Sexta-feira, 22 de Setembro, 2017
Fórum

O lugar da ética jornalística num ambiente tóxico que ocupou o espaço da comunicação

Os meios de comunicação aprenderam da pior maneira como a revolução da informação é uma faca de dois gumes. Apesar do alcance e instantaneidade da comunicação que ela trouxe consigo, “os modelos de negócios que financiaram o jornalismo no passado estão quebrados e, em muitos casos, sem possibilidade de conserto”. Para agravar este problema, “uma mistura tóxica de tecnologia digital, políticas inescrupulosas e exploração comercial do novo cenário das comunicações está criando fissuras de desgaste por todo o campo mais amplo da informação pública”.

É este o núcleo da reflexão da Aidan White, director da Ethical Journalism Network, num texto intitulado “Jornalismo ético – de volta às notícias”, publicado no Correio da UNESCO de Jul.-Set.2017.

“Os últimos 15 anos testemunharam um declínio dramático no jornalismo de notícias, na medida em que a tecnologia alterou a forma de as pessoas se comunicarem e o funcionamento da indústria dos meios de comunicação. Hoje em dia, a maioria de nós lê notícias nos telefones celulares e nas plataformas online, que ficaram ricas explorando os dados pessoais do público e, ao mesmo tempo, tomando espaços de publicidade lucrativos dos media tradicionais.” (…)

 

Como conta Aidan White, que aqui citamos, a Rede de Jornalismo Ético foi criada há cinco anos precisamente “para fortalecer o jornalismo no enfrentamento dessa crise”.

 

“Como coligação de mais de 60 grupos de jornalistas, editores, donos de empresas e grupos de apoio aos media, a EJN promove treinamento e acções práticas para fortalecer a ética e a governança. (…) Como a rede está enraizada nos media, os relatórios produzidos pela EJN, que cobrem vários países, gozam de credibilidade na área jornalística, mesmo aqueles que revelam histórias não contadas sobre a realidade do funcionamento dos media e os desafios da autorregulação.”

 

“A EJN percebeu neste período de incertezas que, apesar do clima político e económico cada vez mais hostil, jornalistas de todo o mundo  - da Turquia, Síria e Egipto ao Paquistão, China e Indonésia -  se mantêm comprometidos a relatar a verdade e a respeitar os princípios éticos.” (…)

 

“Os valores centrais de exactidão, independência e jornalismo responsável  - que evoluíram ao longo dos últimos 150 anos -  continuam a ser tão relevantes quanto nunca, mesmo nesta época digital. Como diz a EJN, precisamos mesmo de uma nova parceria com o público consumidor dos media e com os formuladores de políticas, para persuadi-los de que o jornalismo ético deve ser fortalecido, e que ele pode ser usado como inspiração para novos programas que promovam a alfabetização informacional.” (…)

 

A maior parte do trabalho de Aidan White incide sobre o ambiente hostil que a ética jornalística encontra no funcionamento das grandes plataformas distribuidoras, que têm outro tipo de preocupações fundamentais:

 

“Usando algoritmos sofisticados e bancos de dados ilimitados que dão acesso a milhões de utentes, o modelo de negócios dessas empresas é impulsionado por um objectivo simples: incentivar as ‘informações virais’, que geram clics suficientes para se tornarem veículos eficazes de [publicidade] digital. O que importa não é se a informação é ética, verdadeira ou honesta; o que conta é se ela é sensacionalista, provocativa e estimulante o bastante para atrair atenção.”

 

“Ainda que sejam muito sofisticados, não é possível programar robots digitais para que tenham valores éticos e morais. Quem melhor pode lidar com questões éticas são seres humanos conscientes  - jornalistas e editores bem treinados, informados e responsáveis.” (…)

 

 

O texto original de Aidan White, na Ethical Journalism Network, e a sua tradução na pág. 7 da edição em Português do Correio da UNESCO

Connosco
A prisão solitária do “egosistema digital” como doença contagiosa do nosso tempo Ver galeria

Há uma geração zombie deambulando pelas ruas sem levantar os olhos dos seus ecrãs, teclando no Whatsapp ou consultando o Facebook. Até os restaurantes se tornaram mais silenciosos, porque chamamos o empregado tocando num botão e conversamos à distância pelo smartphone sem prestar atenção aos vizinhos de mesa que estão a fazer exactamente o mesmo. Não é uma mudança tecnológica, é uma revolução sociológica. E o vírus é contagioso, impregnou o espaço do cosmos. Todos fomos contagiados pela doença do nosso tempo, o egosistema digital.

O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público Ver galeria

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


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Opinião
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Peter Barbey, actual proprietário (desde 2015) do The Village Voice, anunciou em 22 de Agosto o fim da edição impressa do semanário nova-iorquino, após 62 anos de publicação, continuando a ser produzida a versão digital. A edição impressa – gratuita desde há 21 anos -  tinha actualmente uma tiragem de 120 mil exemplares, enquanto a versão digital, segundo a comScore (empresa de análise de...
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4º Workshop de Pós-Graduação em Ciência da Informação
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09:00 @ Cenjor, Lisboa
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Out
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