Sábado, 30 de Maio, 2020
Media

O jornalismo de investigação distingue o “cão de guarda” do “animal de estimação” ...

O jornalismo de investigação é indispensável para exigir responsabilidades aos detentores do poder, e muito mais em países com regimes autoritários. Sem ele, “teríamos de sobreviver sob um regime de notícias diárias, conteúdo governamental pago e fofocas sobre celebridades; o jornalismo, portanto, funcionaria não como cão de guarda, mas como animal de estimação dos poderosos”. É este o ponto de partida de Sanita Jemberga, da Letónia, para uma reflexão sobre as dificuldades que ameaçam o jornalismo de investigação e como ela própria e um pequeno grupo de entusiastas criaram naquele país um centro que sobrevive há seis anos. 

A sua vontade de continuar a questionar os poderes, como conta em artigo publicado no Correio da UNESCO, “foi testada quando o Diena (Dia), o jornal para o qual trabalhávamos, foi vendido pelo Grupo Bonnier [o conglomerado de media sueco] para oligarcas locais que há anos tentavam silenciá-lo. Isso aconteceu em meio a uma profunda crise económica e a uma queda nas vendas e no número de leitores do jornal, que somente tarde demais começou a levar a Internet a sério”. (…) 

Outra jornalista do grupo, Inga Springe, “passou um ano nos Estados Unidos estudando modelos sem fins lucrativos para o jornalismo investigativo e retornou à Letónia para estabelecer o Centro de Jornalismo Investigativo do Báltico, o Re:Baltica, em 2011; administrado por uma cooperativa de jornalistas, o Centro fornece sem custos os resultados das suas investigações para os media convencionais”. 

“A ideia era relativamente nova na Europa mas, em 2012, já havia mais de 100 centros sem fins lucrativos dedicados ao jornalismo investigativo em mais de 50 países. Todos previram que o Re:Baltica não duraria mais de um ano, mas nós provámos que eles estavam errados. Comemorámos o nosso sexto aniversário em Agosto de 2017. Existem razões claras por que sobrevivemos e prosperamos.” 

Na sequência do artigo, Sanita Jemberga expõe essas razões: muito trabalho e um orçamento que é baseado em doações em 60%, sendo o resto assente nos proventos pessoais dos próprios jornalistas participantes  -  “que ganhamos dando aulas, realizando consultorias e escrevendo roteiros para documentários”. (…) 

“Também somos frugais em relação aos custos  – escolhemos não gastar muito com o nosso website ou com o nosso escritório. A equipe do Re:Baltica consiste em dois cargos editoriais centrais, um designer gráfico e um contador; então, contratamos o resto dos jornalistas de acordo com as necessidades de reportagens específicas  – até 20 ou 30 jornalistas e tradutores por ano.” 

“Nosso trabalho é disponibilizado sem custos para todos os veículos de media que quiserem publicá-lo, mas também temos um grupo dedicado de parceiros na televisão, no rádio, na imprensa e online, com os quais cooperamos de perto. Como esses veículos não são competidores directos, a mensagem se multiplica, assim como o impacto.” (…)

A Re:Baltica participou no trabalho do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação que está na origem dos Panama Papers.

 

O artigo original, na pág. 24 da edição em Português do Correio da UNESCO de Jul.-Set.2017. A imagem, que acompanha o mesmo artigo, é uma ilustração da Cartooning for Peace, apoiada pela UNESCO

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas