Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Opinião

O grande desafio de Balsemão

por Dinis de Abreu

Ao completar 25 anos, a SIC  cresceu, mas não se emancipou nem libertou o seu criador de preocupações. Francisco Pinto Balsemão, com 80 anos feitos, merecia um sossego que não tem, perante a crise que atingiu o Grupo de media que construiu do zero .

Balsemão ganhou vários desafios, alguns deles complexos, desde que lançou o Expresso nos idos de 70 do século passado - o seu “navio-almirante”, como gosta de chamar-lhe - , juntando-lhe, depois,  várias publicações especializadas  e uma televisão generalista, o seu outro grande sonho.

Nunca sentiu queda para a Rádio, apesar das oportunidades  que teve, mas, em contrapartida,  percebeu, desde muito cedo, a importância da Internet,  apostando nesse futuro digital, a começar pela edição do  Expresso online, o jornal diário  que nunca teve em versão impressa.

Foi capaz de vencer adversários poderosos, incluindo um “infiltrado”, que, um dia, quis tomar-lhe conta do Grupo, financiado pelo BES , de Ricardo Salgado.

Já nessa altura o conglomerado de empresas experimentava dificuldades, interpretadas e exploradas pela  Ongoing – uma ficção criada à sombra do BES - como uma soberana oportunidade para apear Balsemão e controlar o Grupo.

Perante o desafio, Balsemão viu-se forçado a sair do conforto e a  arregaçar as mangas, assumindo medidas de contingência para   afastar a Ongoing do perímetro da Impresa.

Fez um pleno ganhador, nessa roleta posta em movimento por quem menos esperava e teve, mais tarde,  a “recompensa” de assistir à falência da Ongoing e  do seu  grupo editorial de “pés de barro”.

O Grupo Balsemão, como é mais conhecido, não logrou vencer, contudo, nem a mudança de paradigma mediático -  com a forte migração de leitores do papel para a net -, nem a estrutura familiar que está na sua génese.

São vários e importantes   os Grupos empresariais portugueses  de estrutura familiar. Desde a  Sonae, de Belmiro de Azevedo,  a Jerónimo Martins, aos Mellos ou  Amorim.

Na curva da vida, cada um procurou – ou procura - encontrar soluções entre os sucessores preparados para “reinar” ou entre gestores profissionais que assegurem a continuidade.

Houve quem fosse bem sucedido e encare a sua finitude com a casa arrumada e relativa tranquilidade.

Mas o destino pregou uma partida a Francisco Balsemão, que moldou um verdadeiro império de media, mas que se vê hoje obrigado  a vender publicações ao desbarato para salvar o emblemático Expresso e a SIC aniversariante.

A vida não está fácil para as empresas jornalísticas, que,  além de erros próprios, estão a ser fustigadas pelas grandes plataformas digitais, como a Google ,  Facebook ou a Amazon, cativando   a nível global as melhores receitas de publicidade, deixando as sobras  para os editores, que  não bastam para a sua sobrevivência.

Balsemão é um homem informado. Mas carece de uma equipa à sua volta  capaz de antecipar o futuro .

A Imprensa está fragilizada. Com excepção de dois ou três títulos, as  tiragens dos jornais  são irrisórias.  Depois, a migração para o digital está a fazer-se com muitas hesitações e falta de percepção da vertigem que se vive  nos mercados.  
 

A televisão está, igualmente,  numa transição tecnológica acelerada,  para a qual muitos responsáveis editoriais e de programas não estão preparados ou a desprezam por  amor às rotinas.

A festa das novas “grelhas” de programas acabou. E quem o fizer  não percebe que continua  agarrado ao passado. O espectador está a ficar “dono” da sua programação, elaborando-a conforme entende e em função das suas preferências. Os separadores longos e insuportáveis de publicidade estão condenados.

As televisões regionais, locais, de bairro, temáticas, corporativas ou   de “vão de escada” vão competir com as generalistas convencionais. Os gigantes globais ( e o algoritmo) farão o resto..

Balsemão não  merecia assistir ao desmoronamento do edifício que construiu . Mas corre esse risco.   

 

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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