Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Quando a lógica da "informação espectáculo" substitui o jornalismo

Há hoje mais interesse pela informação, principalmente quando ela se confunde com espectáculo  - o que sucede muito com a narrativa dos casos de corrupção. É útil que os media arranquem a máscara aos poderosos que se jugavam impunes e “donos da retórica pública”. O pior é quando o jornalismo falta à chamada e se deixa substituir pela lógica do entretenimento. Quando as biografias do delito passam a ser contadas pelos próprios delinquentes, que vêm à frente com declarações de inocência. “Corruptos que quebraram, pelos seus excessos, a omertà que amortecia o escândalo, com a complacência de um jornalismo ignorante ou ausente, vêm à cena como protagonistas.” Uma reflexão oportuna de Bernardo Díaz Nosty, jornalista e catedrático de Jornalismo, na edição nº 34 de Cuadernos de Periodismo.
O essencial do trabalho que aqui citamos é uma crítica do jornalismo como se pratica, neste momento, em Espanha, com referência especial às emissões de televisão, tanto as de noticiário como as de comentário e debate. 
O panorama descrito é, aliás, comum ao que se passa nas televisões generalistas portuguesas, que abusam dos telejornais extensos e dos alinhamentos onde o fait divers tem prioridade comparativamente com acontecimentos relevantes, nacionais ou internacionais.

O autor condena o comportamento de um jornalismo que, em vez de contribuir para reduzir a incerteza e reforçar a opinião pública “diante de desastres como a corrupção”, faça o seu contrário:

“Seguindo a lógica do sensacionalismo , em muitos casos tem agitado o debate e aumentado o ruído ambiente. E têm sido com frequência os ‘tertulianos’ [comentadores de painéis regulares] de amplo espectro  - que tanto tratam de devaneios de alcova como da acção da justiça -  que, com as cartas viciadas, descrevem as misérias com uma linguagem miserável. Porque mantêm posições combinadas, ajustadas a um guião, chamadas a animar a polarização e o espectáculo.” (...) 

Bernardo Díaz Nosty insurge-se, a seguir, contra o facto de estes comportamentos, que se esperam de um jornalismo mais comercial e “tablóide”, terem resvalado mesmo para os grandes meios públicos de referência, contaminando a sua relação de credibilidade com o público. 

O seu texto apresenta os dados de evolução da credibilidade da televisão na União Europeia, segundo o Eurobarómetro, no período que vem desde o começo da crise, em 2007, até ao ano de 2016, e compara a melhoria registada na Itália pós-Berlusconi com a baixa de credibilidade na Grécia e em Espanha, bem como, de forma mais atenuada, na França, Polónia, Hungria, Croácia e Chipre. 

No gráfico que ilustra estes dados, Portugal aparece entre os países de confiança mais elevada. 

Entre outros exemplos, o autor lamenta o “afastamento dos cânones fundadores” ocorrido na própria TVE, não só pelo “tendenciosismo governamental dos seus conteúdos” como por uma avaliação do que é notícia que “dá primazia a acontecimentos que tanto podem ser o atropelamento de um ciclista em Zamora como um tornado no Illinois ou o roubo de uma caixa gravado por uma câmara de segurança num sítio indeterminado... Num grande contentor  - são os noticiários mais extensos da Europa -  confunde-se a quantidade com a qualidade.” (...) 

O texto na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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