Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Opinião

A comunicação social e a Catalunha

por Francisco Sarsfield Cabral

A crise da Catalunha foi, em grande parte, feita para a comunicação social. Os independentistas catalães estavam nos últimos anos a perder adeptos. Uma forma de atrair para a causa os moderados seria provocar Madrid a usar a força policial na região e em particular em Barcelona.

Correram mundo as imagens televisivas de polícias nacionais a carregar sobre pessoas que queriam votar no simulacro de referendo. O que descredibilizou internacionalmente o governo de Rajoy, que deveria ter evitado cair nesta armadilha, e deu aos independentistas uma aura de vítimas e “mártires” – levando a que se falasse menos das condições inaceitáveis em que foi convocado e concretizado um “referendo” em que houve muito quem votasse várias vezes…


Barcelona tem poucos correspondentes da Imprensa internacional a viverem na cidade. Por isso muitos órgãos da comunicação social, nomeadamente portuguesa, mandaram para a Catalunha enviados especiais, a maioria dos quais não possuía grandes conhecimentos nem contactos sobre a questão da independência.

E como os catalães contrários à independência se mantiveram longo tempo em silêncio, evitando até sair à rua, os jornalistas recorriam sobretudo a fontes independentistas. Daí um certo enviesamento pró-independência em numerosas peças escritas e televisivas.

 

Por exemplo, a certa altura falou-se em mais de 900 feridos pela polícia nacional, quando tentavam votar. Que eu saiba quase ninguém tentou controlar esse número. Nem houve informações sobre o estado de saúde de quatro supostos feridos graves. Parece que a gravidade não foi tanta como isso.

 

Não faltaram peças jornalísticas tomando a parte pelo todo: falavam da aspiração à independência da Catalunha como se esse fosse o sentimento geral na região. Ora ele não é sequer maioritário, embora a maioria dos catalães queira votar num referendo legal sobre a questão, o que implica uma revisão constitucional em Espanha.

 

De um modo geral, na minha opinião os jornalistas estrangeiros não fizeram uma cobertura equilibrada dos acontecimentos na Catalunha. Como, infelizmente, esses acontecimentos ainda não cessaram, espera-se que a comunicação social internacional – isto é, não espanhola, pois a maioria desta tomou há muito partido – promova no futuro uma informação equilibrada e séria.

 

 


Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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