Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
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A prisão solitária do “egosistema digital” como doença contagiosa do nosso tempo

Há uma geração zombie deambulando pelas ruas sem levantar os olhos dos seus ecrãs, teclando no Whatsapp ou consultando o Facebook. Até os restaurantes se tornaram mais silenciosos, porque chamamos o empregado tocando num botão e conversamos à distância pelo smartphone sem prestar atenção aos vizinhos de mesa que estão a fazer exactamente o mesmo. Não é uma mudança tecnológica, é uma revolução sociológica. E o vírus é contagioso, impregnou o espaço do cosmos. Todos fomos contagiados pela doença do nosso tempo, o egosistema digital.

“Fomos raptados pelo ecosistema digital dos blogs, do Facebook, dos Twitters, do Linkedin para busca de talentos e do Whatsapp que é acessível a toda a gente. Vivemos colados a um ecrã (ou a muitos). Construímos uma realidade paralela a que chamamos o mundo digital. Mas, quase sem querer, o primeiro mundo tornou-se o segundo, porque já é mais importante como nos vemos na Internet do que com que cara nos vemos ao espelho antes de sair de casa.” 

Esta reflexão é de Salvador Molina, presidente do Foro Ecofin e conselheiro da Telemadrid, que parte da designação corrente do “ecosistema digital” para uma definição mais grave, a de um “egosistema” que nos capturou com consentimento próprio. 

O autor reconhece os factos e assume a sua culpa:

“Confesso ser parte da sociedade zombie que deambula em busca do reconhecimento social das redes, da comunicação sem voz e do silêncio monacal do teclado com ecrã. Eu também fui humano um dia. Hoje, confesso-me zombie. (...) E até vários robots humanóides já me pediram amizade pelo Linkedin.”  (...) 

O artigo original, na íntegra, em Media-tics. E mais informação num texto publicado há dois anos em The Guardian, sobre “O Futuro da Solidão”, com a síntese em subtítulo: “Quando mudámos as nossas vidas para online, a Internet prometia-nos o fim do isolamento. Mas podemos encontrar verdadeira intimidade no meio de identidades em mudança e uma vigilância permanente?”

 

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
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