Sábado, 20 de Outubro, 2018
Media

O sucesso na net de uma estação de TV privada lituana financiada por “crowdfunding”

Ao fim do primeiro ano de vida, o canal de televisão Laisvés TV, transmitido pela Internet e financiado pelo público, ocupa um lugar incontornável na paisagem mediática da Lituânia. O seu fundador, Andrius Tapinas, conta que o fez “motivado pelo choque de perder o meu programa na televisão lituana”, e que, em quatro meses, a Laisvés TV (o título significa Liberdade) já era “a maior entidade dos media lituanos no YouTube, com alguns dos programas alcançando números de audiência de seis dígitos e competindo com os programas mais populares da TV tradicional”.

Andrius Tapinas atribui o sucesso quase instantâneo do seu projecto à natureza libertadora da Internet, definida por si nestes termos: 

“O advento da Internet, há mais ou menos 30 anos, viciou o mundo numa das drogas mais poderosas disponíveis às sociedades modernas  – o acesso livre e imediato à informação.” 

Toda a primeira metade do seu texto, publicado na mais recente edição do Correio da UNESCO, descreve o que sucedeu como um triunfo sobre “a velha guarda dos media”: 

“E se você pertence à velha guarda dos media, é bem provável que não goste. A imprensa e a televisão tradicionais foram apanhadas desprevenidas  – tecnológica, financeira e criativamente –  pela revolução digital, e estão passando pelos maiores desafios que já enfrentaram. Elas têm condições para enfrentar esses desafios? Na verdade, não. Mas elas não têm escolha  – ou nadam ou afundam.” 

“Antes que pudessem entender o que estava acontecendo, uma segunda onda  – as [redes] sociais – atingiu a velha guarda. Essa onda era maior e mais forte do que a Internet e teve consequências mais severas. As empresas das [redes] sociais ficaram numa posição de vantagem, com a redução da quantidade de assinaturas pagas de jornais e revistas, e com a defasagem dos canais de TV em relação aos milhares de sites de notícias da Internet.” 

“De repente, todo mundo se tornou os media  – operador de câmara, editor, escritor, jornalista, promotor –  em um só pacote. Os guardiões da Informação viram seus portões ruírem e perderam o maior privilégio de todos  – o direito de decidir o que é importante e o que não é.” (…) 

Andrius Tapinas descreve neste contexto o triunfo de Donald Trump como “o primeiro presidente das [redes] sociais dos EUA”.

Descreve também o YouTube como “o maior repositório de televisão e serviço de hospedagem de vídeos do mundo, sendo que, ele próprio, não cria quase nada de conteúdo, mas é um porto seguro para todos os aspirantes a qualquer coisa da face da Terra. Qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, hoje em dia, pode ser qualquer coisa que sonhar  – cantor, chef, boxeador, estrela dos media. O céu é o limite, e é tudo de graça.” (…) 

Mais adiante, admite que nem tudo é positivo na “liberdade sem limites” dos novos media

"Notícias falsas, linchamentos virtuais, trolls e acusações infundadas proliferam. (...) Não existem filtros nem edição, e nenhuma necessidade de ter comedimento ou decência se a pessoa não quiser.” (…) 

 

Mas a sua conclusão é optimista: 

“Nosso modelo de negócios é novo e se insere na revolução digital, mas não é exclusivo. Projectos jornalísticos semelhantes, financiados pelo público, já foram lançados nos Países Baixos, na Suíça, na Índia e em vários outros países. Não é fácil, é o trabalho mais difícil que já realizei em minha carreira de quase 20 anos. No entanto, é o único caminho que quero percorrer como jornalista. E foi a revolução digital que me deu essa chance.”

 

O texto de Andrius Tapinas, na íntegra, na pág. 20 da edição de Jul.-Set.2017 do Correio da UNESCO, e uma apresentação da Laisvés TV, num vídeo da mesma estação.

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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Opinião
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Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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