Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
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Debate nos EUA questiona futuro da Imprensa de referência

Numa palestra dirigida a estudantes universitários, em Julho de 2017, Matt Boyle, o editor em Washington do site Breitbart News, afirmou como seu propósito “a completa destruição e eliminação de toda a Imprensa de referência” [mainstream media, no original]: “Nós antevemos um dia em que a CNN já não esteja em funções. Nós antevemos um dia em que o New York Times feche as portas. Eu penso que esse dia é possível.” Um dos mais recentes tweets de Donald Trump diz que a licença de operação da NBC “deve ser contestada” e possivelmente “revogada”. Abriu nos Estados Unidos um debate sobre se o Presidente não estará já, por palavras de ameaça, a pisar o risco vermelho da violação da Primeira Emenda.

O discurso incendiário de Matt Boyle não disse, no fundo, nada de mais em relação àquilo que o Breitbart News e outros sites de extrema-direita, muito activos na promoção de Donald Trump, têm vindo a pregar desde há muito tempo. Como escreve McKay Coppins, no artigo que aqui citamos da Columbia Journalism Review, “tornaram-se conhecidos por este género de fanfarronice, e a maior parte dos jornalistas habituou-se a desligar; mas talvez tenhamos de lhe prestar mais atenção”. (...) 

“A integridade jornalística morreu  - declara Matt Boyle. - Já não há mais disso. Agora tem tudo a ver com a ‘armamentização’ [weaponization] da informação.” 

McKay Coppins recorda, no seu texto, a longa tradição Republicana de desacreditar a “Imprensa liberal da costa Leste”, mas afirma que, durante muito tempo, isto era feito no reconhecimento da “importância de um jornalismo não-partidário”. Mas esta contenção desapareceu com a campanha de Donald Trump: 

“Ele soube minar, com sucesso, meses de cobertura crítica e de rigoroso fact-checking apresentando os repórteres como maldosos. De cada vez que a campanha estava em problemas, o candidato fazia escalar a guerra contra a Imprensa. Para o final do processo eleitoral, nós já não éramos apenas tendenciosos ou corruptos  - éramos perigosos, conspirativos, parte de uma sombria cabala global. Poucos dias depois do investimento de Trump, Steve Bannon, então o estratego da Casa Branca, disse ao The New York Times: ‘Vocês é que são a oposição, não é o Partido Democrático. Os media são o partido de oposição’.” (...) 

E o próprio Donald Trump, nesses primeiros dias, não deixou de classificar os media como “o inimigo do povo americano” e cheios de gente “totalmente desonesta”. Como conta McKay Coppins, “em vez de fingir reverência pela Primeira Emenda, ele prometeu ‘alargar a nosssa legislação sobre difamação’ para tornar mais fácil processar os jornalistas”. (...) 

Um problema que vem agravar esta deriva é o facto de que mesmo conservadores de centro-direita já não parecem interessados em defender uma Imprensa independente não-partidária, nos termos em que era sssim definida nos anos 60 do século findo. Coppins descreve a conversa que teve com Matthew Continetti, editor do Washington Free Bacon, que lhe afirmou: 

“Uma das razões pelas quais não há denominador comum nos media é que não há, realmente, denominador comum na vida americana. Como regra geral, nós somos uma sociedade dividida. Estamos em desacordo real sobre os valores, sobre aquilo que é importante.” 

-  “Mas não deviam os factos ser esse denominador comum?”  -  perguntou McKay Coppins. Continetti respondeu: 

“Acho que o problema que descreve não tem solução. As pessoas vão continuar a acreditar naquilo que querem. Não me compete dizer-lhes o que devem acreditar. Compete-me editar um site que traz nova informação e acrescenta valor todos os dias. Há certamente muitas pessoas, como Howard Dean, que vão dizer que são fake news. Tudo bem, eu não vou controlar aquilo que pensa Howard Dean. Ele tem todo o direito.”  (E um sorriso afectado apareceu-lhe na cara)  “E também eu não acredito numa palavra do que ele diz.” (...)

 

Os artigos de McKay Coppins e Trevor Timm, na CJR, a que pertence a ilustração, de Steve Brodner
Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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