Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Fórum

Os jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões no diagnóstico da informação

A história de como a Internet, depois de ter prometido dar voz e libertação a todos os marginalizados, desembocou na presente ditadura das fake news em “rede social”, é uma longa teia de ilusões aceitáveis e de equívocos pouco inocentes. O jornalista Marcelo Rech, presidente do Fórum Mundial de Editores, desfia esta narrativa num artigo extenso, mas de leitura indispensável. É melhor percebermos como chegámos até aqui. E, se pudermos, mantendo a atitude que ele escolheu como título  -  “Uma chance para o optimismo”.

Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Algumas dessas ilusões aceitáveis chegaram há cinco anos, “na esteira da Primavera árabe”. O autor explica como “a cada acção corresponde uma reacção” e basta seguir “as pegadas digitais nas redes sociais e nos sistemas de trocas de mensagens” para que a mesma rede que trouxe a comunicação libertária entre milhões de oprimidos possa ser usada para os identificar e reprimir, um por um. 

“Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça. O produto de Facebook e Google é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. No caso das redes, havia outro fenômeno em formação sem que nem seus criadores se dessem conta dos efeitos tóxicos que estavam gestando.” 

“Ao fragmentar o mundo em bolhas de opinião e interesses, o algoritmo que define o que cada um vai ver ou ler oferece ao usuário mais do mesmo, na expectativa de que ele se manifeste, compartilhe ou dê likes sobre o conteúdo, revelando assim mais e mais sobre si mesmo. (...) Para incentivar engajamento, o algoritmo esquadrinha o comportamento dos indivíduos e divide-os. (...) 

Um não quer saber do outro e, mesmo que quisesse, o algoritmo não pretende ajudar a construir uma ponte entre os dois universos. Ao contrário, ele reforça as crenças e valores de cada usuário, que, quanto mais se engaja com um enfoque, mais recebe sobre ele. E assim teve início a escalada de intolerância que assusta a quem acompanha as consequências do pugilato digital.” 

“Outro efeito colateral, não previsto nos primórdios das redes: para conquistar adeptos e likes, o usuário tem de postar ou compartilhar conteúdos cada vez mais espetaculares e radicais, num crescendo de virulência robustecido a todo instante pelo algoritmo.” (...)  

“Sem barreiras legais ou éticas, especialistas em adulteração de informações passaram a agir nos desvãos das campanhas. Nas Filipinas, a foto de uma menina de nove anos, que teria sido morta por usuários de drogas, foi decisiva para a eleição do truculento Rodrigo Duterte em 2016, meses antes de Trump.”

“A menina fora assassinada no Brasil em 2014, mas quem se importa com os desmentidos? Nas redes, a mentira sobe de elevador, enquanto a aborrecida correcção segue, resfolegante, pelas escadas. Durante a campanha, o odor de sangue transformou os eleitores filipinos em tubarões sedentos de carne, numa escalada que só foi possível graças às redes sociais.” (...) 

Marcelo Rech conclui com uma imagem recolhida da saúde pública:

“Para atender à demanda por uma qualidade superior, jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões  – de modo rápido e preciso –  sob pressões tremendas, desviando-se de armadilhas ocultas, sem praticamente nenhum espaço para o erro.” (...) 

“Naturalmente, como na história do diagnóstico médico, há bons e maus doutores, centros de saúde de referência e outros que mereceriam ser fechados. Achar o melhor jornalista e marca jornalística será como identificar os melhores médicos e hospitais. No futuro, com a sofisticação dos processos de selecção de informação e avaliação de fontes, a reputação será o grande divisor de águas entre curandeiros da notícia e profissionais do jornalismo de alto nível.” (...)

  
Leia o artigo na íntegra, o terceiro desta série, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...