Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
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Estudo revela que muitas pessoas preferem hoje não saber das notícias

Quando julgávamos que a consulta do noticiário mais recente se tinha tornado quase compulsiva, devido à instantaneidade de leitura nos dispositivos portáteis, há hoje um número significativo de pessoas que deliberadamente evitam expor-se às notícias. Fazem-no porque as notícias têm efeito negativo sobre a sua disposição (48%), ou porque já não acreditam que sejam verdadeiras (37%), ou porque acham que não podem fazer nada sobre os problemas que elas contam (28%). A percentagem desta news avoidance é mais alta em países divididos por grande polarização política (38% nos EUA) e menor em países mais estáveis e igualitários, como os nórdicos. Portugal e a Bélgica vêm com 22%, logo a seguir à Suécia, que tem 21%. Estes dados são do Digital News Report 2017, do Reuters Institute.

Os países situados nos dois extremos são, pelo lado da relutância em saber das notícias, a Turquia e a Grécia, “empatadas” nos 57%, e pelo outro lado o Japão, com 6%, seguido da Dinamarca, com 14%. 

No texto de apresentação, Nic Newman sublinha que o relatório deste ano vem muito marcado pelo debate sobre as notícias falsas, a falência dos modelos de sustendo dos media e o crescente poder das plataformas digitais. Há, no entanto, algumas surpresas a registar: 

“A Internet e as redes sociais podem ter exacerbado a quebra de confiança e as fake news, mas em muitos países as motivações para a desconfiança têm muito a ver com uma profunda polarização política e tendenciosismo notado nos meios de referência.” 

“As ‘câmaras de eco’ e as ‘bolhas de filtro’ são sem dúvida reais para muitos, mas também verificamos que, em média, os utentes das redes sociais, dos agregadores [de conteúdos] e dos motores de busca têm experiência de maios diversidade do que os não utentes.” 

“Com dados de mais de 30 países de cinco continentes, este relatório recorda-nos que a revolução digital está cheia de contradições e de excepções. Há países que partiram de difrentes lugares, e agora se movem ao mesmo ritmo. Estas diferenças estão registadas em páginas individuais, por países, que se encontram no final do relatório.” (...) 

A primeira das “principais conclusões” destacadas no texto de apresentação é a respeito do uso das redes sociais como fonte de notícias: 

“O crescimento no uso das redes sociais como meio para receber notícias está a baixar em vários mercados, à medida que as aplicações de mensagens, que são mais privadas e não filtram tanto os conteúdos por meio dos seus algoritmos, estão a tornar-se mais populares. O uso do WhatsApp para acesso às notícias começa a rivalizar com o Facebook em vários mercados, incluindo a Malásia (51%), o Brasil (46%) e a Espanha (32%). (...) 

“É notável que, à excepção dos EUA e do Reino Unido, este crescimento esteja a baixar. Na maior parte dos países parou, e temos visto um declínio significativo em Portugal (-4), na Itália (-5), na Austrália e no Brasil (ambos -6).” 

“Pode tratar-se apenas de uma saturação do mercado, ou pode ter a ver com as mudanças nos algoritmos do Facebook em 2016, que tendem a dar prioridade à comunicação entre amigos e família, acima do conteúdo noticioso profissional. O Reino Unido e os Estados Unidos podem ter sido excepções porque os debates de natureza escaldante sobre a eleição e o referendo se passaram sobretudo nas redes sociais.” (...) 

“Apenas um quarto (24%) dos que responderam ao inquérito pensam que as redes sociais fazem bom trabalho na separação entre facto e ficção, comparando com os 40% que se referem aos meios noticiosos. Os dados qualitativos sugerem que os utentes sentem que a combinação de falta de regras com os algoritmos ‘virais’ contribuem para qua a baixa qualidade e as fake news proliferem rapidamente.” (...) 


O destaque sobre os que evitam as notícias e o texto de apresentação do Digital News Report 2017, que pode ser aberto em PDF

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
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