Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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O papel do jornalismo cultural na defesa da liberdade de expressão

O jornalismo cultural que toma como tema as exposições de artes visuais estará sempre exposto a situações de polémica. São as próprias exposições que estão em causa, muitas vezes, pela natureza das obras apresentadas  -  e sabemos como a história da aceitação ou recusa do que se pode mostrar ou ver é longa e conflituosa, até hoje. “Jornalistas são inconformados por natureza. Artistas são contestadores por natureza. Críticas, ameaças e até castigos físicos não calaram artistas da Renascença italiana, mais de meio milénio atrás.” Esta é a reflexão de Franthiesco Ballerini, autor de Jornalismo Cultural no Século 21, sobre polémicas recentes no Brasil, a propósito da cobertura jornalística de duas exposições muito criticadas. No Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Uma dessas exposições,  a Queermuseum, chegou a ser cancelada pelo Santander Cultural em Porto Alegre. Outra, a intitulada “Panorama da Arte Brasileira”,  no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, foi criticada nas redes sociais por “violações fantasiosas da Constituição”. 

Segundo o autor, “o mais impressionante e positivo é que poucos foram os momentos recentes do jornalismo cultural brasileiro em que a cobertura profissional tenha sido tão importante quanto agora. (...) A defesa pela liberdade artística e de expressão uniu, numa mesma arena, veículos tão distintos quanto Carta Capital e Veja, chamando a proibição ou condenação das mostras de uma volta à idade das trevas”. (...) 

Depois de citar casos concretos da campanha acusatória contra as referidas exposições, bem como, do outro lado, os muitos “que se posicionaram contra a censura do Estado e de movimentos como o MBL, tanto para a mostra do Santander Cultural quanto para a do MAM de São Paulo” Franthiesco Ballerini escreve: 

“Acusar a Imprensa de ser tendenciosa e parcial é dizer o óbvio. Sim, é uma cobertura tendenciosa e parcial. Primeiro, porque não existe imparcialidade da Imprensa, o que existe são coberturas irresponsáveis que ouvem apenas um lado da história. Mas ouvir todos os lados nem de longe significa ser imparcial. É tendenciosa a favor de um bastião sagrado da própria Imprensa: a liberdade de expressão, que fora reconquistada após mais de duas décadas de trevas militares.” (...) 

“A cobertura do jornalismo cultural de artes visuais foi, portanto, exemplar, profissional, extensa e profunda em sua maioria das vezes. O que mostra a importância máxima dos leitores, ouvintes e telespectadores de investir seu tempo de lazer e informação com especialistas na área, fugindo de amadores que não entendem de artes plásticas, mas, sim, de atirar opiniões apressadas, agarrando-se em trechos soltos da Bíblia ou da Constituição para defender o boicote à arte.” (...) 

“Portanto, essa é a boa notícia: artistas, que em seus tempos foram condenados por pessoas que se sentiam ofendidas por suas obras de arte, estão estampados em museus que recebem visitas diárias de crianças e adultos. Artistas de tempos em que a Imprensa não se posicionava tão abertamente a favor deles. Já seus censores, por sua vez, morreram na História, ninguém os valoriza, ninguém os exibe. (...) A vitória definitivamente não foi e não será das trevas.”

 

O texto de Franthiesco Ballerini, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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