Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Estudo

Especialistas dividem-se sobre o futuro da verdade e da falsa informação na Internet

Há uma espécie de corrida às armas entre “os que exploram as vulnerabilidades humanas com tácticas de manipulação à velocidade da Internet” e, do outro lado, “os que procuram criar informação rigorosa e sistemas de divulgação dela que sejam fiáveis”. Entre uma coisa e outra, não sabemos responder de modo seguro à pergunta sobre se a tecnologia vai, durante a próxima década, melhorar ou piorar as nossas vidas. É esta a conclusão possível de um estudo que entrevistou mais de 1.100 especialistas na Internet e nas tecnologias que a servem, realizado no Verão de 2017 pelo Pew Research Center e pelo Imagining the Internet Center da Universidade de Elon, na Carolina do Norte.

Segundo a introdução do trabalho, tal como aparece no pewinternet.org, sob o título The Future of Truth and Misinformation Online, os peritos repartiram-se em dois grupos de dimensão semelhante:

“Os que prevêem uma melhoria põem as suas esperanças em apuramentos tecnológicos e soluções sociais. Outros pensam que o lado escuro da natureza humana é ajudado, mais do que suprimido pela tecnologia.” 

Feitas as contas, em resposta a esta “questão não-científica” [nonscientific canvassing, no original] sobre se o ecossistema da Informação vai melhorar nos próximos dez anos, 51% disseram que não, e 49% que sim. 

Segundo o artigo de Daniel Funke, do Poynter Institute, que aqui citamos, o relatório “concentra-se nas explicações dadas pelos participantes para as suas respostas, arrumando-os em dois campos ideológicos distintos: pessoas que acreditam que os humanos usam a tecnologia para o mal [nefariously] e pessoas que pensam que ela pode ser usada para o bem”. 

É citada a síntese do jornalista e investigador Tom Rosenstiel, director do American Press Institute

“A informação falsa não é como um problema de canalização que se possa consertar. É uma condição social, como o crime, que temos de verificar constantemente e ajustar-nos a ela.” 

Janna Anderson, co-autora do trabalho e directora do Imagining the Internet Center, disse que as respostas dos peritos identificaram alguns melhoramentos que os media têm de fazer, para contrariarem de modo efectivo a falsa informação: 

“Eles explicaram que o ecossistema da Informação não pode melhorar sem empresas noticiosas mais bem apetrechadas [de meios humanos], financeiramente estáveis e independentes, cujos sinais possam elevar-se acima do ruído da informação falsa, para criar uma base de ‘conhecimento comum’ dirigido ao público. Também insistiram em mais esforço de literacia para ajudar as pessoas a distinguirem o facto da falsidade.”

 

O artigo de chamada e o estudo, apresentado na PewInternet e na ElonUniversity. A imagem utilizada é uma secção da obra de Pieter Brueghel sobre a Torre de Babel

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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