Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

O jornalismo de investigação distingue o “cão de guarda” do “animal de estimação” ...

O jornalismo de investigação é indispensável para exigir responsabilidades aos detentores do poder, e muito mais em países com regimes autoritários. Sem ele, “teríamos de sobreviver sob um regime de notícias diárias, conteúdo governamental pago e fofocas sobre celebridades; o jornalismo, portanto, funcionaria não como cão de guarda, mas como animal de estimação dos poderosos”. É este o ponto de partida de Sanita Jemberga, da Letónia, para uma reflexão sobre as dificuldades que ameaçam o jornalismo de investigação e como ela própria e um pequeno grupo de entusiastas criaram naquele país um centro que sobrevive há seis anos. 

A sua vontade de continuar a questionar os poderes, como conta em artigo publicado no Correio da UNESCO, “foi testada quando o Diena (Dia), o jornal para o qual trabalhávamos, foi vendido pelo Grupo Bonnier [o conglomerado de media sueco] para oligarcas locais que há anos tentavam silenciá-lo. Isso aconteceu em meio a uma profunda crise económica e a uma queda nas vendas e no número de leitores do jornal, que somente tarde demais começou a levar a Internet a sério”. (…) 

Outra jornalista do grupo, Inga Springe, “passou um ano nos Estados Unidos estudando modelos sem fins lucrativos para o jornalismo investigativo e retornou à Letónia para estabelecer o Centro de Jornalismo Investigativo do Báltico, o Re:Baltica, em 2011; administrado por uma cooperativa de jornalistas, o Centro fornece sem custos os resultados das suas investigações para os media convencionais”. 

“A ideia era relativamente nova na Europa mas, em 2012, já havia mais de 100 centros sem fins lucrativos dedicados ao jornalismo investigativo em mais de 50 países. Todos previram que o Re:Baltica não duraria mais de um ano, mas nós provámos que eles estavam errados. Comemorámos o nosso sexto aniversário em Agosto de 2017. Existem razões claras por que sobrevivemos e prosperamos.” 

Na sequência do artigo, Sanita Jemberga expõe essas razões: muito trabalho e um orçamento que é baseado em doações em 60%, sendo o resto assente nos proventos pessoais dos próprios jornalistas participantes  -  “que ganhamos dando aulas, realizando consultorias e escrevendo roteiros para documentários”. (…) 

“Também somos frugais em relação aos custos  – escolhemos não gastar muito com o nosso website ou com o nosso escritório. A equipe do Re:Baltica consiste em dois cargos editoriais centrais, um designer gráfico e um contador; então, contratamos o resto dos jornalistas de acordo com as necessidades de reportagens específicas  – até 20 ou 30 jornalistas e tradutores por ano.” 

“Nosso trabalho é disponibilizado sem custos para todos os veículos de media que quiserem publicá-lo, mas também temos um grupo dedicado de parceiros na televisão, no rádio, na imprensa e online, com os quais cooperamos de perto. Como esses veículos não são competidores directos, a mensagem se multiplica, assim como o impacto.” (…)

A Re:Baltica participou no trabalho do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação que está na origem dos Panama Papers.

 

O artigo original, na pág. 24 da edição em Português do Correio da UNESCO de Jul.-Set.2017. A imagem, que acompanha o mesmo artigo, é uma ilustração da Cartooning for Peace, apoiada pela UNESCO

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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