Quinta-feira, 21 de Março, 2019
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O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

A autora evoca situações “que resultaram na manifestação de sentimentos de ódio e intolerância, cada vez mais comuns, como no episódio da marcha contra a igualdade racial, nos EUA”, ou, no Brasil, “a polarização no mínimo extravagante entre quem argumentava que o nazismo era de esquerda e quem assegurava que era de direita”, deixando a pergunta sobre “o que fazer dessas emoções”: 

“O jornalismo é responsável por elas? Se for, como pode exercer um papel de orientação ou mesmo de pacificação em meio a grandes conflitos sociais?” (...) 

O texto cita, depois, a postura de três grandes instituições mediáticas no Brasil, as organizações Globo, o Grupo Estado e a Folha de são Paulo, que, sendo embora privadas, guardam nos seus princípios editoriais “muitos vestígios do ‘dever ser’ do jornalismo, pois se assentam nos valores cultivados e conquistados por ele ao longo da história; entretanto, sua finalidade comercial e consequente orientação para os interesses de uma elite pode gerar conflitos entre o que dizem e o que efectivamente fazem”. 

“Por isso, é cada vez mais comum que em caso de tensão social os jornais evoquem a imparcialidade como seu principal valor  – e, no lugar de orientar o debate público à luz dos seus próprios valores, fomentem polémicas, desorientem e abasteçam o sentimento de intolerância e cólera no lugar de questioná-lo. Será que o papel de informar acaba mesmo aí?” 

A autora cita igualmente os princípios das Nações Unidas sobre esta matéria:

“Nesse dever ser assumido pela ONU, em que ‘cada jornalista morto ou neutralizado pelo terror é um observador a menos da condição humana’, reside a compreensão de que o jornalismo é essencial à mediação de conflitos e à preservação de direitos. Caberia a ele e às suas instituições, portanto, o importante papel de contribuir para o debate público, inclusive assumindo de vez as responsabilidades sob as quais firmam compromissos com o leitor.” (...) 

Em “tempos de cólera”, isto traz um novo compromisso ao jornalismo, o de “posicionar-se em momentos de convulsão social”.

  1. -  Concretamente, por um posicionamento editorial firme, e de mais clareza, não se limitando, a pretexto de pluralidade, a dar apenas voz a colunistas que, dizendo coisas completamente diferentes, contribuem para “aguçar o sentimento de polarização e de cólera”.
  2. -  Fazendo reportagens esclarecedoras. “Quanto mais dúvidas e mais falta de esclarecimento, quanto mais conflito e polarização, maior será o espaço a ser ocupado pelo jornalismo.”
  3. -  Exercendo uma moderação séria e activa: comentários não são zonas de guerra. “É desalentador ver o volume de desconhecimento, de desinformação e de ódio que se repetem a cada notícia. Em muitos casos, é possível ler ameaças contra os jornalistas que assinam as notícias: o retrato perfeito de um tempo de convulsão e de intolerância. (...) É preciso lembrar que um bom jornal é feito também de bons leitores e que esses mesmos leitores podem estar dispostos a negociar em situações de conflito. Informações bem apuradas, contextualizadas e que não se omitem diante das polémicas e controvérsias continuarão a ter um impacto na sensação e nas emoções do seu público, mas um impacto muito mais coerente com o que se espera do jornalismo.”

 

O comentário citado, na íntegra, em ObjEthos

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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