Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Opinião

O grande desafio de Balsemão

por Dinis de Abreu

Ao completar 25 anos, a SIC  cresceu, mas não se emancipou nem libertou o seu criador de preocupações. Francisco Pinto Balsemão, com 80 anos feitos, merecia um sossego que não tem, perante a crise que atingiu o Grupo de media que construiu do zero .

Balsemão ganhou vários desafios, alguns deles complexos, desde que lançou o Expresso nos idos de 70 do século passado - o seu “navio-almirante”, como gosta de chamar-lhe - , juntando-lhe, depois,  várias publicações especializadas  e uma televisão generalista, o seu outro grande sonho.

Nunca sentiu queda para a Rádio, apesar das oportunidades  que teve, mas, em contrapartida,  percebeu, desde muito cedo, a importância da Internet,  apostando nesse futuro digital, a começar pela edição do  Expresso online, o jornal diário  que nunca teve em versão impressa.

Foi capaz de vencer adversários poderosos, incluindo um “infiltrado”, que, um dia, quis tomar-lhe conta do Grupo, financiado pelo BES , de Ricardo Salgado.

Já nessa altura o conglomerado de empresas experimentava dificuldades, interpretadas e exploradas pela  Ongoing – uma ficção criada à sombra do BES - como uma soberana oportunidade para apear Balsemão e controlar o Grupo.

Perante o desafio, Balsemão viu-se forçado a sair do conforto e a  arregaçar as mangas, assumindo medidas de contingência para   afastar a Ongoing do perímetro da Impresa.

Fez um pleno ganhador, nessa roleta posta em movimento por quem menos esperava e teve, mais tarde,  a “recompensa” de assistir à falência da Ongoing e  do seu  grupo editorial de “pés de barro”.

O Grupo Balsemão, como é mais conhecido, não logrou vencer, contudo, nem a mudança de paradigma mediático -  com a forte migração de leitores do papel para a net -, nem a estrutura familiar que está na sua génese.

São vários e importantes   os Grupos empresariais portugueses  de estrutura familiar. Desde a  Sonae, de Belmiro de Azevedo,  a Jerónimo Martins, aos Mellos ou  Amorim.

Na curva da vida, cada um procurou – ou procura - encontrar soluções entre os sucessores preparados para “reinar” ou entre gestores profissionais que assegurem a continuidade.

Houve quem fosse bem sucedido e encare a sua finitude com a casa arrumada e relativa tranquilidade.

Mas o destino pregou uma partida a Francisco Balsemão, que moldou um verdadeiro império de media, mas que se vê hoje obrigado  a vender publicações ao desbarato para salvar o emblemático Expresso e a SIC aniversariante.

A vida não está fácil para as empresas jornalísticas, que,  além de erros próprios, estão a ser fustigadas pelas grandes plataformas digitais, como a Google ,  Facebook ou a Amazon, cativando   a nível global as melhores receitas de publicidade, deixando as sobras  para os editores, que  não bastam para a sua sobrevivência.

Balsemão é um homem informado. Mas carece de uma equipa à sua volta  capaz de antecipar o futuro .

A Imprensa está fragilizada. Com excepção de dois ou três títulos, as  tiragens dos jornais  são irrisórias.  Depois, a migração para o digital está a fazer-se com muitas hesitações e falta de percepção da vertigem que se vive  nos mercados.  
 

A televisão está, igualmente,  numa transição tecnológica acelerada,  para a qual muitos responsáveis editoriais e de programas não estão preparados ou a desprezam por  amor às rotinas.

A festa das novas “grelhas” de programas acabou. E quem o fizer  não percebe que continua  agarrado ao passado. O espectador está a ficar “dono” da sua programação, elaborando-a conforme entende e em função das suas preferências. Os separadores longos e insuportáveis de publicidade estão condenados.

As televisões regionais, locais, de bairro, temáticas, corporativas ou   de “vão de escada” vão competir com as generalistas convencionais. Os gigantes globais ( e o algoritmo) farão o resto..

Balsemão não  merecia assistir ao desmoronamento do edifício que construiu . Mas corre esse risco.   

 

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

ver mais >
Opinião
Agenda
27
Nov
10º Congresso Sopcom
09:00 @ Viseu
27
Nov
Formação sobre podcasts
09:00 @ Cenjor,Lisboa
28
Nov
29
Nov
SEO para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa