null, 26 de Maio, 2019
Media

Imprensa espanhola pode estar à beira da extinção por imobilismo suicida

Os diários espanhóis perderam, em poucos anos, cerca de 50% da circulação e 60% da sua receita publicitária. No mesmo período foram suprimidos 15 mil postos de trabalho de jornalistas, mas todos os anos saem seis mil novos licenciados das várias escolas de comunicação. “Já temos grandes cidades sem jornais impressos”  - avisou recentemente Juan Luís Cebrián, presidente executivo da PRISA. A conclusão que se segue pode parecer alarmista, mas é a que escolheu, para título do seu texto, Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics: “A Imprensa caminha para a sua extinção num imobilismo suicida”.

O texto que assina é sobretudo uma uma crítica à persistência nos mesmos métodos de trabalho: “A apresentação editorial e jornalística continua exactamente igual ao que era há 20 ou 25 anos. Baixou a qualidade, e a informação mistura-se com opinião, com demasiada frequência.” (...) 

“Na Espanha, as primeiras páginas dos diários continuam idênticas, as secções são as mesmas e é clamorosa a falta de inovação jornalística. Os títulos de primeira página misturam frequentemente opinião com informação, rompendo o que era um princípio sagrado do jornalismo de qualidade.” (...)

Este imobilismo não está apenas, segundo Ormaetxea, nas redacções:

“As televisões e estações de rádio [reproduzem] as primeiras páginas dos diários impressos, com absoluto esquecimento dos meios digitais, que têm, com frequência, uma difusão muito maior que a de alguns dos citados diários.” 

O autor menciona, como exemplo contrário, o de alguns grandes jornais de outros países, como The New York Times, Le Monde, The Washington Post ou Financial Times, onde se pode encontrar “muito mais análise, mais temas em profundidade, mais opiniões de peritos, novas secções e distribuição da informação de modos novos”. 

Em sua opinião, tudo isto, associado às quebras na receita publicitária, ao domínio do Facebook, “que se converteu no maior meio de comunicação do mundo e recolhe 80% da publicidade digital sem gerar conteúdos nem contrarar jornalistas”, mais as diversas ameaças contidas na “mudança de paradigma” pela “robotização”, a manipulação genética e a inteligência artificial, desenvolvem uma situação que não se compadece com o citado imobilismo da Imprensa espanhola  -  que continua a “esmagar os seus leitores em sofrimento com a meia dúzia de temas que todos disputam; uma deriva que tem muito de suicídio”. 

 

O artigo de Miguel Ormaetxea, na íntegra, em Media-tics, de onde colhemos também a imagem utilizada

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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