Sábado, 25 de Maio, 2019
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Manual para combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e fontes

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

O seu artigo, que aqui citamos da International Journalist’s Network, remete-nos para um estudo do CPJ - Comité para a Protecção dos Jornalistas, cuja apresentação começa precisamente pela questão delicada da protecção das fontes: 

“Houve um tempo em que um jornalista nunca entregava uma fonte confidencial. Quando alguém vem à nossa frente, de modo anónimo, para informar o público, é preferível corrermos o risco de ir presos do que denunciar essa pessoa. Esta responsabilidade ética era também uma necessidade prática e profissional. Se o jornalista lhe promete o anonimato, tem que o manter. Se o jornalista não respeita a sua própria palavra, quem vai confiar nele, no futuro? As fontes vão ter com outros e as suas reportagens perdem-se.” 

É neste ponto que Jorge Sierra introduz uma questão prévia: se um jornalista pretende defender-se da vigilância electrónica, como é que sabe que ela está a acontecer? E desenvolve algumas regras de segurança:

  1. Esteja atento. A vigilância electrónica pode ser usada para preparar ataques ainda mais sérios, se outras formas de intimidação não detêm a investigação de um jornalista. Em qualquer caso, deve dar conta do facto às autoridades e buscar apoio de outros colegas, dos seus media e de grupos como o CPJ e os Repórteres sem Fronteiras, por exemplo.
  2. Proteja os seus aparelhos. Computadores, telemóveis ou tablets, todos devem ser protegidos por antivírus, codificação do disco rígido e palavras-chave e senhas resistentes. Esta é a primeira linha de defesa.
  3. Siga boas práticas de segurança. Atenção às mensagens por e-mail que o convidam a abrir um link qualquer, que pode importar um software de vigilância  - mesmo que tenha confiança no remetente.
  4. Verifique os seus dados. Se suspeita de alguma coisa, vá ver se houve um aumento súbito na utilização dos dados. Se estiver activo um software intruso, ele vai chamar o seu plano de dados, para extrair fotos, mensagens, contactos, vídeos, etc.
  5. Verifique a bateria. Uma bateria a ficar fraca pode indicar que há um programa intruso a funcionar e a tirar-lhe energia. Veja se ela consome mais energia do que dantes, quando está ligada à Internet.
  6. Verifique a temperatura do aparelho. Se não está a usá-lo e ele parece mais quente, isso pode ser outro indicador de que há um programa intruso a correr.
  7. Reconfigure o aparelho. Se suspeita que o seu dispositivo móvel foi infectado, tire um back-up de todos os dados e reponha os parâmetros de fabrico.
  8. Codifique as suas comunicações. Há boas opções ao seu dispor, como OpenPGP e MeetJitsi, ou a Signal, aplicação preferida por muitos jornalistas de investigação.
  9. Preste atenção a outras formas de vigilância. Veja também o ambiente físico à sua volta. Há carros suspeitos perto do seu escritório, ou de casa? Os jornalistas que fazem trabalho de alto risco devem certificar-se de que não são seguidos, principalmente se vão contactar uma fonte sensível.

 

O artigo original, no IJNet, e a apresentação do livro Attacks on the Press, do CPJ. Outros estudos recentes, no site do CPI

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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