Sábado, 17 de Novembro, 2018
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Debate nos EUA questiona futuro da Imprensa de referência

Numa palestra dirigida a estudantes universitários, em Julho de 2017, Matt Boyle, o editor em Washington do site Breitbart News, afirmou como seu propósito “a completa destruição e eliminação de toda a Imprensa de referência” [mainstream media, no original]: “Nós antevemos um dia em que a CNN já não esteja em funções. Nós antevemos um dia em que o New York Times feche as portas. Eu penso que esse dia é possível.” Um dos mais recentes tweets de Donald Trump diz que a licença de operação da NBC “deve ser contestada” e possivelmente “revogada”. Abriu nos Estados Unidos um debate sobre se o Presidente não estará já, por palavras de ameaça, a pisar o risco vermelho da violação da Primeira Emenda.

O discurso incendiário de Matt Boyle não disse, no fundo, nada de mais em relação àquilo que o Breitbart News e outros sites de extrema-direita, muito activos na promoção de Donald Trump, têm vindo a pregar desde há muito tempo. Como escreve McKay Coppins, no artigo que aqui citamos da Columbia Journalism Review, “tornaram-se conhecidos por este género de fanfarronice, e a maior parte dos jornalistas habituou-se a desligar; mas talvez tenhamos de lhe prestar mais atenção”. (...) 

“A integridade jornalística morreu  - declara Matt Boyle. - Já não há mais disso. Agora tem tudo a ver com a ‘armamentização’ [weaponization] da informação.” 

McKay Coppins recorda, no seu texto, a longa tradição Republicana de desacreditar a “Imprensa liberal da costa Leste”, mas afirma que, durante muito tempo, isto era feito no reconhecimento da “importância de um jornalismo não-partidário”. Mas esta contenção desapareceu com a campanha de Donald Trump: 

“Ele soube minar, com sucesso, meses de cobertura crítica e de rigoroso fact-checking apresentando os repórteres como maldosos. De cada vez que a campanha estava em problemas, o candidato fazia escalar a guerra contra a Imprensa. Para o final do processo eleitoral, nós já não éramos apenas tendenciosos ou corruptos  - éramos perigosos, conspirativos, parte de uma sombria cabala global. Poucos dias depois do investimento de Trump, Steve Bannon, então o estratego da Casa Branca, disse ao The New York Times: ‘Vocês é que são a oposição, não é o Partido Democrático. Os media são o partido de oposição’.” (...) 

E o próprio Donald Trump, nesses primeiros dias, não deixou de classificar os media como “o inimigo do povo americano” e cheios de gente “totalmente desonesta”. Como conta McKay Coppins, “em vez de fingir reverência pela Primeira Emenda, ele prometeu ‘alargar a nosssa legislação sobre difamação’ para tornar mais fácil processar os jornalistas”. (...) 

Um problema que vem agravar esta deriva é o facto de que mesmo conservadores de centro-direita já não parecem interessados em defender uma Imprensa independente não-partidária, nos termos em que era sssim definida nos anos 60 do século findo. Coppins descreve a conversa que teve com Matthew Continetti, editor do Washington Free Bacon, que lhe afirmou: 

“Uma das razões pelas quais não há denominador comum nos media é que não há, realmente, denominador comum na vida americana. Como regra geral, nós somos uma sociedade dividida. Estamos em desacordo real sobre os valores, sobre aquilo que é importante.” 

-  “Mas não deviam os factos ser esse denominador comum?”  -  perguntou McKay Coppins. Continetti respondeu: 

“Acho que o problema que descreve não tem solução. As pessoas vão continuar a acreditar naquilo que querem. Não me compete dizer-lhes o que devem acreditar. Compete-me editar um site que traz nova informação e acrescenta valor todos os dias. Há certamente muitas pessoas, como Howard Dean, que vão dizer que são fake news. Tudo bem, eu não vou controlar aquilo que pensa Howard Dean. Ele tem todo o direito.”  (E um sorriso afectado apareceu-lhe na cara)  “E também eu não acredito numa palavra do que ele diz.” (...)

 

Os artigos de McKay Coppins e Trevor Timm, na CJR, a que pertence a ilustração, de Steve Brodner
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Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

Será orador convidado, no próximo dia 22 de Novembro, Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Gulbenkian, que tem dedicado à problemática do ensino e às causas da cultura e da ciência o essencial da sua actividade de intelectual, de homem político e enquanto docente.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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