Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Media

Debate no "Le Monde Festival" lembra que uma notícia "incrível" pode ser mesmo falsa

A propósito da proliferação das notícias falsas, Katharine Viner, chefe de redacção do jornal britânico The Guardian, afirmou que “um dos maiores perigos, hoje, é que são mais partilhadas, nas redes sociais, as opiniões do que os factos”. Esta sua reflexão foi feita no Le Monde Festival, realizado em Paris, onde disse também: “Se alguma coisa parece demasiado boa, ou demasiado espantosa, ou demasiado incrível, então provavelmente é-o mesmo, e o melhor é verificarmos outra vez.”

Mas também podemos cair numa armadilha por qualquer coisa que pareça apenas um pouco verdadeira  – explicou.  “Este ano exige que façamos mais fact-checking do que no anterior.”

 

Chefe de redacção em The Guardian há dois anos, Katharine Viner apanhou em cheio, nessas funções, a campanha pelo referendo sobre o Brexit, tendo publicado, em Julho de 2016, um artigo intitulado “How technology disrupted the truth”, do qual falamos noutro local deste site. Foi sobre esse trabalho que desejaram interrogá-la e ouvi-la os participantes no Le Monde Festival, e as suas declarações podem ser escutadas em vídeo, no respectivo site, com tradução legendada em francês.

 

Em comentário ao mesmo artigo, Le Monde publicou na altura uma síntese que punha a questão do jornalismo actual nos seguintes termos: por muito que a Verdade, com um grande V, seja impossível de expor, para descrever um mundo complexo em frases simples, que seriam sempre tingidas de subjectividade, há pelo menos uma série de factos, demonstráveis por A+B, a partir das quais se pode estabelecer um debate contraditório. 

Mas, “para a chefe de redacção de The Guardian, a campanha do Brexit demonstrou que é cada vez menos o caso. Cada um tem a ‘sua’ verdade e a discussão torna-se automaticamente impossível”. 

Citando Katharine Viner:

“Quando um facto começa a parecer-se com aquilo que uma pessoa pensa que é verdadeiro, torna-se muito difícil para alguém estabelecer a diferença entre os factos que são verdadeiros e os ‘factos’ que não são.” (…) 

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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