Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

O “Village Voice” perde o papel de património "alternativo" de Nova Iorque...

O jornal Village Voice, uma peça do património “alternativo” de Nova Iorque, vai deixar de ser editado em papel. Sessenta e dois anos depois da sua fundação  - entre outros pelo escritor Norman Mailer -  vamos continuar a esperar dele o que é oferecido à entrada do seu site  -  “as notícias, comida, cultura e eventos de Nova Iorque” -  mas daqui em diante só mesmo na versão online. Esta notícia é recebida com aquele misto de resignação e de respeito pelo luto que levamos aos funerais.

“Durante mais de 60 anos, o Village Voice desempenhou um grande papel no jornalismo, na política e na cultura americana”, diz o comunicado de Peter Barbey, descendente de uma família de donos de jornais e proprietário do Village Voice desde 2015.

 

Segundo o Público, que aqui citamos, Barbey acrescenta que o jornal “foi um farol para o progresso e uma voz, literal, para milhares de pessoas cujas identidades, opiniões e ideias de outra forma poderiam não ter sido ouvidas".

 

O Village Voice recebeu três vezes o Pulitzer Prize e passaram por ele outros romancistas, como “Henry Miller, Ezra Pound ou James Baldwin, e jornalistas como Lester Bangs, cronista da cena musical dos anos 1960 e 70, ou a ensaísta e feminista Ellen Willis”. (...)

 

“O que dava mais poder ao Voice não era o facto de ser impresso ou de sair todas as semanas”, mas sim o de ter permanecido "vivo" e de ter evoluído “a par e reflectindo os tempos e o mundo em evolução à sua volta”. Agora, defende Barbey em linguagem de negócios, quer que o jornal seja visto como uma ‘marca’. “Quero que a marca Village Voice represente isso para uma nova geração de pessoas  – e para gerações vindouras”. (...)

Num tom de balanço final, “quase epitáfio”, The New York Times escreve sobre o Village Voice:

“Sem ele, e partindo do princípio de que [você] é um nova-iorquino de uma certa idade, é muito provável que não tivesse encontrado o seu primeiro apartamento. Que nunca tivesse descoberto a sua banda punk favorita, que nunca tivesse declamado o seu primeiro jargão literário pós-estruturalista, comprado aquele lamentável sofá futon, descoberto Sam Shepard ou verificado as perfídias dos representantes eleitos em Nova Iorque.” (...) 

 

 

Mais informação no Público e em The New York Times. O site de Village Voice

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

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O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

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