Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Algoritmos aplicados na limpeza de noticias falsas

A chamada “era de ouro das notícias falsas” não tem mais de dois anos, e está hoje bem documentada, pelo que vale a pena rever a sua história. É este o tema de um artigo do jornalista Nelson de Sá, da Folha de S. Paulo, que descreve o que se passou com o “duopólio” Google-Facebook  -  a sua inicial desvalorização do problema, as tentativas de auto-justificação, as primeiras medidas de controlo e o reconhecimento de que a estrutura de financiamento das grandes plataformas está edificada para premiar o que é “viral”, não o que é verdadeiro.

Os primeiros casos de falsificação “eram relativamente inofensivos”,mas alguma coisa mudou.

“Alan Rusbridger, editor-chefe do Guardian por 20 anos, até 2015, e hoje director do Reuters Institute for the Study of Journalism, classifica três categorias de notícia falsa: aquelas deliberadamente inventadas para ganhar dinheiro; as criadas em campanha com fins políticos; e as surgidas, por exemplo, num site de humor, mas compartilhadas negligentemente como notícia.” 

“As três são estimuladas ou facilitadas tanto por Facebook quanto por diversas plataformas do Google, mas sobretudo a primeira categoria, pois o duopólio premia páginas e sites de acordo com o tráfego que geram para os anúncios.” (...) 

“Parte do dinheiro dos anunciantes é transferido pelo duopólio para as páginas e sites, não importando se veiculam notícias falsas ou discurso de ódio. Pelo contrário, quanto mais sensacionalista o post, maiores a audiência e o ganho com publicidade.” (...) 

Estavam criadas as condições para todos os desastres e todas as tempestades. “Emily Bell, jornalista inglesa hoje na direção do Tow Center for Digital Journalism, da Columbia University, vislumbrou no plebiscito britânico [do Brexit] a primeira votação em que o chamado ‘efeito bolha’ contribuiu decisivamente para o desfecho.” (...) 

“O Brexit foi uma introdução. O choque maior veio com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em Novembro de 2016. Foi quando Google e Facebook, este depois de alguma resistência inicial, acordaram para o risco de estarem subvertendo a democracia  – ou pelo menos manchando suas imagens corporativas.” (...) 

O trabalho de Nelson de Sá descreve as medidas que foram depois tomadas pelas plataformas gigantes para modificarem “os seus algoritmos de busca, no caso do Google, e de composição do feed de notícias, do Facebook”. (...) 

Mas a segurança é sempre provisória, como conclui: 

“Ainda assim, falta transparência. O Facebook chegou a citar um relatório que identificou a acção de agentes governamentais na França, dando a entender que seriam ligados à Rússia. Nada, porém, sobre agentes ligados aos Estados Unidos  – que agiram na eleição francesa anterior, como revelou o WikiLeaks.”

 

Este e outros trabalhos podem ser lidos, na íntegra, sob o título colectivo “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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