Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Novas iniciativas

Isabel Mota em jantar-debate: o Estado não se adaptou às mudanças da sociedade

“Em Portugal, como não tem havido, ao longo dos tempos, uma adaptação do papel do Estado às mudanças da sociedade, verifica-se uma deficiente afectação de recursos, com carências absolutas em áreas fundamentais, da inequívoca responsabilidade do Estado.” Foi nestes termos, propostos como uma espécie de “conclusão provisória”, que Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, abriu o novo ciclo de jantares-debate, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, agora subordinado ao tema genérico “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”. A oradora descreveu esta situação como “resultado acumulado de opções que têm vindo a ser tomadas e que geraram a situação de um Estado que, a meu ver, não tem perímetro”.

Prosseguindo, Isabel Mota referiu-se à importância de “uma discussão que é absolutamente indispensável e tem sido sempre adiada, que tem a ver com a dimensão do Estado Social, e isto numa óptica da justiça inter-geracional”. E afirmou:

 

“Uma das questões que tenho sempre presente, e que muito me preocupa, é a questão das crescentes desigualdades. Nos últimos anos temos assistido, infelizmente, a um aumento dos níveis de desigualdade, tanto em Portugal como nos restantes países desenvolvidos.” 

Em particular no caso português, desdobrou esta preocupação em duas: “por um lado, o facto de a crise financeira ter gerado uma quebra nos rendimentos das famílias, em especial nas de menores rendimentos e, por outro lado, o facto de se verificar uma acumulação excessiva de rendimentos e riqueza no topo da distribuição”. E sublinhou: 

“Não é assim que se constrói um país. Não é assim que se consegue a coesão. Não é assim que se consegue nenhum consenso para podermos andar para a frente.” 

“É necessário, por isso, definir políticas estruturais, que coloquem a economia, de novo, no caminho do crescimento sustentável, que terá que reflectir maior igualdade de oportunidades e uma maior mobilidade social.” (...) 

Isabel Mota integrou, a seguir, esta reflexão no “contexto enorme de alteração dos paradigmas tradicionais, trazida pela revolução digital e pela generalização da robótica e da inteligência artificial, um desafio que não é pequeno e para o qual não haverá, ainda, respostas sólidas”.

 

Na Fundação Gulbenkian, como afirmou, “estamos muito atentos a esta mudança de paradigma”:

 

“A Fundação está empenhada em contribuir  - em conjunto, naturalmente, com a área pública, com o sector privado, e com o terceiro sector -  para uma resposta que garanta que o bem-estar chega a todos e que a dignidade da pessoa humana seja sempre respeitada.”

 

Recordou, a seguir, o tempo em que a Gulbenkian iniciou a sua actividade, em 1956, num país “completamente diferente do que hoje conhecemos”, quando “a intervenção da Fundação teve que se adaptar a essas circunstâncias, ocupando muitos dos espaços em que o Estado de então se tinha demitido de desempenhar a sua função”.

 

Hoje, como disse, “a Fundação Gulbenkian, assumindo-se como agente de mudança, continuará a desenvolver a sua intervenção de forma a contribuir para a produção do conhecimento e para o ensaio de soluções para os principais desafios com que nos confrontamos”.

 

Isabel Mota descreveu este esforço como parte de um projecto que tem de ser colectivo, propondo que tenhamos “um novo olhar para cada um dos sectores”:

 

“No sector público, como já referi, exigem-se novas políticas, que melhor incorporem preocupações de justiça inter-geracional, incluindo aqui, naturalmente, a vertente ambiental, e promovendo melhor eficiência na gestão dos seus recursos, financeiros e humanos, incentivando modelos de governança integrada e descentralizada, bem como novos modelos de contratualização de serviços, orientados para os resultados.”

 

“O sector privado terá de, necessariamente, incorporar a variável de impacto nos seus processos de criação de valor, seja através da incorporação de modelos de sustentabilidade ambiental em toda a sua cadeia de produção, seja pelo apoio ao desenvolviemento de novos modelos de negócio em que o impacto social gerado é determinante para o seu sucesso.”

 

“E o terceiro sector, onde se incluem as Fundações, terá de apostar em novos modelos de gestão e personalizar o trabalho que desenvolve, indo melhor ao encontro das populações que serve. Em síntese, num mundo que se caracteriza por uma crescente imprevisibilidade, um novo exercício de cidadania exige um sector público mais transparente, um sector privado mais responsável e um terceiro sector mais eficaz, e todos temos um papel a desempenhar.” (...)

 

“Por exemplo, no caso da Fundação Gulbenkian, e sempre preservando o seu legado, decidimos que, para os próximos anos, vamos adoptar uma agenda centrada na coesão e na integração social, na sustentabilidade e no conhecimento, alicerçada numa profunda convicção de que a cultura constitui a base de uma sociedade aberta, inclusiva e tolerante.” (...)

 

Isabel Mota fez depois uma reflexão sobre “a mudança dos protagonistas no sector da filantropia e a alteração nos mecanismos clássicos de financiamento”, a que estamos hoje a assistir:

 

“É interessante recordar que os filantropos do séc. XXI serão em certa medida, e já o são, os que construíram fortunas a partir da criação de novas soluções tecnológicas e digitais que, como sabemos, alteraram por completo a vida da sociedade, construindo as grandes empresas globais dos nossos dias.” (...)

 

Citou um deles, Sean Parker, que, ao criar a sua Fundação em Junho de 2015, publicou um manifesto no Washington Post chamado “Philanthropy for Hackers”, no qual afirmou:

“A utopia tecnológica dos hackers já transformou as nossas vidas. Mas o seu maior contributo para a sociedade ainda está para realizar, se quisermos manter o espírito criativo e intelectual que nos trouxe até aqui.”

“Esse contributo, ainda por realizar, diz respeito à interligação entre as novas formas de trabalho e potencialidades da tecnologia e os principais problemas sociais, com que o mundo a cada dia se debate e aos quais não é também alheia a revolução tecnológica.” (...)

 

Neste contexto, Isabel Mota afirmou ser sua convicção “que o movimento fundacional em Portugal tem potencial para fazer mais e melhor” e que “não existe correlação evidente entre riqueza e filantropia no caso de Portugal”.

 

A concluir, sublinhou “a enorme responsabilidade que a nosssa geração tem pela frente, em função da crescente desigualdade dentro e entre países, do impacto das tecnologias, designadamente no mercado de trabalho, e do ritmo vertiginoso em que se processam as mudanças”:

 

“Um relatório recente, do European Foundation Center, com base em inquéritos de diferentes organizações internacionais, aponta para consequências políticas muito graves no mundo ocidental. As principais consequências são: angústia, perda de confiança nas elites, perda de confiança nas instituições democráticas, e, mais preocupante do que tudo, perda de esperança no futuro.”

 

“E aí só me ocorre uma ideia perante isto: a cultura, os valores humanistas, o nosso legado civilizacional, são simultaneamente o nosso refúgio, mas também têm que ser a nossa fonte de inspiração; mas sobretudo eu penso que o inconformismo dos mais jovens é a melhor garantia de que um renovado equilíbrio e um novo contrato social serão possíveis, e que o futuro ainda não está escrito.”

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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