Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Media

Imprensa espanhola pode estar à beira da extinção por imobilismo suicida

Os diários espanhóis perderam, em poucos anos, cerca de 50% da circulação e 60% da sua receita publicitária. No mesmo período foram suprimidos 15 mil postos de trabalho de jornalistas, mas todos os anos saem seis mil novos licenciados das várias escolas de comunicação. “Já temos grandes cidades sem jornais impressos”  - avisou recentemente Juan Luís Cebrián, presidente executivo da PRISA. A conclusão que se segue pode parecer alarmista, mas é a que escolheu, para título do seu texto, Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics: “A Imprensa caminha para a sua extinção num imobilismo suicida”.

O texto que assina é sobretudo uma uma crítica à persistência nos mesmos métodos de trabalho: “A apresentação editorial e jornalística continua exactamente igual ao que era há 20 ou 25 anos. Baixou a qualidade, e a informação mistura-se com opinião, com demasiada frequência.” (...) 

“Na Espanha, as primeiras páginas dos diários continuam idênticas, as secções são as mesmas e é clamorosa a falta de inovação jornalística. Os títulos de primeira página misturam frequentemente opinião com informação, rompendo o que era um princípio sagrado do jornalismo de qualidade.” (...)

Este imobilismo não está apenas, segundo Ormaetxea, nas redacções:

“As televisões e estações de rádio [reproduzem] as primeiras páginas dos diários impressos, com absoluto esquecimento dos meios digitais, que têm, com frequência, uma difusão muito maior que a de alguns dos citados diários.” 

O autor menciona, como exemplo contrário, o de alguns grandes jornais de outros países, como The New York Times, Le Monde, The Washington Post ou Financial Times, onde se pode encontrar “muito mais análise, mais temas em profundidade, mais opiniões de peritos, novas secções e distribuição da informação de modos novos”. 

Em sua opinião, tudo isto, associado às quebras na receita publicitária, ao domínio do Facebook, “que se converteu no maior meio de comunicação do mundo e recolhe 80% da publicidade digital sem gerar conteúdos nem contrarar jornalistas”, mais as diversas ameaças contidas na “mudança de paradigma” pela “robotização”, a manipulação genética e a inteligência artificial, desenvolvem uma situação que não se compadece com o citado imobilismo da Imprensa espanhola  -  que continua a “esmagar os seus leitores em sofrimento com a meia dúzia de temas que todos disputam; uma deriva que tem muito de suicídio”. 

 

O artigo de Miguel Ormaetxea, na íntegra, em Media-tics, de onde colhemos também a imagem utilizada

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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