Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Media

O jornalismo de investigação distingue o “cão de guarda” do “animal de estimação” ...

O jornalismo de investigação é indispensável para exigir responsabilidades aos detentores do poder, e muito mais em países com regimes autoritários. Sem ele, “teríamos de sobreviver sob um regime de notícias diárias, conteúdo governamental pago e fofocas sobre celebridades; o jornalismo, portanto, funcionaria não como cão de guarda, mas como animal de estimação dos poderosos”. É este o ponto de partida de Sanita Jemberga, da Letónia, para uma reflexão sobre as dificuldades que ameaçam o jornalismo de investigação e como ela própria e um pequeno grupo de entusiastas criaram naquele país um centro que sobrevive há seis anos. 

A sua vontade de continuar a questionar os poderes, como conta em artigo publicado no Correio da UNESCO, “foi testada quando o Diena (Dia), o jornal para o qual trabalhávamos, foi vendido pelo Grupo Bonnier [o conglomerado de media sueco] para oligarcas locais que há anos tentavam silenciá-lo. Isso aconteceu em meio a uma profunda crise económica e a uma queda nas vendas e no número de leitores do jornal, que somente tarde demais começou a levar a Internet a sério”. (…) 

Outra jornalista do grupo, Inga Springe, “passou um ano nos Estados Unidos estudando modelos sem fins lucrativos para o jornalismo investigativo e retornou à Letónia para estabelecer o Centro de Jornalismo Investigativo do Báltico, o Re:Baltica, em 2011; administrado por uma cooperativa de jornalistas, o Centro fornece sem custos os resultados das suas investigações para os media convencionais”. 

“A ideia era relativamente nova na Europa mas, em 2012, já havia mais de 100 centros sem fins lucrativos dedicados ao jornalismo investigativo em mais de 50 países. Todos previram que o Re:Baltica não duraria mais de um ano, mas nós provámos que eles estavam errados. Comemorámos o nosso sexto aniversário em Agosto de 2017. Existem razões claras por que sobrevivemos e prosperamos.” 

Na sequência do artigo, Sanita Jemberga expõe essas razões: muito trabalho e um orçamento que é baseado em doações em 60%, sendo o resto assente nos proventos pessoais dos próprios jornalistas participantes  -  “que ganhamos dando aulas, realizando consultorias e escrevendo roteiros para documentários”. (…) 

“Também somos frugais em relação aos custos  – escolhemos não gastar muito com o nosso website ou com o nosso escritório. A equipe do Re:Baltica consiste em dois cargos editoriais centrais, um designer gráfico e um contador; então, contratamos o resto dos jornalistas de acordo com as necessidades de reportagens específicas  – até 20 ou 30 jornalistas e tradutores por ano.” 

“Nosso trabalho é disponibilizado sem custos para todos os veículos de media que quiserem publicá-lo, mas também temos um grupo dedicado de parceiros na televisão, no rádio, na imprensa e online, com os quais cooperamos de perto. Como esses veículos não são competidores directos, a mensagem se multiplica, assim como o impacto.” (…)

A Re:Baltica participou no trabalho do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação que está na origem dos Panama Papers.

 

O artigo original, na pág. 24 da edição em Português do Correio da UNESCO de Jul.-Set.2017. A imagem, que acompanha o mesmo artigo, é uma ilustração da Cartooning for Peace, apoiada pela UNESCO

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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