Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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A civilização da pós-verdade está de ressaca depois de eleita como palavra do ano

Convém recordar os factos recentes: “Em Setembro de 2016, o semanário inglês The Economist saiu com uma capa sobre a ‘pós-verdade’, e até ali tudo bem. No final do mesmo ano, o termo ‘pós-verdade’ foi declarado ‘a palavra do ano’ pelo Dicionário Oxford, como um qualificativo de ‘um ambiente em que os factos objectivos têm menos peso do que apelos emocionais ou crenças pessoais em formar a opinião pública’. A questão, como se nota, não é bem ‘a verdade’  – filosófica, ontológica, metafísica, religiosa etc. –, mas os factos. Esse é o ponto.”

É nestes termos esclarecedores que se pronuncia o editorial  - intitulado “Da pós-verdade à pós-imprensa” -  da Revista de Jornalismo da ESPM, a edição brasileira da Columbia Journalism Review, cujo conteúdo produzido no Brasil passa a ser publicado no Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O texto parte da distinção estabelecida por Walter Lippmann, no início do século passado, entre notícia e verdade, sendo função da primeira “sinalizar um evento”, e função da verdade “trazer luz para factos ocultos, relacioná-los a outros, e traçar um retrato da realidade a partir do qual os homens possam actuar”.

Mas o editorial que citamos procura uma definição mais modesta da função do jornalismo:

“Essa história de ‘iluminar’ factos ocultos é bastante problemática. Até para os iluministas, aos quais devemos as ideias fundadoras da Imprensa, já era muito complicado.Quando muito, o jornalismo pode pretender estimular um ambiente de debate público em que os factos de interesse geral fiquem mais acessíveis à inteligência dos cidadãos. Se registar os factos, apenas isso, ‘com tudo que é insolvente e provisório’ (na síntese pouco jornalística de Carlos Penna Filho), já terá prestado um excelente serviço à sociedade.” (...) 

Reconhece, então, que o tema desta edição não tem nada a ver com ‘a verdade’, nesse sentido mais profundo do termo, “mas apenas com a ‘pós-verdade’, ou, pior, com a ressaca dessa overdose de ‘pós-verdade’ que nos entorpece há alguns anos”. (...) 

Este clima que nos constrange é assim definido:

“Estaríamos vivendo uma era em que os factos deixaram de lastrear as condutas e as acções humanas. Se isso for mesmo verdade, quer dizer, se o pós-facto é mesmo um facto, a política deixa de ser política  – vira uma obra coletiva de ficção, num grau superior ao que pudemos testemunhar em eras anteriores.” (...) 

A sua conclusão provisória é que, “para dizer a verdade, a civilização não anda bem, ainda que esta revista ainda esteja aqui, no front.” (...)

 

O editorial citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa, e a notícia da parceria com a Revista Brasileira de Jornalismo da ESPM, a edição brasileira da Columbia Journalism Review

Ilustração retirada do site Gurupi - Atualidades

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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