Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Media

Memórias do fim da Imprensa na Fleet Street de Londres

Fleet Street era o “Bairro Alto” de Londres, o lugar onde se concentravam os jornais e os restaurantes onde iam tipógrafos e jornalistas. Já não há jornais num sítio nem no outro (à excepção de A Bola). O último a sair de Fleet Street foi o semanário escocês Sunday Post, em Agosto de 2016. Como conta Maurice Chittenden, “treze dias passados fui eu despedido, depois de quase 40 anos a trabalhar para Rupert Murdoch, primeiro no Sun e no News of the World, e depois, durante mais de três décadas, para The Sunday Times”. Na despedida, um colega sugeriu que ele escrevesse as memórias. “Ninguém ia lê-las”  - foi a resposta. “Eu ia”  - disse-lhe o amigo. Assim nasceu The Last Days of Fleet Street, uma recordação nostálgica, mas irónica e bem-humorada, do tempo dos jornais impressos.

“Quando eu cheguei, na década de 1970, Fleet Street era um lugar ruidoso e vibrante. Os grandes camiões de piso baixo tinham de manobrar pelas ruas laterais, como a Bouverie Street, onde estavam The Sun e o News of the World, para descarregar os rolos de papel de impressão para as rotativas. Podia acontecer que um deles tombasse do empilhador e esmagasse um operário sob o seu enorme peso.” 

“Depois do almoço  - a qualquer hora depois das três -  o maior perigo era de ser atropelado por um repórter de volta à redacção, ou intoxicado pelo álcool da sua respiração. De regresso à sua secretária, o repórter ou martelava mil palavras de prosa arrebicada, ou tombava a dormir em cima da máquina de escrever, frequentemente ambas as coisas.” (...) 

No seu artigo de memórias desse tempo  - que aqui citamos do European Journalism Observatory -  Maurice Chittenden evoca esse mundo em que “era fácil deixarmo-nos mergulhar”: a camaradagem, os episódios caricatos, as “aventuras e desventuras” da carreira, os casos que marcaram mais. 

“Eu fui envolvido (por acaso, evidentemente) na primeira escuta telefónica de alguém da família real, ajudei a resolver um crime e causei um incidente diplomático quando fui preso no Bornéu por causa de uma lagosta. Também tenho no currículo o derrube de um governo conservador.” 

“O espaço de Fleet Street pode já não ter mais jornalistas, mas permanece como o nosso lar espiritual, mesmo que as únicas vezes em que lá voltamos seja para prestar homenagem a um camarada falecido, na Igreja de St. Bride [Santa Brígida], conhecida como a igreja dos jornalistas.” 

[A expressão spiritual home of the media é usada na apresentação desta Igreja, da Comunhão Anglicana, que tem actualmente como Pastora responsável a Rev. Alison Joyce]

 

O artigo citado, na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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