Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
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Para o director do "El Pais" Antonio Caño a verdade no jornalismo é inimiga do populismo

“A busca da verdade é a única coisa que dá sentido a um jornalista”. O jornalismo livre, independente e de qualidade está em perigo, o que deixa também em perigo a democracia representativa. A crise que pôs em causa a sobrevivência do jornalismo responsável não é só do modelo de negócio, é uma crise de credibilidade que coloca no mesmo patamar as opiniões e a realidade dos factos. É aqui que entram as redes sociais, em cujo “ruído” as pessoas se sentem livres para escolher como verdade aquilo em que já acreditavam, mesmo que seja desmentido. É este o núcleo da reflexão de Antonio Caño, director de El País, em entrevista ao Público.

A questão de fundo é, portanto, a da verdade, “a busca honesta da verdade”, como diz Antonio Caño, citando a frase de Thimothy Garton Ash, historiador e colunista do The Guardian, que abre esta sintese. 

“A verdade é inimiga do populismo. Hoje questiona-se muito o que é isso da verdade. A moda são as emoções, os estados de alma. As opiniões não têm todas o mesmo valor e nada valem perante a realidade dos factos, e neste momento é muito difícil estabelecer essa realidade. (...) A razão está em retrocesso, e a defesa dos factos mediante o uso da razão está a ser ameaçada. Para quem fez carreira a acreditar na defesa dos argumentos racionais, é um problema muito sério.” (...) 

“Há imensas pessoas que querem continuar a acreditar naquilo em que acreditam, independentemente das provas em contrário que lhes apresentem.” (...) 

“Isto é parte das dificuldades que o jornalismo enfrenta, porque mesmo que o nosso jornal seja muito bom, vai sempre haver um grupo de pessoas muito sectárias que não quer acreditar, e pouco lhes importa que seja verdade ou não. É o chamado ‘jornal do eu’. Essa possibilidade de ler uma notícia aqui, outra ali e outra acolá, faz com que algumas pessoas elejam aquelas com as quais estão de acordo. Tudo o resto é simplesmente descartado. E as pessoas vivem felizes dentro desse ambiente que elas próprias criam.” (...)   

O segundo problema é o da crise económica de 2008, “que rompeu com anos de calma e tranquilidade no panorama internacional. A maneira como a classe política geriu esta crise global, que afectou especialmente a Europa e os Estados Unidos, provocou uma série de frustrações que se foram multiplicando e a que as novas tecnologias deram uma gigantesca possibilidade de difusão. E essas frustrações vieram pôr em causa toda a ordem democrático-liberal estabelecida e todas as suas instituições, nas quais se inserem o jornalismo e os jornais”. (...) 

“A crise económica foi destrutiva, não só em termos materiais e quotidianos, mas também do ponto de vista ético e moral. Causou enormes danos em quase todos os países desenvolvidos, e um desses danos graves foi ter posto o jornalismo de qualidade à beira do abismo.” (...) 

Sobre as grandes plataformas digitais e as redes sociais que nelas proliferam, Antonio Caño entende que temos de distinguir entre o que é inevitável e o que é importante e devemos continuar a defender. Por exemplo: 

“O mundo mudou, já não podemos pensar em pôr os jornais à venda num quiosque e esperar que as pessoas vão lá comprá-lo. Se os leitores estão no Facebook, nós temos de estar no Facebook. E o mesmo se passa com o Whatsapp ou o Instagram. Temos de procurar os leitores com humildade, tendo a noção que haverá ocasiões em que nem nos vão reconhecer, isto é, em que vão ler as notícias na página do El País no Facebook e, se depois lhes perguntarmos onde as leram, a resposta será ‘no Facebook’ e não ‘no El País’. Essa é uma realidade com a qual temos de lidar, sabendo que somos necessários e que não nos podemos entregar à demagogia, que é hoje um perigo muito grande, pois tem à sua disposição um megafone, uma maneira de chegar mais longe e mais alto.” (...) 

E reconhece ao jornal impresso uma função que não tem de morrer:

“A minha gestão [do El País] tem passado essencialmente pela transformação digital, e houve ocasiões em que fui mal-interpretado e algumas pessoas, quer de dentro do jornal quer de fora, pensaram que esta direcção digital pressupunha que eu não acreditava na edição em papel, ou que tinha intenção de acabar com o jornal em papel. Nada mais longe da verdade.” 

“Estou convicto de que o papel tem uma função primordial. Há muitos entrevistados cujas entrevistas vão ser lidas na Internet por 45 milhões, mas que ainda me perguntam se sairá no papel, por muito que só alguns milhares de pessoas a leiam nesse formato. O papel mantém essa força de ser algo em que se pode tocar, que se pode guardar. O papel é mais um dos instrumentos que temos e que devemos continuar a utilizá-lo, por muito que às vezes seja tentador eliminar a edição impressa, pelo que custa e pelo pouco rendimento que produz.” 

“Às vezes fazemos umas contas e pensamos que se deixássemos o papel e investíssemos todo esse dinheiro no digital podíamos ser muito maiores. Seria um erro. Creio que os próprios jornais digitais gostariam de ter uma edição impressa, se pudessem. Portanto, sou da opinião que devemos manter o papel, pelo menos enquanto for possível. (...)

 

A entrevista com Antonio Caño na íntegra, na revista P2 do Público

 

 

 

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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