Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Media

Quando a lógica da "informação espectáculo" substitui o jornalismo

Há hoje mais interesse pela informação, principalmente quando ela se confunde com espectáculo  - o que sucede muito com a narrativa dos casos de corrupção. É útil que os media arranquem a máscara aos poderosos que se jugavam impunes e “donos da retórica pública”. O pior é quando o jornalismo falta à chamada e se deixa substituir pela lógica do entretenimento. Quando as biografias do delito passam a ser contadas pelos próprios delinquentes, que vêm à frente com declarações de inocência. “Corruptos que quebraram, pelos seus excessos, a omertà que amortecia o escândalo, com a complacência de um jornalismo ignorante ou ausente, vêm à cena como protagonistas.” Uma reflexão oportuna de Bernardo Díaz Nosty, jornalista e catedrático de Jornalismo, na edição nº 34 de Cuadernos de Periodismo.
O essencial do trabalho que aqui citamos é uma crítica do jornalismo como se pratica, neste momento, em Espanha, com referência especial às emissões de televisão, tanto as de noticiário como as de comentário e debate. 
O panorama descrito é, aliás, comum ao que se passa nas televisões generalistas portuguesas, que abusam dos telejornais extensos e dos alinhamentos onde o fait divers tem prioridade comparativamente com acontecimentos relevantes, nacionais ou internacionais.

O autor condena o comportamento de um jornalismo que, em vez de contribuir para reduzir a incerteza e reforçar a opinião pública “diante de desastres como a corrupção”, faça o seu contrário:

“Seguindo a lógica do sensacionalismo , em muitos casos tem agitado o debate e aumentado o ruído ambiente. E têm sido com frequência os ‘tertulianos’ [comentadores de painéis regulares] de amplo espectro  - que tanto tratam de devaneios de alcova como da acção da justiça -  que, com as cartas viciadas, descrevem as misérias com uma linguagem miserável. Porque mantêm posições combinadas, ajustadas a um guião, chamadas a animar a polarização e o espectáculo.” (...) 

Bernardo Díaz Nosty insurge-se, a seguir, contra o facto de estes comportamentos, que se esperam de um jornalismo mais comercial e “tablóide”, terem resvalado mesmo para os grandes meios públicos de referência, contaminando a sua relação de credibilidade com o público. 

O seu texto apresenta os dados de evolução da credibilidade da televisão na União Europeia, segundo o Eurobarómetro, no período que vem desde o começo da crise, em 2007, até ao ano de 2016, e compara a melhoria registada na Itália pós-Berlusconi com a baixa de credibilidade na Grécia e em Espanha, bem como, de forma mais atenuada, na França, Polónia, Hungria, Croácia e Chipre. 

No gráfico que ilustra estes dados, Portugal aparece entre os países de confiança mais elevada. 

Entre outros exemplos, o autor lamenta o “afastamento dos cânones fundadores” ocorrido na própria TVE, não só pelo “tendenciosismo governamental dos seus conteúdos” como por uma avaliação do que é notícia que “dá primazia a acontecimentos que tanto podem ser o atropelamento de um ciclista em Zamora como um tornado no Illinois ou o roubo de uma caixa gravado por uma câmara de segurança num sítio indeterminado... Num grande contentor  - são os noticiários mais extensos da Europa -  confunde-se a quantidade com a qualidade.” (...) 

O texto na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...