Quinta-feira, 21 de Março, 2019
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Debate nos EUA questiona futuro da Imprensa de referência

Numa palestra dirigida a estudantes universitários, em Julho de 2017, Matt Boyle, o editor em Washington do site Breitbart News, afirmou como seu propósito “a completa destruição e eliminação de toda a Imprensa de referência” [mainstream media, no original]: “Nós antevemos um dia em que a CNN já não esteja em funções. Nós antevemos um dia em que o New York Times feche as portas. Eu penso que esse dia é possível.” Um dos mais recentes tweets de Donald Trump diz que a licença de operação da NBC “deve ser contestada” e possivelmente “revogada”. Abriu nos Estados Unidos um debate sobre se o Presidente não estará já, por palavras de ameaça, a pisar o risco vermelho da violação da Primeira Emenda.

O discurso incendiário de Matt Boyle não disse, no fundo, nada de mais em relação àquilo que o Breitbart News e outros sites de extrema-direita, muito activos na promoção de Donald Trump, têm vindo a pregar desde há muito tempo. Como escreve McKay Coppins, no artigo que aqui citamos da Columbia Journalism Review, “tornaram-se conhecidos por este género de fanfarronice, e a maior parte dos jornalistas habituou-se a desligar; mas talvez tenhamos de lhe prestar mais atenção”. (...) 

“A integridade jornalística morreu  - declara Matt Boyle. - Já não há mais disso. Agora tem tudo a ver com a ‘armamentização’ [weaponization] da informação.” 

McKay Coppins recorda, no seu texto, a longa tradição Republicana de desacreditar a “Imprensa liberal da costa Leste”, mas afirma que, durante muito tempo, isto era feito no reconhecimento da “importância de um jornalismo não-partidário”. Mas esta contenção desapareceu com a campanha de Donald Trump: 

“Ele soube minar, com sucesso, meses de cobertura crítica e de rigoroso fact-checking apresentando os repórteres como maldosos. De cada vez que a campanha estava em problemas, o candidato fazia escalar a guerra contra a Imprensa. Para o final do processo eleitoral, nós já não éramos apenas tendenciosos ou corruptos  - éramos perigosos, conspirativos, parte de uma sombria cabala global. Poucos dias depois do investimento de Trump, Steve Bannon, então o estratego da Casa Branca, disse ao The New York Times: ‘Vocês é que são a oposição, não é o Partido Democrático. Os media são o partido de oposição’.” (...) 

E o próprio Donald Trump, nesses primeiros dias, não deixou de classificar os media como “o inimigo do povo americano” e cheios de gente “totalmente desonesta”. Como conta McKay Coppins, “em vez de fingir reverência pela Primeira Emenda, ele prometeu ‘alargar a nosssa legislação sobre difamação’ para tornar mais fácil processar os jornalistas”. (...) 

Um problema que vem agravar esta deriva é o facto de que mesmo conservadores de centro-direita já não parecem interessados em defender uma Imprensa independente não-partidária, nos termos em que era sssim definida nos anos 60 do século findo. Coppins descreve a conversa que teve com Matthew Continetti, editor do Washington Free Bacon, que lhe afirmou: 

“Uma das razões pelas quais não há denominador comum nos media é que não há, realmente, denominador comum na vida americana. Como regra geral, nós somos uma sociedade dividida. Estamos em desacordo real sobre os valores, sobre aquilo que é importante.” 

-  “Mas não deviam os factos ser esse denominador comum?”  -  perguntou McKay Coppins. Continetti respondeu: 

“Acho que o problema que descreve não tem solução. As pessoas vão continuar a acreditar naquilo que querem. Não me compete dizer-lhes o que devem acreditar. Compete-me editar um site que traz nova informação e acrescenta valor todos os dias. Há certamente muitas pessoas, como Howard Dean, que vão dizer que são fake news. Tudo bem, eu não vou controlar aquilo que pensa Howard Dean. Ele tem todo o direito.”  (E um sorriso afectado apareceu-lhe na cara)  “E também eu não acredito numa palavra do que ele diz.” (...)

 

Os artigos de McKay Coppins e Trevor Timm, na CJR, a que pertence a ilustração, de Steve Brodner
Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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