Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Opinião

A “Voice” da “Village” agora só audível em digital

por J.Botelho Tomé

Peter Barbey, actual proprietário (desde 2015) do The Village Voice, anunciou em 22 de Agosto o fim da edição impressa do semanário nova-iorquino, após 62 anos de publicação, continuando a ser produzida a versão digital. A edição impressa – gratuita desde há 21 anos -  tinha actualmente uma tiragem de 120 mil exemplares, enquanto a versão digital, segundo a comScore (empresa de análise de media), citada pelo The Hollywood Reporter, teve cerca de 1,3 milhões de visitantes no passado mês de Julho.

O desfecho não foi inesperado, por ser conhecida a difícil situação financeira do The Village Voice, mas não deixa de ser um desapontamento para os fiéis do semanário ou apreciadores da sua história. Há dois anos tinham recebido com renovada esperança a notícia da sua aquisição por Barbey, experiente “publisher” do Reading Eagle, um jornal diário da cidade de Reading, na Pensilvânia, e membro de uma das 50 famílias mais ricas dos E.U.A., investidora importante da VF Corporation, dona da Timberland, Nautica, Lee Jeans, Wrangler e muitas outras marcas de vestuário informal.

 

Pode dizer-se que se Peter Barbey - com a sua experiência de longa data na imprensa, os seus recursos financeiros, e o seu empenho na sobrevivência da publicação - não conseguiu salvar a edição impressa doThe Village Voice, mais ninguém conseguiria.     

 

The Village Voice impressotorna-se assim a vítima mais recente, e certamente uma das mais famosas e lamentadas, da conjugação de dois factores mortíferos: a migração de publicidade dos media impressos para os digitais, que tem deixado inúmeras publicações impossibilitadas de cobrir os seus custos de operação, mesmo depois de penosas reduções de despesa em pessoal e reportagem exterior; e a preferência de um número crescente de leitores pelo consumo de notícias através de meios electrónicos. Pela primeira vez em mais de dois séculos, para mais de metade das populações em todos os continentes, a fonte primária de informação àcerca do que vai pelo mundo, perto ou longe, deixou de ser um jornal de papel ou uma revista impressa.           

 

Para muitos nova-iorquinos de sucessivas gerações - desde a dos “baby-boomers” (nascidos entre 1946 e 1964) até à dos “millenials” (nascidos entre 1980 e o fim do século passado) -  durante mais de seis decénios, desde meados do século passado, os planos para o fim-de-semana seguinte começavam a desenhar-se à 4ª feira. Era o dia em que uma nova edição do The Village Voice aparecia nas mil caixas vermelhas do semanário espalhadas por Nova Iorque, com informação detalhada sobre os espectáculos, eventos e artistas programados para os dias seguintes, na “cidade que nunca dorme”. 

 

A procura não se limitava, porém, a leitores em busca dessas informações práticas. The Village Voice, fundado em 1955 por um triunvirato de que fazia parte o escritor Norman Mailer (já então bem conhecido, desde a publicação do seu livro “Os Nús e os Mortos”, sete anos antes), foi o primeiro de um género de publicação quase exclusivamente americano, que viria a ser genéricamente designado por “alternative newsweekly” ou, na sua versão mais comum, “alt-weekly”.

 

A designação de “alternative” foi criada para The Village Voice porque representava uma alternativa iconoclástica à imprensa tradicional de Nova Iorque, vista por alguns como pouco inquisitiva, demasiado circunspecta e avessa a “fazer ondas”, ou seja, a tomar posição àcerca dos acontecimentos noticiados, e porque o novo semanário fazia questão de cobrir “alternative lifestyles” - actividades e interesses de sectores de população então considerados marginais e ignorados pela imprensa tradicional, para não alienar os seus leitores mais conservadores.

 

Ora esse conteúdo iconoclástico foi precisamente o que atraíu muito do público do The Village Voice e esteve na origem do seu êxito. Tendo começado por cobrir a “Village” (Greenwich Village, um enclave tradicionalmente boémio e artístico de Nova Iorque), o novo semanário acabou por alargar a cobertura ao resto da cidade.   

 

The Village Voice foi também pioneiro na perfilhação de um género de reportagem designado por “point of view journalism”, em que o jornalista toma partido, abertamente, por pessoas, organizações ou causas objecto da sua reportagem, em vez de se limitar a seleccionar e  apresentar factos e protagonistas, deixando os leitores extrair as conclusões que entendam.

 

É um processo controverso, em que o jornalista não tenta sequer dissimular as suas preferências e discordâncias, e que para os seus críticos transforma o jornalista, de testemunha imparcial e objectiva, em apologista, advogado ou propagandista, apagando a fronteira entre reportagem e opinião.

 

Desde a sua adopção pelos “alt-weeklies”, porém, o processo deixou de ser exclusivo destes. Gradual e imperceptívelmente, ao longo dos anos, a escola alargou-se até a bastiões da imprensa tradicional, como o The New York Times, The Washington Post e outros, cujos títulos e conteúdo, por vezes, agora pouco ou nada se distinguem dos que antigamente eram timbre dos “alt-weeklies” ou de tablóides sensacionalistas. O fenómeno é particularmente notório no noticiário político, designadamente na cobertura da administração Trump. 

 

The Village Voice foi o primeiro “alt-weekly” a aparecer, mas não é o primeiro a fechar e certamente não será o último. Nos últimos três anos, The Boston Phoenix, o San Francisco Bay Guardian, o Philadelphia City Paper e o Baltimore City Paper também desapareceram, para citar apenas alguns dos principais. Restam bastantes, mas com sobrevivência sob prognóstico reservado. Segundo a associação do sector (Association of Alternative Newsmedia, AAN), ainda existem na América mais de 100 “alt-weeklies”, com cerca de 38 milhões de leitores das suas edições impressas e digitais.

 

Como citada por David Barnett, no Independent de 26 de Agosto, a AAN define os seus membros como partilhando “estes atributos comuns: foco intenso nas notícias, cultura e arte locais; estilo informal e por vezes desabrido; insistência em “point of view reporting”; tolerância pelas liberdades e diferenças individuais; e prioridade a assuntos e grupos que os media tradicionais ignoram. Os membros da AAN dizem a verdade aos poderosos”. É uma definição que corresponde exactamente àquilo que os leitores do The Village Voice encontraramno semanário desde o seu lançamento. 

                                                                                                                    

 

 

 

Durante os seis decénios da sua existência, o semanário coleccionoutrês prémios Pulitzer de jornalismo, teve vários proprietários - entre os quais Rupert Murdoch, cujo império mediático inclui The Times de Londres, The Wall Street Journal e o canal noticioso Fox News – e contou entre os seus colaboradores luminárias da literatura americana como Ezra Pound, Henry Miller, James Baldwin, Katherine Anne Porter, E. E. Cummings, Tom Stoppard e Allen Ginsberg.

 

Em certo sentido, The Village Voice, viabilizado pela micro-cultura de Greenwich Village do século XX, era hoje um anacronismo. A “Village” - uma parte de Lower Manhattan centrada em Washington Square Park, entre a Broadway a leste e o rio Hudson a oeste, ocupando uma área com um perímetro inferior a 3,5 kms e menos de 25 mil residentes – era aquando do lançamento do semanário uma espécie de enclave inconformista de Nova Iorque, culturalmente rico e vibrante, com uma aura artística “avant-garde”.

 

A “Village”, onde já Edgar Allan Poe tinha vivido no século anterior, era então procurada não apenas pelo seu ambiente boémio e tolerante mas também, e talvez ainda mais, pelas rendas de casa, relativamente baixas para Manhattan e acessíveis a quem queria viver próximo do centro de Nova Iorque mas não tinha posses para alugar casa mais para norte.

 

Essa combinação atraiu, ao longo dos anos, residentes mais tarde célebres como o dramaturgo Edward Albee, actores como Robert De Niro, Julia Roberts, Leonardo DiCaprio, Julianne Moore e Alec Baldwin e cineastas como Brian De Palma, muitos dos quais contribuiram para que a “Village” fosse escolhida como cenário de numerosos filmes centrados em Nova Iorque.

 

Em consequência, Greenwich Village foi ficando cada vez mais na moda e apetecível para milionários, desejosos de um “pied à terre” em Manhattan, mas em ambiente mais informal, menos denso e mais “relaxed” do que o das grandes avenidas de Midtown. O resultado é que hoje a “Village”  é uma das áreas residenciais mais caras de Nova Iorque, onde o metro quadrado orça pelos 25 mil dólares, ou seja, um modesto apartamento de 100 metros quadrados anda pelos 2,5 milhões de dólares.

 

A “Voice” de 2017 tinha deixado de ser a de uma “Village” que hoje só existe na memória dos poucos sobreviventes da era romântica do seu lançamento. Greenwich Village tornou-se de certo modo a antítese da cultura que deu vida à sua “Voice”. É triste, mas talvez apropriado, que também a sua voz impressa, de uma era em que a imprensa se imprimia, se tenha extinguido.        

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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