Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Colectânea

Estudo revela que muitas pessoas preferem não saber das notícias

Quando julgávamos que a consulta do noticiário mais recente se tinha tornado quase compulsiva, devido à instantaneidade de leitura nos dispositivos portáteis, há um número significativo de pessoas que deliberadamente evitam expor-se às notícias. Fazem-no porque as notícias têm efeito negativo sobre a sua disposição (48%), ou porque já não acreditam que sejam verdadeiras (37%), ou porque acham que não podem fazer nada sobre os problemas que elas contam (28%). A percentagem desta news avoidance é mais alta em países divididos por grande polarização política (38% nos EUA) e menor em países mais estáveis e igualitários, como os nórdicos. Portugal e a Bélgica vêm com 22%, logo a seguir à Suécia, que tem 21%. Estes dados são do Digital News Report 2017, do Reuters Institute.

Os países situados nos dois extremos são, pelo lado da relutância em saber das notícias, a Turquia e a Grécia, “empatadas” nos 57%, e pelo outro lado o Japão, com 6%, seguido da Dinamarca, com 14%. 

No texto de apresentação, Nic Newman sublinha que o relatório deste ano vem muito marcado pelo debate sobre as notícias falsas, a falência dos modelos de sustendo dos media e o crescente poder das plataformas digitais. Há, no entanto, algumas surpresas a registar: 

“A Internet e as redes sociais podem ter exacerbado a quebra de confiança e as fake news, mas em muitos países as motivações para a desconfiança têm muito a ver com uma profunda polarização política e tendenciosismo notado nos meios de referência.” 

“As ‘câmaras de eco’ e as ‘bolhas de filtro’ são sem dúvida reais para muitos, mas também verificamos que, em média, os utentes das redes sociais, dos agregadores [de conteúdos] e dos motores de busca têm experiência de maios diversidade do que os não utentes.” 

“Com dados de mais de 30 países de cinco continentes, este relatório recorda-nos que a revolução digital está cheia de contradições e de excepções. Há países que partiram de difrentes lugares, e agora se movem ao mesmo ritmo. Estas diferenças estão registadas em páginas individuais, por países, que se encontram no final do relatório.” (...) 

A primeira das “principais conclusões” destacadas no texto de apresentação é a respeito do uso das redes sociais como fonte de notícias: 

“O crescimento no uso das redes sociais como meio para receber notícias está a baixar em vários mercados, à medida que as aplicações de mensagens, que são mais privadas e não filtram tanto os conteúdos por meio dos seus algoritmos, estão a tornar-se mais populares. O uso do WhatsApp para acesso às notícias começa a rivalizar com o Facebook em vários mercados, incluindo a Malásia (51%), o Brasil (46%) e a Espanha (32%). (...) 

“É notável que, à excepção dos EUA e do Reino Unido, este crescimento esteja a baixar. Na maior parte dos países parou, e temos visto um declínio significativo em Portugal (-4), na Itália (-5), na Austrália e no Brasil (ambos -6).” 

“Pode tratar-se apenas de uma saturação do mercado, ou pode ter a ver com as mudanças nos algoritmos do Facebook em 2016, que tendem a dar prioridade à comunicação entre amigos e família, acima do conteúdo noticioso profissional. O Reino Unido e os Estados Unidos podem ter sido excepções porque os debates de natureza escaldante sobre a eleição e o referendo se passaram sobretudo nas redes sociais.” (...) 

“Apenas um quarto (24%) dos que responderam ao inquérito pensam que as redes sociais fazem bom trabalho na separação entre facto e ficção, comparando com os 40% que se referem aos meios noticiosos. Os dados qualitativos sugerem que os utentes sentem que a combinação de falta de regras com os algoritmos ‘virais’ contribuem para qua a baixa qualidade e as fake news proliferem rapidamente.” (...) 


O destaque sobre os que evitam as notícias e o texto de apresentação do Digital News Report 2017, que pode ser aberto em PDF

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...