Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Quando a lógica da "informação espectáculo" substitui o jornalismo

Há hoje mais interesse pela informação, principalmente quando ela se confunde com espectáculo  - o que sucede muito com a narrativa dos casos de corrupção. É útil que os media arranquem a máscara aos poderosos que se jugavam impunes e “donos da retórica pública”. O pior é quando o jornalismo falta à chamada e se deixa substituir pela lógica do entretenimento. Quando as biografias do delito passam a ser contadas pelos próprios delinquentes, que vêm à frente com declarações de inocência. “Corruptos que quebraram, pelos seus excessos, a omertà que amortecia o escândalo, com a complacência de um jornalismo ignorante ou ausente, vêm à cena como protagonistas.” Uma reflexão oportuna de Bernardo Díaz Nosty, jornalista e catedrático de Jornalismo, na edição nº 34 de Cuadernos de Periodismo.
O essencial do trabalho que aqui citamos é uma crítica do jornalismo como se pratica, neste momento, em Espanha, com referência especial às emissões de televisão, tanto as de noticiário como as de comentário e debate. 
O panorama descrito é, aliás, comum ao que se passa nas televisões generalistas portuguesas, que abusam dos telejornais extensos e dos alinhamentos onde o fait divers tem prioridade comparativamente com acontecimentos relevantes, nacionais ou internacionais.

O autor condena o comportamento de um jornalismo que, em vez de contribuir para reduzir a incerteza e reforçar a opinião pública “diante de desastres como a corrupção”, faça o seu contrário:

“Seguindo a lógica do sensacionalismo , em muitos casos tem agitado o debate e aumentado o ruído ambiente. E têm sido com frequência os ‘tertulianos’ [comentadores de painéis regulares] de amplo espectro  - que tanto tratam de devaneios de alcova como da acção da justiça -  que, com as cartas viciadas, descrevem as misérias com uma linguagem miserável. Porque mantêm posições combinadas, ajustadas a um guião, chamadas a animar a polarização e o espectáculo.” (...) 

Bernardo Díaz Nosty insurge-se, a seguir, contra o facto de estes comportamentos, que se esperam de um jornalismo mais comercial e “tablóide”, terem resvalado mesmo para os grandes meios públicos de referência, contaminando a sua relação de credibilidade com o público. 

O seu texto apresenta os dados de evolução da credibilidade da televisão na União Europeia, segundo o Eurobarómetro, no período que vem desde o começo da crise, em 2007, até ao ano de 2016, e compara a melhoria registada na Itália pós-Berlusconi com a baixa de credibilidade na Grécia e em Espanha, bem como, de forma mais atenuada, na França, Polónia, Hungria, Croácia e Chipre. 

No gráfico que ilustra estes dados, Portugal aparece entre os países de confiança mais elevada. 

Entre outros exemplos, o autor lamenta o “afastamento dos cânones fundadores” ocorrido na própria TVE, não só pelo “tendenciosismo governamental dos seus conteúdos” como por uma avaliação do que é notícia que “dá primazia a acontecimentos que tanto podem ser o atropelamento de um ciclista em Zamora como um tornado no Illinois ou o roubo de uma caixa gravado por uma câmara de segurança num sítio indeterminado... Num grande contentor  - são os noticiários mais extensos da Europa -  confunde-se a quantidade com a qualidade.” (...) 

O texto na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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