Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
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Debate nos EUA questiona futuro da Imprensa de referência

Numa palestra dirigida a estudantes universitários, em Julho de 2017, Matt Boyle, o editor em Washington do site Breitbart News, afirmou como seu propósito “a completa destruição e eliminação de toda a Imprensa de referência” [mainstream media, no original]: “Nós antevemos um dia em que a CNN já não esteja em funções. Nós antevemos um dia em que o New York Times feche as portas. Eu penso que esse dia é possível.” Um dos mais recentes tweets de Donald Trump diz que a licença de operação da NBC “deve ser contestada” e possivelmente “revogada”. Abriu nos Estados Unidos um debate sobre se o Presidente não estará já, por palavras de ameaça, a pisar o risco vermelho da violação da Primeira Emenda.

O discurso incendiário de Matt Boyle não disse, no fundo, nada de mais em relação àquilo que o Breitbart News e outros sites de extrema-direita, muito activos na promoção de Donald Trump, têm vindo a pregar desde há muito tempo. Como escreve McKay Coppins, no artigo que aqui citamos da Columbia Journalism Review, “tornaram-se conhecidos por este género de fanfarronice, e a maior parte dos jornalistas habituou-se a desligar; mas talvez tenhamos de lhe prestar mais atenção”. (...) 

“A integridade jornalística morreu  - declara Matt Boyle. - Já não há mais disso. Agora tem tudo a ver com a ‘armamentização’ [weaponization] da informação.” 

McKay Coppins recorda, no seu texto, a longa tradição Republicana de desacreditar a “Imprensa liberal da costa Leste”, mas afirma que, durante muito tempo, isto era feito no reconhecimento da “importância de um jornalismo não-partidário”. Mas esta contenção desapareceu com a campanha de Donald Trump: 

“Ele soube minar, com sucesso, meses de cobertura crítica e de rigoroso fact-checking apresentando os repórteres como maldosos. De cada vez que a campanha estava em problemas, o candidato fazia escalar a guerra contra a Imprensa. Para o final do processo eleitoral, nós já não éramos apenas tendenciosos ou corruptos  - éramos perigosos, conspirativos, parte de uma sombria cabala global. Poucos dias depois do investimento de Trump, Steve Bannon, então o estratego da Casa Branca, disse ao The New York Times: ‘Vocês é que são a oposição, não é o Partido Democrático. Os media são o partido de oposição’.” (...) 

E o próprio Donald Trump, nesses primeiros dias, não deixou de classificar os media como “o inimigo do povo americano” e cheios de gente “totalmente desonesta”. Como conta McKay Coppins, “em vez de fingir reverência pela Primeira Emenda, ele prometeu ‘alargar a nosssa legislação sobre difamação’ para tornar mais fácil processar os jornalistas”. (...) 

Um problema que vem agravar esta deriva é o facto de que mesmo conservadores de centro-direita já não parecem interessados em defender uma Imprensa independente não-partidária, nos termos em que era sssim definida nos anos 60 do século findo. Coppins descreve a conversa que teve com Matthew Continetti, editor do Washington Free Bacon, que lhe afirmou: 

“Uma das razões pelas quais não há denominador comum nos media é que não há, realmente, denominador comum na vida americana. Como regra geral, nós somos uma sociedade dividida. Estamos em desacordo real sobre os valores, sobre aquilo que é importante.” 

-  “Mas não deviam os factos ser esse denominador comum?”  -  perguntou McKay Coppins. Continetti respondeu: 

“Acho que o problema que descreve não tem solução. As pessoas vão continuar a acreditar naquilo que querem. Não me compete dizer-lhes o que devem acreditar. Compete-me editar um site que traz nova informação e acrescenta valor todos os dias. Há certamente muitas pessoas, como Howard Dean, que vão dizer que são fake news. Tudo bem, eu não vou controlar aquilo que pensa Howard Dean. Ele tem todo o direito.”  (E um sorriso afectado apareceu-lhe na cara)  “E também eu não acredito numa palavra do que ele diz.” (...)

 

Os artigos de McKay Coppins e Trevor Timm, na CJR, a que pertence a ilustração, de Steve Brodner
Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...