Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Fórum

Os jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões no diagnóstico da informação

A história de como a Internet, depois de ter prometido dar voz e libertação a todos os marginalizados, desembocou na presente ditadura das fake news em “rede social”, é uma longa teia de ilusões aceitáveis e de equívocos pouco inocentes. O jornalista Marcelo Rech, presidente do Fórum Mundial de Editores, desfia esta narrativa num artigo extenso, mas de leitura indispensável. É melhor percebermos como chegámos até aqui. E, se pudermos, mantendo a atitude que ele escolheu como título  -  “Uma chance para o optimismo”.

Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Algumas dessas ilusões aceitáveis chegaram há cinco anos, “na esteira da Primavera árabe”. O autor explica como “a cada acção corresponde uma reacção” e basta seguir “as pegadas digitais nas redes sociais e nos sistemas de trocas de mensagens” para que a mesma rede que trouxe a comunicação libertária entre milhões de oprimidos possa ser usada para os identificar e reprimir, um por um. 

“Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça. O produto de Facebook e Google é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. No caso das redes, havia outro fenômeno em formação sem que nem seus criadores se dessem conta dos efeitos tóxicos que estavam gestando.” 

“Ao fragmentar o mundo em bolhas de opinião e interesses, o algoritmo que define o que cada um vai ver ou ler oferece ao usuário mais do mesmo, na expectativa de que ele se manifeste, compartilhe ou dê likes sobre o conteúdo, revelando assim mais e mais sobre si mesmo. (...) Para incentivar engajamento, o algoritmo esquadrinha o comportamento dos indivíduos e divide-os. (...) 

Um não quer saber do outro e, mesmo que quisesse, o algoritmo não pretende ajudar a construir uma ponte entre os dois universos. Ao contrário, ele reforça as crenças e valores de cada usuário, que, quanto mais se engaja com um enfoque, mais recebe sobre ele. E assim teve início a escalada de intolerância que assusta a quem acompanha as consequências do pugilato digital.” 

“Outro efeito colateral, não previsto nos primórdios das redes: para conquistar adeptos e likes, o usuário tem de postar ou compartilhar conteúdos cada vez mais espetaculares e radicais, num crescendo de virulência robustecido a todo instante pelo algoritmo.” (...)  

“Sem barreiras legais ou éticas, especialistas em adulteração de informações passaram a agir nos desvãos das campanhas. Nas Filipinas, a foto de uma menina de nove anos, que teria sido morta por usuários de drogas, foi decisiva para a eleição do truculento Rodrigo Duterte em 2016, meses antes de Trump.”

“A menina fora assassinada no Brasil em 2014, mas quem se importa com os desmentidos? Nas redes, a mentira sobe de elevador, enquanto a aborrecida correcção segue, resfolegante, pelas escadas. Durante a campanha, o odor de sangue transformou os eleitores filipinos em tubarões sedentos de carne, numa escalada que só foi possível graças às redes sociais.” (...) 

Marcelo Rech conclui com uma imagem recolhida da saúde pública:

“Para atender à demanda por uma qualidade superior, jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões  – de modo rápido e preciso –  sob pressões tremendas, desviando-se de armadilhas ocultas, sem praticamente nenhum espaço para o erro.” (...) 

“Naturalmente, como na história do diagnóstico médico, há bons e maus doutores, centros de saúde de referência e outros que mereceriam ser fechados. Achar o melhor jornalista e marca jornalística será como identificar os melhores médicos e hospitais. No futuro, com a sofisticação dos processos de selecção de informação e avaliação de fontes, a reputação será o grande divisor de águas entre curandeiros da notícia e profissionais do jornalismo de alto nível.” (...)

  
Leia o artigo na íntegra, o terceiro desta série, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

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“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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