Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Fórum

A missão de um jornalismo responsável em casos extremos

“Estamos enfrentando tempos de cólera, descrença e desumanidade. (...) A primeira semana de Outubro de 2017 demonstrou essas evidências através de actos chocantes e episódios avassaladores que provocam inquietude, comoção e reflexão.” O texto que citamos refere-se à morte do reitor da Universidade de Santa Catarina, no Brasil, ao ataque a uma creche, no mesmo país, e ao massacre de Las Vegas. A reflexão que desenvolve é sobre a humanidade e a dignidade que devem orientar um jornalismo responsável, ao tratar destes “casos extremos”. 

O autor do Comentário da Semana de ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística interroga-se sobre como podem os jornalistas preparar-se para momentos como estes:

“Eu diria que jornalistas profissionais, com formação superior, precisam se preparar para coberturas complexas que envolvem o inesperado e o impactante. Para tanto, devem se reconhecer como profissionais que desempenham uma actividade com reflexos sociais, devem estar cientes das possíveis consequências e danos irreversíveis que podem ser causados por informações incoerentes e desequilibradas.” (...)

“É algo que não se ganha, é algo que se conquista, intransferível, frágil, que informações jornalísticas podem afectar de maneira irremediável. A prisão injusta e consequente morte de um homem, o acto terrorista de um estadunidense que matou mais de 50 pessoas e a insanidade brutal de um abjecto que incendiou uma creche são produtos vendáveis ou sintomas estarrecedores de mazelas sociais?” (...)

 

“As ações jornalísticas impactam diretamente na convivência social e na estruturação dos sentimentos e sentidos que movem determinados grupos sociais. Dessa forma, são um elemento constitutivo significativo de interpretação do entorno e do cotidiano dos indivíduos. O desconhecimento dessa condição singular da atividade jornalística é muitas vezes utilizado e se manifesta por meio de álibis descabidos de jornalistas que culpam o ‘calor do momento, o ‘imediatismo’ ou as ‘informações desencontradas das fontes’ para eximir-se de suas responsabilidades.” (...)

 

O autor contesta “a noção de que o jornalista é um mero observador, uma entidade neutra, sem sentimentos e intencionalidades. Essas falácias negligenciam a dimensão humana da atividade jornalística e estimulam a propagação de um sentido jornalístico extremamente artificial e apático. (...) Ao reproduzir a boçalidade de ‘autoridades’ públicas e a insensatez de bárbaros assassinos de maneira acrítica, os jornalistas abastecem a desumanização e gradativamente se aproximam da insanidade, do vale tudo mercadológico”. 

“Predominantemente, o valor monetário está solapando o valor informativo do conteúdo jornalístico. Ao se deparar com casos extraordinários os profissionais não parecem idealizar a verdade, mas o que seria bom para vender. Em inúmeros casos o jornalista explora a superficialidade e não explica a particularidade dos factos. O debate sobre essas questões é premente, as dimensões ligadas à humanidade e à dignidade que envolvem a ética jornalística devem ser discutidas com seriedade profissional, como elementos e condutas inalienáveis.” (...)

 

O texto citado, na íntegra, em ObjEthos, cuja ilustração, de Vítor Teixeira/Portal Fórum, aqui reproduzimos

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

O Clube
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