) 

Também a Deputada Silvia Costa, distinguida com um reconhecimento especial pelo júri do Prémio Helena Vaz da Silva, definiu a diversidade cultural europeia e a sua herança, “à luz dos valores comuns da liberdade de expressão, dignidade humana, democracia e paz”, como parte integral da “paisagem identitária” europeia: 

“Estes valores têm estado no centro de todas as medidas culturais e educacionais que tenho proposto e desenvolvido em toda a minha carreira, focada também na construção de caminhos de diálogo inter-cultural e inter-religioso, construindo pontes em vez de muros!” (...) 

“Numa Europa desafiada pela globalização e pela revolução digital, por novas dificuldades geracionais, bem como por nacionalismos e populismos, compreendemos finalmente que não haverá uma política de relações exteriores, uma política de desenvolvimento ou uma política de segurança sem uma dimensão ética e cultural.”  (...) 

No seu discurso de elogio da Deputada Silvia Costa, Guilherme d’Oliveira Martins sublinhou especialmente a sua “acção muito relevante na Comissão de Cultura e Educação” do Parlamento Europeu, bem como o “importantíssimo papel” por si desempenhado na “decisão da União Europeia de considerar o ano de 2018 como Ano Europeu do Património Cultural”: 

“E estamos certos de que a nossa homenageada será um elemento fundamental para esta importante iniciativa. De facto, podemos dizer que é a continuação e o aprofundamento da experiência fecundíssima de Helena que a Deputada Silvia Costa prossegue com determinação, entusiasmo e inteligência. Ninguém melhor, pois, para receber hoje esta distinção.”

_______________________

 

A cerimónia foi aberta por Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, que começou por felicitar os vencedores portugueses do Prémio Europa Nostra 2017, nomeadamente o projecto de reabilitação da Igreja e Torre dos Clérigos, no Porto, e o mestrado em Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, um programa. 

Sublinhou especialmente, em relação ao primeiro, que fora já distinguido, em 2016, pelo Prémio Vasco Vilalva da própria Fundação Gulbenkian, no âmbito do cinquentenário da sua existência. 

Proferiu uma palavra de evocação da memória de Helena Vaz da Silva, “a grande mulher da Cultura, uma das primeiras e mais importantes jornalistas culturais e dinamizadoras da Cultura do nosso País, que dá o nome a este prémio, que se quer destinado a criadores e pensadores de excepção; recordo-a com especial afecto”. 

Falou seguidamente Maria Calado, presidente do Centro Nacional de Cultura, que recordou o “particular significado” europeu do Prémio instituído, sublinhando, na sua organização, os apoios e envolvimentos com que conta, do sector institucional público os Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, e o Turismo de Portugal; e do sector privado a fundação Calouste Gulbenkian. Sublinhou igualmente as relações de parceria com a “Europa Nostra” e o Clube Português de Imprensa. 

O Ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes, evocou igualmente Helena Vaz da Silva, como alguém que “soube interpretar e liderar uma organização cultural da sociedade civil que foi forjada nos difíceis tempos da Ditadura como bastião do debate livre de ideias e de projectos para a sociedade Portuguesa”. 

Informou ainda que o seu Ministério convidou  Guilherme d’Oliveira Martins para chefiar a Comissão do Ano Europeu do Património Cultural 2018, “encarregada de de promover as necessárias campanhas de sensibilização da sociedade civil para o desígnio nacional e imperativo político de defender, salvaguardar e promover o Património Cultural”. (...) 

A apresentação do Projecto de Reabilitação e Valorização da Igreja e Torre dos Clérigos foi feita pelo Arqº João Carlos dos Santos, e a do Mestrado em Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, programa europeu coordenado em Guimarães, pelo Engº Paulo Lourenço. 

Ambas as apresentações foram complementadas com a projecção de um vídeo explicativo sobre os referidos processos de reabilitação dos patrimónios envolvidos. 

No início do acto formal de entrega do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, voltou a falar a Presidente do Centro Nacional de Cultura, Maria Calado, que cumprimentou de modo especial o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, como “um colaborador, interveniente activo em múltiplas actividades do CNC, sócio honorário e, por inerência, membro do Grande Conselho, por decisão expressa e unânime da nossa última Assembleia Geral”. 

Referiu-se também ao lançamento, nesta data, do concurso de ideias “Vamos Mudar o Mundo”, em pareceria com a revista Egoísta, mas também com o patrocínio do Presidente da República. 

Falou ainda Dinis de Abreu, presidente do Clube Português de Imprensa, que recordou o percurso de vida de Helena Vaz da Silva, “numa permanente luta contra o tempo, como se o tempo nunca lhe bastasse, mesmo na idade em que o tempo não ainda contava”. Citou o seu envolvimento no jornalismo, “entre O Tempo e o Modo, em nome do pensamento e da acção, e a Raiz e Utopia, já inconformista e virada para o debate das grandes temáticas que apaixonavam”. 

Recordou também a sua obra no Centro Nacional de Cultura, "numa altura em que tudo apontava para o seu definhamento irreversível", a sua coragem e apego à vida. Helena Vaz da Silva  - disse -  "era uma mulher que pensava e fazia, fiel a valores dos quais nunca abdicou".

"Sabe bem evocar o seu exemplo, num tempo incerto e caótico, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios. A Helena foi sempre uma mulher combativa, ao dar a cara pelas causas em que acreditava. Na Cultura e fora dela."

“Este Prémio também consagra essa coragem de conviver com a utopia e de ser capaz de abrir portas ao futuro, como quem sabe pertencer-lhe”  -  concluíu Dinis de Abreu.

 

 

As imagens aqui utilizadas são recolhidas do site da Presidência da República

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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