Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

Memórias do fim da Imprensa na Fleet Street de Londres

Fleet Street era o “Bairro Alto” de Londres, o lugar onde se concentravam os jornais e os restaurantes onde iam tipógrafos e jornalistas. Já não há jornais num sítio nem no outro (à excepção de A Bola). O último a sair de Fleet Street foi o semanário escocês Sunday Post, em Agosto de 2016. Como conta Maurice Chittenden, “treze dias passados fui eu despedido, depois de quase 40 anos a trabalhar para Rupert Murdoch, primeiro no Sun e no News of the World, e depois, durante mais de três décadas, para The Sunday Times”. Na despedida, um colega sugeriu que ele escrevesse as memórias. “Ninguém ia lê-las”  - foi a resposta. “Eu ia”  - disse-lhe o amigo. Assim nasceu The Last Days of Fleet Street, uma recordação nostálgica, mas irónica e bem-humorada, do tempo dos jornais impressos.

“Quando eu cheguei, na década de 1970, Fleet Street era um lugar ruidoso e vibrante. Os grandes camiões de piso baixo tinham de manobrar pelas ruas laterais, como a Bouverie Street, onde estavam The Sun e o News of the World, para descarregar os rolos de papel de impressão para as rotativas. Podia acontecer que um deles tombasse do empilhador e esmagasse um operário sob o seu enorme peso.” 

“Depois do almoço  - a qualquer hora depois das três -  o maior perigo era de ser atropelado por um repórter de volta à redacção, ou intoxicado pelo álcool da sua respiração. De regresso à sua secretária, o repórter ou martelava mil palavras de prosa arrebicada, ou tombava a dormir em cima da máquina de escrever, frequentemente ambas as coisas.” (...) 

No seu artigo de memórias desse tempo  - que aqui citamos do European Journalism Observatory -  Maurice Chittenden evoca esse mundo em que “era fácil deixarmo-nos mergulhar”: a camaradagem, os episódios caricatos, as “aventuras e desventuras” da carreira, os casos que marcaram mais. 

“Eu fui envolvido (por acaso, evidentemente) na primeira escuta telefónica de alguém da família real, ajudei a resolver um crime e causei um incidente diplomático quando fui preso no Bornéu por causa de uma lagosta. Também tenho no currículo o derrube de um governo conservador.” 

“O espaço de Fleet Street pode já não ter mais jornalistas, mas permanece como o nosso lar espiritual, mesmo que as únicas vezes em que lá voltamos seja para prestar homenagem a um camarada falecido, na Igreja de St. Bride [Santa Brígida], conhecida como a igreja dos jornalistas.” 

[A expressão spiritual home of the media é usada na apresentação desta Igreja, da Comunhão Anglicana, que tem actualmente como Pastora responsável a Rev. Alison Joyce]

 

O artigo citado, na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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