Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Fórum

O lugar da ética jornalística num ambiente tóxico que ocupou o espaço da comunicação

Os meios de comunicação aprenderam da pior maneira como a revolução da informação é uma faca de dois gumes. Apesar do alcance e instantaneidade da comunicação que ela trouxe consigo, “os modelos de negócios que financiaram o jornalismo no passado estão quebrados e, em muitos casos, sem possibilidade de conserto”. Para agravar este problema, “uma mistura tóxica de tecnologia digital, políticas inescrupulosas e exploração comercial do novo cenário das comunicações está criando fissuras de desgaste por todo o campo mais amplo da informação pública”.

É este o núcleo da reflexão da Aidan White, director da Ethical Journalism Network, num texto intitulado “Jornalismo ético – de volta às notícias”, publicado no Correio da UNESCO de Jul.-Set.2017.

“Os últimos 15 anos testemunharam um declínio dramático no jornalismo de notícias, na medida em que a tecnologia alterou a forma de as pessoas se comunicarem e o funcionamento da indústria dos meios de comunicação. Hoje em dia, a maioria de nós lê notícias nos telefones celulares e nas plataformas online, que ficaram ricas explorando os dados pessoais do público e, ao mesmo tempo, tomando espaços de publicidade lucrativos dos media tradicionais.” (…)

 

Como conta Aidan White, que aqui citamos, a Rede de Jornalismo Ético foi criada há cinco anos precisamente “para fortalecer o jornalismo no enfrentamento dessa crise”.

 

“Como coligação de mais de 60 grupos de jornalistas, editores, donos de empresas e grupos de apoio aos media, a EJN promove treinamento e acções práticas para fortalecer a ética e a governança. (…) Como a rede está enraizada nos media, os relatórios produzidos pela EJN, que cobrem vários países, gozam de credibilidade na área jornalística, mesmo aqueles que revelam histórias não contadas sobre a realidade do funcionamento dos media e os desafios da autorregulação.”

 

“A EJN percebeu neste período de incertezas que, apesar do clima político e económico cada vez mais hostil, jornalistas de todo o mundo  - da Turquia, Síria e Egipto ao Paquistão, China e Indonésia -  se mantêm comprometidos a relatar a verdade e a respeitar os princípios éticos.” (…)

 

“Os valores centrais de exactidão, independência e jornalismo responsável  - que evoluíram ao longo dos últimos 150 anos -  continuam a ser tão relevantes quanto nunca, mesmo nesta época digital. Como diz a EJN, precisamos mesmo de uma nova parceria com o público consumidor dos media e com os formuladores de políticas, para persuadi-los de que o jornalismo ético deve ser fortalecido, e que ele pode ser usado como inspiração para novos programas que promovam a alfabetização informacional.” (…)

 

A maior parte do trabalho de Aidan White incide sobre o ambiente hostil que a ética jornalística encontra no funcionamento das grandes plataformas distribuidoras, que têm outro tipo de preocupações fundamentais:

 

“Usando algoritmos sofisticados e bancos de dados ilimitados que dão acesso a milhões de utentes, o modelo de negócios dessas empresas é impulsionado por um objectivo simples: incentivar as ‘informações virais’, que geram clics suficientes para se tornarem veículos eficazes de [publicidade] digital. O que importa não é se a informação é ética, verdadeira ou honesta; o que conta é se ela é sensacionalista, provocativa e estimulante o bastante para atrair atenção.”

 

“Ainda que sejam muito sofisticados, não é possível programar robots digitais para que tenham valores éticos e morais. Quem melhor pode lidar com questões éticas são seres humanos conscientes  - jornalistas e editores bem treinados, informados e responsáveis.” (…)

 

 

O texto original de Aidan White, na Ethical Journalism Network, e a sua tradução na pág. 7 da edição em Português do Correio da UNESCO

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
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