Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

O sucesso na net de uma estação de TV privada lituana financiada por “crowdfunding”

Ao fim do primeiro ano de vida, o canal de televisão Laisvés TV, transmitido pela Internet e financiado pelo público, ocupa um lugar incontornável na paisagem mediática da Lituânia. O seu fundador, Andrius Tapinas, conta que o fez “motivado pelo choque de perder o meu programa na televisão lituana”, e que, em quatro meses, a Laisvés TV (o título significa Liberdade) já era “a maior entidade dos media lituanos no YouTube, com alguns dos programas alcançando números de audiência de seis dígitos e competindo com os programas mais populares da TV tradicional”.

Andrius Tapinas atribui o sucesso quase instantâneo do seu projecto à natureza libertadora da Internet, definida por si nestes termos: 

“O advento da Internet, há mais ou menos 30 anos, viciou o mundo numa das drogas mais poderosas disponíveis às sociedades modernas  – o acesso livre e imediato à informação.” 

Toda a primeira metade do seu texto, publicado na mais recente edição do Correio da UNESCO, descreve o que sucedeu como um triunfo sobre “a velha guarda dos media”: 

“E se você pertence à velha guarda dos media, é bem provável que não goste. A imprensa e a televisão tradicionais foram apanhadas desprevenidas  – tecnológica, financeira e criativamente –  pela revolução digital, e estão passando pelos maiores desafios que já enfrentaram. Elas têm condições para enfrentar esses desafios? Na verdade, não. Mas elas não têm escolha  – ou nadam ou afundam.” 

“Antes que pudessem entender o que estava acontecendo, uma segunda onda  – as [redes] sociais – atingiu a velha guarda. Essa onda era maior e mais forte do que a Internet e teve consequências mais severas. As empresas das [redes] sociais ficaram numa posição de vantagem, com a redução da quantidade de assinaturas pagas de jornais e revistas, e com a defasagem dos canais de TV em relação aos milhares de sites de notícias da Internet.” 

“De repente, todo mundo se tornou os media  – operador de câmara, editor, escritor, jornalista, promotor –  em um só pacote. Os guardiões da Informação viram seus portões ruírem e perderam o maior privilégio de todos  – o direito de decidir o que é importante e o que não é.” (…) 

Andrius Tapinas descreve neste contexto o triunfo de Donald Trump como “o primeiro presidente das [redes] sociais dos EUA”.

Descreve também o YouTube como “o maior repositório de televisão e serviço de hospedagem de vídeos do mundo, sendo que, ele próprio, não cria quase nada de conteúdo, mas é um porto seguro para todos os aspirantes a qualquer coisa da face da Terra. Qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, hoje em dia, pode ser qualquer coisa que sonhar  – cantor, chef, boxeador, estrela dos media. O céu é o limite, e é tudo de graça.” (…) 

Mais adiante, admite que nem tudo é positivo na “liberdade sem limites” dos novos media

"Notícias falsas, linchamentos virtuais, trolls e acusações infundadas proliferam. (...) Não existem filtros nem edição, e nenhuma necessidade de ter comedimento ou decência se a pessoa não quiser.” (…) 

 

Mas a sua conclusão é optimista: 

“Nosso modelo de negócios é novo e se insere na revolução digital, mas não é exclusivo. Projectos jornalísticos semelhantes, financiados pelo público, já foram lançados nos Países Baixos, na Suíça, na Índia e em vários outros países. Não é fácil, é o trabalho mais difícil que já realizei em minha carreira de quase 20 anos. No entanto, é o único caminho que quero percorrer como jornalista. E foi a revolução digital que me deu essa chance.”

 

O texto de Andrius Tapinas, na íntegra, na pág. 20 da edição de Jul.-Set.2017 do Correio da UNESCO, e uma apresentação da Laisvés TV, num vídeo da mesma estação.

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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