Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Fórum

Para o director do "El Pais" Antonio Caño a verdade no jornalismo é inimiga do populismo

“A busca da verdade é a única coisa que dá sentido a um jornalista”. O jornalismo livre, independente e de qualidade está em perigo, o que deixa também em perigo a democracia representativa. A crise que pôs em causa a sobrevivência do jornalismo responsável não é só do modelo de negócio, é uma crise de credibilidade que coloca no mesmo patamar as opiniões e a realidade dos factos. É aqui que entram as redes sociais, em cujo “ruído” as pessoas se sentem livres para escolher como verdade aquilo em que já acreditavam, mesmo que seja desmentido. É este o núcleo da reflexão de Antonio Caño, director de El País, em entrevista ao Público.

A questão de fundo é, portanto, a da verdade, “a busca honesta da verdade”, como diz Antonio Caño, citando a frase de Thimothy Garton Ash, historiador e colunista do The Guardian, que abre esta sintese. 

“A verdade é inimiga do populismo. Hoje questiona-se muito o que é isso da verdade. A moda são as emoções, os estados de alma. As opiniões não têm todas o mesmo valor e nada valem perante a realidade dos factos, e neste momento é muito difícil estabelecer essa realidade. (...) A razão está em retrocesso, e a defesa dos factos mediante o uso da razão está a ser ameaçada. Para quem fez carreira a acreditar na defesa dos argumentos racionais, é um problema muito sério.” (...) 

“Há imensas pessoas que querem continuar a acreditar naquilo em que acreditam, independentemente das provas em contrário que lhes apresentem.” (...) 

“Isto é parte das dificuldades que o jornalismo enfrenta, porque mesmo que o nosso jornal seja muito bom, vai sempre haver um grupo de pessoas muito sectárias que não quer acreditar, e pouco lhes importa que seja verdade ou não. É o chamado ‘jornal do eu’. Essa possibilidade de ler uma notícia aqui, outra ali e outra acolá, faz com que algumas pessoas elejam aquelas com as quais estão de acordo. Tudo o resto é simplesmente descartado. E as pessoas vivem felizes dentro desse ambiente que elas próprias criam.” (...)   

O segundo problema é o da crise económica de 2008, “que rompeu com anos de calma e tranquilidade no panorama internacional. A maneira como a classe política geriu esta crise global, que afectou especialmente a Europa e os Estados Unidos, provocou uma série de frustrações que se foram multiplicando e a que as novas tecnologias deram uma gigantesca possibilidade de difusão. E essas frustrações vieram pôr em causa toda a ordem democrático-liberal estabelecida e todas as suas instituições, nas quais se inserem o jornalismo e os jornais”. (...) 

“A crise económica foi destrutiva, não só em termos materiais e quotidianos, mas também do ponto de vista ético e moral. Causou enormes danos em quase todos os países desenvolvidos, e um desses danos graves foi ter posto o jornalismo de qualidade à beira do abismo.” (...) 

Sobre as grandes plataformas digitais e as redes sociais que nelas proliferam, Antonio Caño entende que temos de distinguir entre o que é inevitável e o que é importante e devemos continuar a defender. Por exemplo: 

“O mundo mudou, já não podemos pensar em pôr os jornais à venda num quiosque e esperar que as pessoas vão lá comprá-lo. Se os leitores estão no Facebook, nós temos de estar no Facebook. E o mesmo se passa com o Whatsapp ou o Instagram. Temos de procurar os leitores com humildade, tendo a noção que haverá ocasiões em que nem nos vão reconhecer, isto é, em que vão ler as notícias na página do El País no Facebook e, se depois lhes perguntarmos onde as leram, a resposta será ‘no Facebook’ e não ‘no El País’. Essa é uma realidade com a qual temos de lidar, sabendo que somos necessários e que não nos podemos entregar à demagogia, que é hoje um perigo muito grande, pois tem à sua disposição um megafone, uma maneira de chegar mais longe e mais alto.” (...) 

E reconhece ao jornal impresso uma função que não tem de morrer:

“A minha gestão [do El País] tem passado essencialmente pela transformação digital, e houve ocasiões em que fui mal-interpretado e algumas pessoas, quer de dentro do jornal quer de fora, pensaram que esta direcção digital pressupunha que eu não acreditava na edição em papel, ou que tinha intenção de acabar com o jornal em papel. Nada mais longe da verdade.” 

“Estou convicto de que o papel tem uma função primordial. Há muitos entrevistados cujas entrevistas vão ser lidas na Internet por 45 milhões, mas que ainda me perguntam se sairá no papel, por muito que só alguns milhares de pessoas a leiam nesse formato. O papel mantém essa força de ser algo em que se pode tocar, que se pode guardar. O papel é mais um dos instrumentos que temos e que devemos continuar a utilizá-lo, por muito que às vezes seja tentador eliminar a edição impressa, pelo que custa e pelo pouco rendimento que produz.” 

“Às vezes fazemos umas contas e pensamos que se deixássemos o papel e investíssemos todo esse dinheiro no digital podíamos ser muito maiores. Seria um erro. Creio que os próprios jornais digitais gostariam de ter uma edição impressa, se pudessem. Portanto, sou da opinião que devemos manter o papel, pelo menos enquanto for possível. (...)

 

A entrevista com Antonio Caño na íntegra, na revista P2 do Público

 

 

 

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...