Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Estudo

Inquérito global às redacções revela assimetrias na adaptação tecnológica

A revolução digital parece hoje omnipresente na paisagem dos media, mas nem todas as redacções estão a tirar dela o melhor proveito, e há muitas que estão a ser “deixadas para trás”. Seja por desníveis tecnológicos, ou pelo lado da segurança e da verificação dos factos, ou pelo da confiança por parte do público, ou ainda pelo da sustentabilidade financeira, as redacções não estão a adoptar na sua totalidade os novos instrumentos disponíveis. Só 5% dos profissionais têm formação tecnológica reconhecida e só 18% das redacções são de natureza digital. Estes dados são de um inquérito global ao Estado da Tecnologia nas Redacções, realizado pelo International Center for Journalists.

Este estudo, que recolheu mais de 2.700 respostas de jornalistas e responsáveis pelas redacções em 130 países, revela que esta tendência é consistente em todas as regiões, embora no espaço da Eurásia/antiga União Soviética haja maior adopção dos meios digitais e o Sudeste Asiático seja ainda dominado pelos meios tradicionais. 

Segundo notícia da International Journalists’ Network, que aqui citamos, os problemas vêm principalmente de dois lados: o da confiança e verificação, e o dos modelos de negócio: 

“As redacções dependem muitíssimo de conteúdos gerados por utentes na preparação de notícias de última hora, mas só 11% dos inquiridos decararam estar a usar as ferramentas de verificação das redes sociais, como a TinEye e a Datamir. E isto apesar de a maioria dos jornalistas  (71%)  usarem as redes sociais para encontrarem ideias para novas reportagens e outro conteúdo do seu trabalho.” 

“E quando as notícias não são verificadas, o público perde confiança. Apesar de a confiança do público nos media se encontrar no ponto mais baixo de sempre, em todo o mundo, só 21% dos inquiridos na Eurásia e nos antigos Estados soviéticos  - e 29% das redacções na América do Norte -  identificaram a construção de confiança como preocupação fundamental. Outras regiões do mundo, especialmente a América Latina, o Médio Oriente / África do Norte e a Europa, estão muito mais preocupadas.” (...) 

“Quase duas décadas desde que a Internet começou a perturbar o modelo de negócio do jornalismo, muitas redacções continuam a lutar pelo desenvolvimento de uma fonte de rendimento sustentável que não afogue o leitores com anúncios ou os faça parar diante de uma paywall.” 

“É mais fácil às redacções exclusivamente digitais adaptarem-se aos desafios de financiarem o noticiário online. Segundo este inquérito, têm duas vezes mais probabilidade de gerar receita de fontes alternativas do que as redacções tradicionais ou híbridas (que combinam os formatos tradicional e digital).” (...) 

O texto que citamos conclui:

“Apesar destas revelações, há esperança para o jornalismo na era digital  - se soubermos onde procurar. Em sete das oito regiões estudadas, as redacções exclusivamente digitais ou híbridas ultrapassaram os media tradicionais. As startups impulsionadas pela inovação podem tornar-se a nova norma, à medida que mais meios tradicionais desaparecem. E todas as oito regiões estudadas partilham abundantemente os mesmos processos, ferramentas, competências e formação, no seu processo de adaptação à era digital  -  uma descoberta que abre possibilidades a novas formas de colaboração e parcerias cruzadas.”

 

O artigo citado, na íntegra, na IJNet, e o relatório The State of Technology in Global Newsrooms

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Francisco Sarsfield Cabral
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