Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
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O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

A autora evoca situações “que resultaram na manifestação de sentimentos de ódio e intolerância, cada vez mais comuns, como no episódio da marcha contra a igualdade racial, nos EUA”, ou, no Brasil, “a polarização no mínimo extravagante entre quem argumentava que o nazismo era de esquerda e quem assegurava que era de direita”, deixando a pergunta sobre “o que fazer dessas emoções”: 

“O jornalismo é responsável por elas? Se for, como pode exercer um papel de orientação ou mesmo de pacificação em meio a grandes conflitos sociais?” (...) 

O texto cita, depois, a postura de três grandes instituições mediáticas no Brasil, as organizações Globo, o Grupo Estado e a Folha de são Paulo, que, sendo embora privadas, guardam nos seus princípios editoriais “muitos vestígios do ‘dever ser’ do jornalismo, pois se assentam nos valores cultivados e conquistados por ele ao longo da história; entretanto, sua finalidade comercial e consequente orientação para os interesses de uma elite pode gerar conflitos entre o que dizem e o que efectivamente fazem”. 

“Por isso, é cada vez mais comum que em caso de tensão social os jornais evoquem a imparcialidade como seu principal valor  – e, no lugar de orientar o debate público à luz dos seus próprios valores, fomentem polémicas, desorientem e abasteçam o sentimento de intolerância e cólera no lugar de questioná-lo. Será que o papel de informar acaba mesmo aí?” 

A autora cita igualmente os princípios das Nações Unidas sobre esta matéria:

“Nesse dever ser assumido pela ONU, em que ‘cada jornalista morto ou neutralizado pelo terror é um observador a menos da condição humana’, reside a compreensão de que o jornalismo é essencial à mediação de conflitos e à preservação de direitos. Caberia a ele e às suas instituições, portanto, o importante papel de contribuir para o debate público, inclusive assumindo de vez as responsabilidades sob as quais firmam compromissos com o leitor.” (...) 

Em “tempos de cólera”, isto traz um novo compromisso ao jornalismo, o de “posicionar-se em momentos de convulsão social”.

  1. -  Concretamente, por um posicionamento editorial firme, e de mais clareza, não se limitando, a pretexto de pluralidade, a dar apenas voz a colunistas que, dizendo coisas completamente diferentes, contribuem para “aguçar o sentimento de polarização e de cólera”.
  2. -  Fazendo reportagens esclarecedoras. “Quanto mais dúvidas e mais falta de esclarecimento, quanto mais conflito e polarização, maior será o espaço a ser ocupado pelo jornalismo.”
  3. -  Exercendo uma moderação séria e activa: comentários não são zonas de guerra. “É desalentador ver o volume de desconhecimento, de desinformação e de ódio que se repetem a cada notícia. Em muitos casos, é possível ler ameaças contra os jornalistas que assinam as notícias: o retrato perfeito de um tempo de convulsão e de intolerância. (...) É preciso lembrar que um bom jornal é feito também de bons leitores e que esses mesmos leitores podem estar dispostos a negociar em situações de conflito. Informações bem apuradas, contextualizadas e que não se omitem diante das polémicas e controvérsias continuarão a ter um impacto na sensação e nas emoções do seu público, mas um impacto muito mais coerente com o que se espera do jornalismo.”

 

O comentário citado, na íntegra, em ObjEthos

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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