Quinta-feira, 21 de Março, 2019
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O papel do jornalismo cultural na defesa da liberdade de expressão

O jornalismo cultural que toma como tema as exposições de artes visuais estará sempre exposto a situações de polémica. São as próprias exposições que estão em causa, muitas vezes, pela natureza das obras apresentadas  -  e sabemos como a história da aceitação ou recusa do que se pode mostrar ou ver é longa e conflituosa, até hoje. “Jornalistas são inconformados por natureza. Artistas são contestadores por natureza. Críticas, ameaças e até castigos físicos não calaram artistas da Renascença italiana, mais de meio milénio atrás.” Esta é a reflexão de Franthiesco Ballerini, autor de Jornalismo Cultural no Século 21, sobre polémicas recentes no Brasil, a propósito da cobertura jornalística de duas exposições muito criticadas. No Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Uma dessas exposições,  a Queermuseum, chegou a ser cancelada pelo Santander Cultural em Porto Alegre. Outra, a intitulada “Panorama da Arte Brasileira”,  no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, foi criticada nas redes sociais por “violações fantasiosas da Constituição”. 

Segundo o autor, “o mais impressionante e positivo é que poucos foram os momentos recentes do jornalismo cultural brasileiro em que a cobertura profissional tenha sido tão importante quanto agora. (...) A defesa pela liberdade artística e de expressão uniu, numa mesma arena, veículos tão distintos quanto Carta Capital e Veja, chamando a proibição ou condenação das mostras de uma volta à idade das trevas”. (...) 

Depois de citar casos concretos da campanha acusatória contra as referidas exposições, bem como, do outro lado, os muitos “que se posicionaram contra a censura do Estado e de movimentos como o MBL, tanto para a mostra do Santander Cultural quanto para a do MAM de São Paulo” Franthiesco Ballerini escreve: 

“Acusar a Imprensa de ser tendenciosa e parcial é dizer o óbvio. Sim, é uma cobertura tendenciosa e parcial. Primeiro, porque não existe imparcialidade da Imprensa, o que existe são coberturas irresponsáveis que ouvem apenas um lado da história. Mas ouvir todos os lados nem de longe significa ser imparcial. É tendenciosa a favor de um bastião sagrado da própria Imprensa: a liberdade de expressão, que fora reconquistada após mais de duas décadas de trevas militares.” (...) 

“A cobertura do jornalismo cultural de artes visuais foi, portanto, exemplar, profissional, extensa e profunda em sua maioria das vezes. O que mostra a importância máxima dos leitores, ouvintes e telespectadores de investir seu tempo de lazer e informação com especialistas na área, fugindo de amadores que não entendem de artes plásticas, mas, sim, de atirar opiniões apressadas, agarrando-se em trechos soltos da Bíblia ou da Constituição para defender o boicote à arte.” (...) 

“Portanto, essa é a boa notícia: artistas, que em seus tempos foram condenados por pessoas que se sentiam ofendidas por suas obras de arte, estão estampados em museus que recebem visitas diárias de crianças e adultos. Artistas de tempos em que a Imprensa não se posicionava tão abertamente a favor deles. Já seus censores, por sua vez, morreram na História, ninguém os valoriza, ninguém os exibe. (...) A vitória definitivamente não foi e não será das trevas.”

 

O texto de Franthiesco Ballerini, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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