Sábado, 17 de Novembro, 2018
Fórum

O lugar da ética jornalística num ambiente tóxico que ocupou o espaço da comunicação

Os meios de comunicação aprenderam da pior maneira como a revolução da informação é uma faca de dois gumes. Apesar do alcance e instantaneidade da comunicação que ela trouxe consigo, “os modelos de negócios que financiaram o jornalismo no passado estão quebrados e, em muitos casos, sem possibilidade de conserto”. Para agravar este problema, “uma mistura tóxica de tecnologia digital, políticas inescrupulosas e exploração comercial do novo cenário das comunicações está criando fissuras de desgaste por todo o campo mais amplo da informação pública”.

É este o núcleo da reflexão da Aidan White, director da Ethical Journalism Network, num texto intitulado “Jornalismo ético – de volta às notícias”, publicado no Correio da UNESCO de Jul.-Set.2017.

“Os últimos 15 anos testemunharam um declínio dramático no jornalismo de notícias, na medida em que a tecnologia alterou a forma de as pessoas se comunicarem e o funcionamento da indústria dos meios de comunicação. Hoje em dia, a maioria de nós lê notícias nos telefones celulares e nas plataformas online, que ficaram ricas explorando os dados pessoais do público e, ao mesmo tempo, tomando espaços de publicidade lucrativos dos media tradicionais.” (…)

 

Como conta Aidan White, que aqui citamos, a Rede de Jornalismo Ético foi criada há cinco anos precisamente “para fortalecer o jornalismo no enfrentamento dessa crise”.

 

“Como coligação de mais de 60 grupos de jornalistas, editores, donos de empresas e grupos de apoio aos media, a EJN promove treinamento e acções práticas para fortalecer a ética e a governança. (…) Como a rede está enraizada nos media, os relatórios produzidos pela EJN, que cobrem vários países, gozam de credibilidade na área jornalística, mesmo aqueles que revelam histórias não contadas sobre a realidade do funcionamento dos media e os desafios da autorregulação.”

 

“A EJN percebeu neste período de incertezas que, apesar do clima político e económico cada vez mais hostil, jornalistas de todo o mundo  - da Turquia, Síria e Egipto ao Paquistão, China e Indonésia -  se mantêm comprometidos a relatar a verdade e a respeitar os princípios éticos.” (…)

 

“Os valores centrais de exactidão, independência e jornalismo responsável  - que evoluíram ao longo dos últimos 150 anos -  continuam a ser tão relevantes quanto nunca, mesmo nesta época digital. Como diz a EJN, precisamos mesmo de uma nova parceria com o público consumidor dos media e com os formuladores de políticas, para persuadi-los de que o jornalismo ético deve ser fortalecido, e que ele pode ser usado como inspiração para novos programas que promovam a alfabetização informacional.” (…)

 

A maior parte do trabalho de Aidan White incide sobre o ambiente hostil que a ética jornalística encontra no funcionamento das grandes plataformas distribuidoras, que têm outro tipo de preocupações fundamentais:

 

“Usando algoritmos sofisticados e bancos de dados ilimitados que dão acesso a milhões de utentes, o modelo de negócios dessas empresas é impulsionado por um objectivo simples: incentivar as ‘informações virais’, que geram clics suficientes para se tornarem veículos eficazes de [publicidade] digital. O que importa não é se a informação é ética, verdadeira ou honesta; o que conta é se ela é sensacionalista, provocativa e estimulante o bastante para atrair atenção.”

 

“Ainda que sejam muito sofisticados, não é possível programar robots digitais para que tenham valores éticos e morais. Quem melhor pode lidar com questões éticas são seres humanos conscientes  - jornalistas e editores bem treinados, informados e responsáveis.” (…)

 

 

O texto original de Aidan White, na Ethical Journalism Network, e a sua tradução na pág. 7 da edição em Português do Correio da UNESCO

Connosco
Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

Será orador convidado, no próximo dia 22 de Novembro, Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Gulbenkian, que tem dedicado à problemática do ensino e às causas da cultura e da ciência o essencial da sua actividade de intelectual, de homem político e enquanto docente.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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As notícias falsas e a internet
Francisco Sarsfield Cabral
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