Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

A autora evoca situações “que resultaram na manifestação de sentimentos de ódio e intolerância, cada vez mais comuns, como no episódio da marcha contra a igualdade racial, nos EUA”, ou, no Brasil, “a polarização no mínimo extravagante entre quem argumentava que o nazismo era de esquerda e quem assegurava que era de direita”, deixando a pergunta sobre “o que fazer dessas emoções”: 

“O jornalismo é responsável por elas? Se for, como pode exercer um papel de orientação ou mesmo de pacificação em meio a grandes conflitos sociais?” (...) 

O texto cita, depois, a postura de três grandes instituições mediáticas no Brasil, as organizações Globo, o Grupo Estado e a Folha de são Paulo, que, sendo embora privadas, guardam nos seus princípios editoriais “muitos vestígios do ‘dever ser’ do jornalismo, pois se assentam nos valores cultivados e conquistados por ele ao longo da história; entretanto, sua finalidade comercial e consequente orientação para os interesses de uma elite pode gerar conflitos entre o que dizem e o que efectivamente fazem”. 

“Por isso, é cada vez mais comum que em caso de tensão social os jornais evoquem a imparcialidade como seu principal valor  – e, no lugar de orientar o debate público à luz dos seus próprios valores, fomentem polémicas, desorientem e abasteçam o sentimento de intolerância e cólera no lugar de questioná-lo. Será que o papel de informar acaba mesmo aí?” 

A autora cita igualmente os princípios das Nações Unidas sobre esta matéria:

“Nesse dever ser assumido pela ONU, em que ‘cada jornalista morto ou neutralizado pelo terror é um observador a menos da condição humana’, reside a compreensão de que o jornalismo é essencial à mediação de conflitos e à preservação de direitos. Caberia a ele e às suas instituições, portanto, o importante papel de contribuir para o debate público, inclusive assumindo de vez as responsabilidades sob as quais firmam compromissos com o leitor.” (...) 

Em “tempos de cólera”, isto traz um novo compromisso ao jornalismo, o de “posicionar-se em momentos de convulsão social”.

  1. -  Concretamente, por um posicionamento editorial firme, e de mais clareza, não se limitando, a pretexto de pluralidade, a dar apenas voz a colunistas que, dizendo coisas completamente diferentes, contribuem para “aguçar o sentimento de polarização e de cólera”.
  2. -  Fazendo reportagens esclarecedoras. “Quanto mais dúvidas e mais falta de esclarecimento, quanto mais conflito e polarização, maior será o espaço a ser ocupado pelo jornalismo.”
  3. -  Exercendo uma moderação séria e activa: comentários não são zonas de guerra. “É desalentador ver o volume de desconhecimento, de desinformação e de ódio que se repetem a cada notícia. Em muitos casos, é possível ler ameaças contra os jornalistas que assinam as notícias: o retrato perfeito de um tempo de convulsão e de intolerância. (...) É preciso lembrar que um bom jornal é feito também de bons leitores e que esses mesmos leitores podem estar dispostos a negociar em situações de conflito. Informações bem apuradas, contextualizadas e que não se omitem diante das polémicas e controvérsias continuarão a ter um impacto na sensação e nas emoções do seu público, mas um impacto muito mais coerente com o que se espera do jornalismo.”

 

O comentário citado, na íntegra, em ObjEthos

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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